Pluralidade econômica e democracia *

Isabelle Hillenkamp e Jean-Louis Laville

poliA nova Sociologia Econômica e a Escola das Convenções, ao se concentrarem nos microarranjos, podem subestimar as forças do mercado, enquanto as macrossínteses, tais como a Teoria da Regulação, podem superestimá-las, conferindo ao cosmos capitalista um caráter implacável. Por levar em conta as formas não mercantis de coordenação e a interação entre grandes áreas institucionais, a Sociologia Econômica francófona certamente aprofunda mais a análise das relações complexas entre economia e sociedade do que a nova Sociologia Econômica norte-americana, centrada na construção social dos mercados. Mas nenhuma delas, ao menos em seus desdobramentos principais, aborda de maneira aprofundada a questão crucial dos vínculos entre pluralidade econômica e política. Assim, por um lado, a insuficiente consideração das forças do mercado na nova Sociologia Econômica e na Escola das Convenções pode levar a ver apenas a extrema variabilidade dos mercados; por outro, a focalização nas forças do mercado operada pelas macrossínteses pode culminar em um horizonte limitado pelas formas institucionais do capitalismo. Todas essas abordagens, bem contrastadas, avalizam, finalmente, a centralidade do fato mercantil no fato econômico. Por razões opostas, as interrogações sobre a conciliação entre fato mercantil e ordem política, assim como aquelas sobre a compatibilidade entre capitalismo e democracia, são deixadas de lado, embora sejam essenciais para inúmeros autores de Filosofia Política. Jürgen Habermas (1981) destaca que “entre capitalismo e democracia, há uma relação de tensão insuperável”.

Portanto, convém reagir a uma visão estrita da neutralidade axiológica, que deixaria sem resposta essa problemática, reanimada pela crise atual. O cientificismo ofuscado pela purificação em relação a qualquer valor é epistemologicamente insustentável em um período em que toda a sociedade se preocupa com a relação com a economia. Numa orientação análoga àquela defendida por Philippe Chanial (2011), parece necessário optar por uma Sociologia Econômica associada a uma reflexão filosófica. Isso constitui a primeira característica deste livro, que começa por textos de Filosofia Política e prossegue com capítulos de Economia ou de Sociologia, postulando uma continuidade e uma contiguidade nas preocupações dos articuladores. Todos eles investigam as relações entre economia e sociedade sob o ângulo da preservação e do aprofundamento da democracia, a partir do suporte essencial da obra de Karl Polanyi, que trata dos laços entre pluralidade econômica e política.

Para além da pluralidade das formas de racionalidade e dos modos de coordenação, Polanyi (2011) identifica o sofisma economista, isto é, a redução da economia ao mercado, como um problema maior de nossa época, sugerindo indiretamente que a reabilitação de uma pluralidade de princípios de integração econômica poderia lhe fornecer uma solução. Ele concede um grande espaço à demonstração da existência dessa pluralidade de princípios “de integração econômica”: além do mercado, a reciprocidade, a redistribuição e a administração doméstica constituem, segundo o autor, “princípios de comportamento” pelos quais “a ordem é […] garantida na produção e na distribuição” (Polanyi, 1944). Se o sofisma corresponde à definição formal da economia pela raridade que determina o caráter lógico da relação entre os meios e os fins, o reconhecimento da pluralidade dos princípios de integração coincide com uma definição substantiva da economia. Tal definição admite a dependência do homem à natureza e a seus semelhantes e considera que a satisfação das necessidades humanas passa por uma interação institucional (ibid.). Nesse sentido, uma Sociologia Econômica atenta à pluralidade institucional e política não pode se contentar nem com o exame detalhado de mercados particulares, nem com a constatação recorrente de uma dominação capitalista. Mostra-se indispensável articular uma crítica às tentativas de absolutização da ordem econômica que repousa sobre sua definição formal a uma atenção pragmática às práticas socioeconômicas que ultrapassam os mercados, mobilizando princípios e integração visibilizados por uma concepção substantiva da economia. Desse modo, Polanyi alerta para uma Sociologia Econômica de alcance limitado, inteiramente construída a partir do conceito de troca, que só é universal em uma sociedade de mercado. Ele defende uma ampliação do ponto de vista da análise a fim de cobrir “estas zonas em que se encontram as fronteiras da economia de mercado e da economia sem mercado” (Polanyi, 1963, citado por Chavance, 2011).

 

* Fragmento da introdução do livroSocioeconomia e democracia: a atualidade de Karl Polanyi, organizado por Isabelle Hillenkamp e Jean-Louis Laville

Controle e disciplinamento da força de trabalho. Estratégias e resistências

Por Lorena Holzmann *

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A relação capital-trabalho no interior das empresas é mediada por práticas de organização do trabalho e da produção que asseguram ao capital a realização de seus objetivos, prioritariamente sua própria valorização.

O papel do polo do trabalho nessa relação não é de simples receptor da organização que emana das direções das empresas; ele é agente ativo, que consente e/ou rejeita as formas de trabalhar que lhe são impostas. O componente de resistência está presente no dia a dia de trabalho, de modo latente ou manifesto, pois os interesses fundamentais de trabalhadores e de empresários são inerentemente conflitantes. Essa oposição confere dinâmica a essas relações, induzindo à formulação de estratégias que respondam a essa oposição. Cada iniciativa do capital suscita, no polo do trabalho, uma reação de resistência àquela iniciativa, que provoca entraves à dominação do capital, levando-o a uma reação para fazer frente à nova situação gerada. Produz-se um contínuo jogo de ações e reações, no qual cada evento pode ter um longo período de duração, quando vão sendo gestadas e implantadas as estratégias de dominação e vai se construindo a resistência dos dominados. Assim ocorreu quando da implantação do taylorismo e do fordismo nas primeiras décadas do século XX, sistemas de organização do trabalho e da produção que só encontraram sua plenitude após a II Guerra Mundial.

O ambiente externo, econômico, político, social e cultural desempenha papel importante e decisivo nas possibilidades de êxito do jogo permanente que se trava no interior das empresas. São fatores decisivos a viabilizar ou não transformações, nos processos de trabalho e de produção, nos locais de trabalho: o desempenho da economia, gerando postos de trabalho ou produzindo o desemprego; a correlação de forças políticas articulando um sistema institucional de leis que protege o trabalho, ou inviabilizando a obtenção de conquistas laborais; a capacidade organizativa de segmentos vinculados à problemática do trabalho ou sua debilidade; tradições de luta ou de submissão a uma hierarquia social. É a tradução, no interior das empresas, dos elementos constitutivos da sociedade na qual a produção se realiza. Os textos reunidos nesta publicação tratam desses temas.

O primeiro texto é uma revisão dos verbetes taylorismo, fordismo e toyotismo, publicados originalmente no Dicionário de Trabalho e Tecnologia (organizado por Antonio David Cattani e Lorena Holzmann). É incluído nesta publicação por tratar das proposições conceituais de sistemas de organização do trabalho e da produção, de sua origem e implantação em contextos históricos específicos e de sua difusão e adoção em espaços/tempos distintos, nos quais passam pela adaptação a condições econômicas, sociais, políticas e culturais localizadas, levando à sua reinterpretação. Esses sistemas, centrados no modo de trabalhar, têm se constituído nos instrumentos mais eficazes para o exercício do controle do capital sobre o trabalho e na extração de seu sobretrabalho no seu fazer cotidiano.

Os outros dois textos desta obra são capítulos inéditos de minha tese de doutorado, parte da qual, defendida em 1992, na Universidade de São Paulo, foi publicada sob o título Operários sem patrão. Gestão cooperativa e dilemas da democracia.

No segundo texto, são abordados o processo de industrialização no Rio Grande do Sul, iniciado nas últimas décadas do século XIX, e suas especificidades no contexto nacional. Evidencia-se a impropriedade de generalizações sobre a formação de um setor industrial no Brasil, feitas a partir do estudo do processo em outras regiões do país, sobretudo nas que eram ou vieram a ser os polos mais importantes da formação desse setor. Estreitamente vinculada ao complexo imigrante, a industrialização no Rio Grande do Sul confrontou-se com uma base artesanal constituída a partir do desenvolvimento daquele complexo e a destruiu, em consequência da competição desigual entre as duas formas de organizar a produção e suas respectivas bases técnicas. Mas, em decorrência do processo de acumulação de capital menos intenso do que em outras regiões do país, a industrialização no RS não nasce altamente mecanizada ou organizada em grandes estabelecimentos (à exceção do sul do estado, no eixo Rio Grande – Pelotas, vinculado à economia do charque, na qual as atividades de transformação, precedidas de um processo de acumulação de grandes capitais, assumem a feição de grande indústria) mas vai se constituindo por meio de estabelecimentos de pequeno porte, que substituem, fazendo desaparecer, empreendimentos locais, de base artesanal, voltados para o suprimento de bens para as populações locais.

Examinam-se, nesse texto, a formação de capital e de um mercado de trabalho, assim como a formulação de estratégias de controle e disciplinamento da força de trabalho para a indústria nascente, bem como iniciativas do empresariado para qualificá-la. Simultaneamente, os trabalhadores buscam se organizar em torno de seus interesses como assalariados e na defesa de suas práticas autônomas no trabalho e no aprendizado profissional.    

O terceiro texto é o estudo de caso de uma grande empresa gaúcha, a Metalúrgica Wallig, na adoção da organização racional do trabalho, baseada em princípios tayloristas e fordistas. Tal processo ocorreu nos anos 1950, no contexto de acelerada industrialização no país e de mudanças importantes no interior das empresas. O que aconteceu no chão da fábrica é emblemático tanto no que se refere às relações conflituosas entre capital e trabalho em relação à organização do trabalho, quanto às estratégias desencadeadas por trabalhadores e empresários diante do desafio do crescimento.

O vetor comum aos três textos é a organização do trabalho, tanto como formulação conceitual, respondendo a determinadas condições da relação capital-trabalho (texto 1), como examinando sua adoção em situações históricas distintas daquelas em que se originou (textos 2 e 3). Nos três textos, fica evidente a natureza conflituosa entre capital e trabalho, bem como os arranjos que visam a superá-la, numa permanente ciranda de ações e reações indissociáveis da dinâmica capitalista

* Socióloga,  Doutora  em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Professora aposentada do Departamento de Sociologia e professora convidada do PPG Sociologia da UFRGS. Tem trabalhos publicados (livros, capítulos de livros e artigos em periódicos) na área de Sociologia do Trabalho. Em 2006, recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura – Categoria Ensaios, pela obra Dicionário de Trabalho e Tecnologia, organizado em parceria com Antonio David Cattani.

** Apresentação do livro da autora, publicado pela Escritos.

 

Tempo e Trabalho. Gestão, produção e experiência do tempo no teletrabalho

Por Daniela Alves de Alves

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O tempo é uma importante dimensão da organização da vida e do trabalho para todos os seres humanos, e, ao contrário do que costumamos crer, não é apenas a expressão natural do transcurso dos acontecimentos. O tempo é, sobretudo, produzido, gerido e experimentado nas práticas sociais concretas, dentre as quais o trabalho. Não existe trabalho sem tempo, mas que outras associações são estabelecidas entre tempo e trabalho? De que forma tempo é produzido, gerido e experimentado por categorias específicas na relação mutuamente implicada entre tempo de trabalho (tempo profissional) e tempo de não trabalho (tempo não profissional)?

Na vida cotidiana, são frequentes os provérbios relacionados às representações coletivas sobre o tempo: tempo é dinheiro; o tempo voa; quem tem menos tempo, mais faz; o tempo tudo cura. Ao longo da história humana, várias técnicas e artefatos foram inventados para medir e registrar a passagem e a gestão do tempo pelos grupos sociais. Da organização social das atividades religiosas e mundanas, até o disciplinamento dos indivíduos em tarefas produtivas, o tempo foi um importante protagonista. Mas o próprio tempo, como matéria moldável que é, também sofre as ações do tempo. Transformando e sendo transformado pela sociedade, o tempo mobiliza e desafia as ciências sociais a seguir o fluxo dessas mudanças.

Em especial, as relações entre tempo e trabalho têm sido objeto de estudo da sociologia desde o aparecimento dessa disciplina. Na obra de Emile Durkheim, “tempo” aparece como uma categoria do pensamento, indispensável para a regulação da vida em sociedade. Desde então, na teoria social, “tempo” destaca-se como categoria, apresentada como sendo uma das modalidades da capacidade que os seres humanos têm de estabelecer relações entre os acontecimentos, contribuindo para o desenvolvimento de sua capacidade de síntese. A sociologia acompanha a delimitação do tempo como uma categoria representacional, fruto e espelho da vida social, contrapondo-se ao tempo analisado na física, tempo com propriedades naturais próprias, sejam elas inscritas objetivamente na natureza do universo, como proposto por Galileu, ou inscritas na natureza humana, como em Descartes.

A categoria “tempo” tem tido, portanto, um papel central no estudo das formas de organização social e de regramento da vida coletiva desde os primórdios da sociologia. Análises sociológicas contemporâneas, como veremos, prometem agregar outras dimensões ao modelo clássico. A dimensão tempo abordada por Emile Durkheim e por Norbert Elias refere-se ao regramento da vida em sociedade e, portanto, dominante nas relações sociais, como tempo espacializado, medindo o deslocamento de um ponto a outro no espaço. Propomos incorporar a esta dimensão espacializada e cronométrica uma dimensão qualitativa e mutante do tempo, tal como pensada por Phillipe Zarifian, que se manifesta de maneira subterrânea, menos aparente, o tempo-devir.

Nesse sentido, o tempo é uma produção social que ultrapassa os que o produzem, sendo uma produção coletiva, subjetiva, moldável e moduladora, cuja existência depende do duplo movimento de exteriorização da duração, da durée interior, e de interiorização das regras e convenções cronométricas do tempo. Utilizamos “duração” no sentido da concepção bergsoniana de durée, que significa, neste estudo, a experiência individual a respeito da sucessão irreversível do tempo e dos acontecimentos.

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O reconhecimento das convenções referentes às horas do dia, aos dias do ano, etc., não é suficiente para compreendermos como estas convenções são produzidas e experimentadas subjetivamente. O tempo não é apenas uma dimensão social a ser gerida pela coletividade, mas dimensão produzida e modelada socialmente.

O trabalho, por sua vez, constitui-se em lugar privilegiado para a análise do tempo, já que é uma atividade recorrente na vida social e individual, desde o início da história humana. Trabalhar é mobilizar a intensidade da memória, é pensar o devir do que está sendo realizado, é agir, repetindo ou criando. Embora a relação entre trabalho e tempo já tenha sido extensamente abordada na sociologia, propomos analisar esta relação a partir da investigação do teletrabalho e da articulação teórico-metodológica singular entre: a) a perspectiva sociotécnica ou do ator-rede desenvolvida por Bruno Latour, John Law e Michel Callon; b) um conjunto de reflexões teóricas sobre a dimensão subjetiva das mudanças sociais, da qual tomam parte Gilles Deleuze, Michel Foucault e Phillipe Zarifian; c) a concepção de tempo e de duração proposta por Henri Bergson, e sistematizada por Phillipe Zarifian.

O trabalho é considerado, na teoria sociológica, espaço privilegiado das relações sociais. Embora rejeitemos a tese de que o trabalho seja, a priori, categoria sociológica central ou fórum privilegiado de humanização e de realização humana, reconhecemos que ele constitui espaço importante de “engajamento subjetivo”, sendo historicamente uma das principais fontes públicas de reconhecimento e fonte de subsistência e renda individual, embora também seja fonte de exploração e de expropriação, em especial quando se refere ao trabalho produtivo no capitalismo.

Muitas são as mudanças sociotécnicas no trabalho associadas à temporalidade, e, direta ou indiretamente, algumas delas constituem o foco deste estudo. Em geral, trata-se de mudanças sociais de amplo alcance nas sociedades ocidentais mundializadas, quais sejam, a expansão do setor de serviços e da lógica da prestação de serviços nos demais setores de produção; a expansão da economia digital; a segmentação espaço-temporal da produção e a desterritorialização do trabalho; as organizações em rede; a integração do espaço doméstico à lógica do trabalho em rede; a flexibilização da gestão do trabalho; a flexibilização do emprego; a incerteza e a instabilidade experimentadas nas relações de trabalho como fruto do modo individualizado e fragmentado da relação dos sujeitos com a coletividade e com o mercado de trabalho; a preponderância da lógica da competência; a expansão do chamado trabalho imaterial; a instantaneidade, a virtualidade e a simultaneidade das tarefas gerenciadas por computador.

O teletrabalho se apresenta como locus privilegiado de manifestação destes dois conjuntos de transformações sociais recentes, envolvendo: o tempo, como ele se apresenta, se produz e se modula nos grupos sociais; e o trabalho, com suas implicações sobre os agentes sociais. Modalidade de trabalho contemporâneo, ele surge no contexto dessas mudanças sociotécnicas contemporâneas. O teletrabalho é um conceito em construção, no entanto há várias definições que convergem em dois pontos fundamentais, a realização de trabalho a distância da empresa contratante ou distante do cliente que irá usufruir daquele serviço, empresa ou pessoa física, e a utilização intensiva de tecnologias informacionais na realização das atividades. Assim, o teletrabalho não é apenas uma modalidade de trabalho a distância, mas também um elemento das mudanças organizacionais estratégicas que apontam para novas formas de trabalho flexível sustentadas por tecnologias da informação e da comunicação (TICs). A flexibilidade tem expressão na atividade cotidiana de trabalho e no emprego. A literatura e os estudos contemporâneos apontam à tendência de flexibilização nos seguintes aspectos: tempo, local, contrato, organização funcional e conteúdo do trabalho. As mudanças sociotécnicas que envolvem o teletrabalho enfraquecem a lógica taylorista de trabalho, assentada na total separação entre concepção e execução, no trabalho prescrito e repetitivo e na negação das individualidades, e enfraquecem a organização fordista do trabalho, tanto no que se refere à produção industrial em massa quanto no que se refere a um modelo de regulação econômica.

A enorme hibridez do objeto denominado teletrabalho ou do grupo denominado teletrabalhadores mostra que se trata de uma controvérsia em aberto. As principais controvérsias desenvolvidas nas ciências sociais referem-se à definição dos grupos sociais, em primeiro lugar do seu grupo de pertencimento. A definição social do teletrabalho passa pela delimitação de quem são os teletrabalhadores, quem são seus porta-vozes e quais as controvérsias que envolvem a formação deste grupo.

O tema se enquadra nos estudos da área de sociologia do trabalho, na era da informação, os quais, nas palavras de Stanworth (1998), estariam divididos em três níveis: nível global (o papel da economia industrial e o desenvolvimento econômico pós-industrial), nível organizacional (as organizações virtuais, o fim da hierarquia e os escritórios virtuais) e nível da força de trabalho (novas formas de trabalho, liberação da força de trabalho dos constrangimentos do espaço e do tempo). Nosso estudo se localiza neste último nível, na medida em que, nesta obra, refletimos sobre o teletrabalho individualizado. De maneira ampla, consideramos teletrabalho individualizado como sendo trabalho realizado isoladamente, mediado por tecnologias informacionais, e que pressupõe a dissolução tanto das fronteiras tradicionais do espaço do escritório quanto da fronteira temporal do dia de trabalho.

Ao analisar as mudanças no trabalho, seguindo a abordagem sociotécnica, estamos tratando de uma rede, que é também um ator. O ator-rede não seria um conjunto de pessoas em relação, mas uma rede composta tanto por indivíduos, como por conhecimento, grupos, tecnologias, agenciamentos coletivos, usos e apropriações da tecnologia pelos sujeitos. O conceito de rede tem, nessa perspectiva, o significado de um emaranhado de elementos, traços ou entidades desiguais, dentre os quais não é possível atribuir-lhes níveis ou hierarquias. A abordagem sociotécnica, adotada neste estudo, propõe a quebra da dicotomia entre humanos e não humanos, entre tecnologia e sociedade, tratando-os simetricamente, evitando tanto o determinismo tecnológico, como o determinismo social.

Na mesma direção, a perspectiva do devir ou da produção de subjetividade nos parece frutífera para analisar as transformações do mundo contemporâneo, na medida em que são mudanças de ordem material e simbólica ao mesmo tempo.  A partir desse referencial, pressupomos que a realidade social seria nem objetiva, externa, independente dos sujeitos que a constituem, nem fruto apenas de representação, de produção de categorias simbólicas pelos indivíduos. Neste estudo, a realidade é pensada como um plano de confluência de forças, traços ou fluxos de diversas ordens, sem hierarquia ou posições estabelecidas.

A análise foi centrada na singularidade dos indivíduos entrevistados, inseridos em relações socioprofissionais, com a família e com as tecnologias informacionais. Pressupomos que o conceito de sociedade não perde completamente seu poder interpretativo, desde que tomemos algumas precauções teórico-metodológicas: em primeiro lugar, evitar a construção de uma teoria totalizante do social, buscando, ao contrário, centrar nas associações específicas da rede em estudo; em segundo lugar, não separar e não estabelecer hierarquias entre tecnologia e sociedade; em terceiro lugar, não separar indivíduo e sociedade, e seus homólogos, interior e exterior, subjetivo e objetivo, de tal forma que a ação seja vista como uma agência complexa, fruto de inúmeros elementos em rede.

Ao analisar o indivíduo, estamos em busca da singularidade, considerando-a como a condensação de relações sociais. Todos os eventos são singulares, apresentados como privados e coletivos, particulares e gerais, ao mesmo tempo. Interessa compreender de que forma os eventos privados estão presentes no social, e como as forças sociais se vergam sobre o indivíduo.

A hipótese trabalhada nesta obra é de que, no teletrabalho, o tempo é produzido, gerido e experimentado de maneira flexível através da articulação entre autocontrole/ autodisciplinamento e modulação elástica do tempo, significando que, para que o tempo seja produzido nas relações sociais como uma matéria moldável, é necessário um engajamento individualizante, disciplinado e controlado dos trabalhadores no teletrabalho. Os teletrabalhadores entrevistados experimentam o tempo como algo moldável e controlável, mais centrado no curto prazo, na moldagem imediata solicitada, e em tempos de trabalho e de não trabalho não separados. Diferentemente do taylorismo, que destruía as individualidades, a redução das características tayloristas/fordistas no trabalho, atualmente em alguns setores e algumas funções mais do que em outros, promove um reforço das individualidades em diversos sentidos, estimulando assim um engajamento individualizante na flexibilidade. Engajamento individualizante na flexibilidade indica que subjetivamente o indivíduo está aderindo, por um lado, aos discursos e às práticas que o consideram como a fonte da produtividade de seu trabalho, responsável pela gestão de seu próprio trabalho, formação profissional e carreira, e, por outro, aos discursos e práticas de flexibilidade do trabalho, no sentido espaço-temporal e no sentido da organização do trabalho e do emprego. Significa também que o indivíduo é considerado autor de seu próprio trabalho e responsável direto pelos resultados de sua atividade. Nesse sentido, o controle e a organização do trabalho não ocorreriam sem o engajamento e o comprometimento do indivíduo.

O livro tem quatro capítulos. No primeiro, fazemos uma breve revisão histórica sobre a importância da categoria tempo na filosofia, na física moderna e, finalmente, na sociologia. Mostramos como a categoria tempo (a sucessão, a marcação dos acontecimentos, a tendência de padronização social das medidas do tempo e seus instrumentos) é abordada por diferentes correntes sociológicas, tornando-se, juntamente com o espaço, um conceito teórico chave para a compreensão das transformações da sociedade moderna. Também apresentamos a perspectiva sociológica que adotamos e os principais conceitos analíticos da obra, durée, modulação do tempo, tempo espacializado, tempo-devir, evento.

No capítulo 2, abordamos as hipóteses que relacionam a organização social do tempo e o tempo de trabalho como recurso da disciplina imposta aos trabalhadores na indústria. Também abordamos as transformações recentes do trabalho e do emprego, bem como as mudanças paradigmáticas decorrentes dessas transformações. As mudanças mais enfatizadas neste capítulo serão aquelas reunidas sob o conceito de flexibilização do trabalho e do emprego e as mudanças tecnológicas recentes. São abordadas as hipóteses que discutem a validade do paradigma fordista no contexto dessas transformações e os argumentos principais dos autores que defendem estes novos paradigmas, que poderiam ser reunidos sob o conceito de pós-fordismo. Em cada subcapítulo, apontamos as implicações da discussão mais ampla para o advento do teletrabalho, ao mesmo tempo em que são tecidos os laços que relacionam as mudanças no trabalho às mudanças na produção social do tempo.

No capítulo 3, detemo-nos no surgimento do teletrabalho a partir de três vieses: da teoria sociológica, dos discursos incentivadores do teletrabalho e da sua real implantação em diversos países. Desenvolvemos neste capítulo o argumento de que o teletrabalho não está consolidado, nem conceitualmente nem como prática social, constituindo-se assim em uma controvérsia em aberto, ou seja, uma realidade que ainda não se consolidou como fato. Além disso, e como efeito disso, apontamos o caráter híbrido do teletrabalho, defendendo o argumento de que não é possível, no atual contexto, defini-lo de uma vez por todas. Defendemos a ideia de que a tarefa que cabe à sociologia é buscar mapear esta hibridez do teletrabalho, mostrando as controvérsias e os debates da literatura. Relacionamos o aparecimento do teletrabalho às transformações na relação entre trabalho e tempo, abordadas no capítulo anterior.

No segundo subcapítulo, apontamos a vigência, no teletrabalho, da dupla articulação, nas práticas e nos discursos, dos diversos agentes da rede sociotécnica, entre flexibilidade e individualização no trabalho. Defendemos o argumento de que a flexibilidade individualizante é produto de um processo de subjetivação que pressupõe o comprometimento subjetivo dos teletrabalhadores. Também desenvolvemos teoricamente a perspectiva da produção de subjetividade como produção coletiva de modos de expressar-se, simbolizar, trabalhar, relacionar-se. Mostramos como a autogestão do trabalho é desenvolvida pelos teletrabalhadores através de dois dispositivos, a autodisciplina e o autocontrole. Desenvolvemos a tese de que esses dois dispositivos associados permitem diferenciar as formas de controle desenvolvidas nas denominadas sociedades disciplinares daquelas desenvolvidas contemporaneamente. Exploramos como, na prática de teletrabalhadores, desenvolve-se o paradoxo que atrela autodisciplina e autocontrole a liberdade e flexibilidade, mostrando algumas confluências e algumas diferenças entre teletrabalhadores assalariados e teletrabalhadores por conta própria.

Neste capítulo, ainda analisamos as relações socioprofissionais e familiares de teletrabalhadores. Mostramos como determinadas práticas e discursos sobre a flexibilidade e a individualização produzem uma flexibilidade individualizante, em que os teletrabalhadores engajam-se subjetivamente. Abordamos, também, quais as condições que tornam o engajamento subjetivo mais ou menos forte para cada situação socioprofissional específica.

Construímos uma tipologia em continuum das situações profissionais, em que cada trabalhador pode ser inserido em uma situação específica ou estar flutuando entre uma posição e outra. Nesse continuum, quatro situações profissionais específicas foram definidas: teletrabalhadores por conta própria inseridos de uma maneira vantajosa; teletrabalhadores por conta própria inseridos precariamente; teletrabalhadores assalariados inseridos de uma maneira vantajosa; e teletrabalhadores assalariados inseridos precariamente. A forte mobilidade no teletrabalho e a hibridez das situações profissionais dificultam uma construção tipológica convencional.

No capítulo 4, mostramos como a intensificação do trabalho ocorre de forma articulada com a modulação elástica e flexível do tempo, que requer um conjunto de condições, como, por exemplo, a negociação com clientes e com familiares na gestão do tempo.  Mostramos como a lógica do curto prazo se dissemina no teletrabalho, contribuindo para a produção da negação da passagem do tempo, aspecto esse que não se restringe à negociação de prazos com clientes, mas que identificamos também nas expectativas dos entrevistados com relação ao futuro.

teletrabalho

Este livro é fruto de tese de doutorado finalizada em 2008 junto ao Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo recebido o Prêmio CAPES de melhor tese em sociologia em 2009.

Refletir-sobre lançamentos de livros

Por Escritos

Foto de Cartier Bresson
Foto de Cartier Bresson

Hoje, quinta-feira, temos lançamento de um novo livro – o Kai, escrito por Maria Tomaselli. Sobre o Kai há duas postagens neste blog. O destaque aqui é o próprio lançamento: o que significa para a editora? O que significa para o autor? E o que de fato trata um lançamento nos termos dos encontros?

Em partes…

Para a editora significa que cumpriu o seu trabalho. Claro, há muitos sentimentos envolvidos: alegrias, solidariedades, engajamentos…. Um livro é como um filho, ele precisa ser cuidado, mimado quando ainda não está pronto e, teoricamente, independente, pois, após o seu lançamento, partirá para o mundo. Mas tal qual se faz com os filhos, a editora sempre fica ligada, acompanhando cada livro que produz. A editora não fica independente de seus filhos.

Para o autor tudo começa com a ideia seminal. Em se tratando de literatura, a partir da ideia, cada autor tem o seu próprio método de criação. Há autores que caminham dias a fio nos locais dos acontecimentos tentando captar não apenas as informações necessárias para compor o cenário e os personagens, mas também a alma, o espírito do lugar; outros viajam para o ponto exato onde se passa a história, contemplam as cores da água e do mar em diferentes horas do dia, conversam com os moradores, anotam tudo o que veem, até mesmo sensações e aromas… sentem-se como os seus personagens irão sentir, imagina-os caminhando pelas ruas, interagindo com outros personagens, vivendo naquele ambiente… Alguns autores estudam em livros e em documentos a época que estão escrevendo. Estudam fatos, lugares e objetos que fazem parte do enredo. Buscam eles maior domínio do espaço e do tempo para melhor aproveitamento narrativo. Muitos ainda fazem mapas, desenham os personagens…

Maria Tomaselli para o seu livro Kai olhou fotografias, conversou com pessoas, rememorou um tempo vivido por ela e os personagens que descreve… O processo de criação de Gonçalo Tavares, autor do Sr. Valéry e do Sr. Henri publicados pela Escritos, mescla fantasia e resquícios da realidade e, quando escreve sobre locais que desconhece, recorre à pesquisa enciclopédica. Ele escreve com muita rapidez quase que num só folego e depois começa um trabalho lentíssimo de re-escritura do texto.

book

Seja qual for a área (literatura, humanidades…), o livro concluído, fruto da inspiração, disciplina, solidão e alegria do autor e da sua dificuldade para colocar o temido ponto final, geralmente lhe oferta ambíguos sentimentos: alívio e vazio, alegria e tristeza, orgulho e preocupação…

Para o autor, o lançamento do livro é um tornar pública a conclusão da obra, dar a conhecer a sua criação e, ao mesmo tempo, um convite à reflexão sobre o mundo. Mas também pode funcionar como um gerador de ansiedade e curiosidade de como será o seu acolhimento. Uma conhecida escritora confessa que a cada lançamento de seus livros sempre tem um frio na barriga e uma grande insegurança… Outro escritor diz que os seus lançamentos são como testes sobre suas amizades, o nível conseguido de simpatia da mídia, disponibilidade para investimento em marketing etc.

O lançamento de um livro em si, a par do que se possa escrever em outros termos (econômicos, promoções pessoais, entre tantos outros) é antes de tudo uma festa consagrada à cultura e como tal um ato de socialidade, pois, além da apresentação da obra, tem seu acento no estar-junto e no relacionar-se. Portanto, na trama social ele funciona como fundamento de vínculos coletivos. Convém deixar claro que a socialidade é um jogo de faz de conta no qual todos são iguais e, ao mesmo tempo, cada um é reverenciado em particular, como descreve a noção simmeliana.

A relação do autor com um Outro dá ao lançamento uma significação racional. A princípio, estar presente no lançamento é respeito à alteridade de um outro e, também, o seu acolhimento. Claro, esse que acolhe e marca sua presença no lançamento é também acolhido. Há gratidão do autor à presença que o prestigia.

O lançamento de um livro, pois, promove o encontro face a face entre autor e leitor, no sentido da proximidade ética. A alteridade do autor se incorpora à identidade do leitor, pensante ou possuidor. Esse é um encontro para além do que se pode viver fisicamente. Porquanto, há nele um desejo, uma decisão e não um acaso. O lançamento, espaço de efervescência coletiva, é um lugar de encontros na forma social lúdica. Sua singularidade está na sua própria condição de ato coletivo extraordinário, corruptor da rotina.

Para completar o convite à reflexão, resta ainda observar que o livro é atividade da razão e impõe a partilha dos sentimentos de quem escreve e de quem lê (quem lê reescreve a obra porque dela se apropria). Neste sentido, o livro é palavra e dom. É a palavra que faz com que ele seja partilhado. Como ele exige um leitor, este manifesta a unicidade de quem escreve. Na leitura da obra, o leitor reconhece o escritor que se apresenta em seu desnudamento. Tal reconhecimento instala uma relação ética entre ele, o escritor e o livro.

Foto de Cartier Bresson
Foto de Cartier Bresson

No mais, escrever é cartografar, a lei do livro é a reflexão. O livro é uma máquina literária plena de movimentos, tempos, territórios, extratos, segmentaridades, intensidades… Portanto, ele é um agenciamento – importante saber como funciona para se deixar, ou não, capturar.

A quantificação na Pesquisa Social e o SPSS

Por Marilia Patta Ramos*

Marilia Patta Ramos

A quantificação tem sido bem sucedida na pesquisa social, ainda mais hoje com auxílio dos recursos da informática. O argumento de que seja impossível medir características psicológicas ou sociológicas, por exemplo, vem sendo refutado pela evidência. A inteligência, atitudes, classe social, realização pessoal, capital social, capital cultural e outros vêm sendo eficazmente medidos.

Contudo, é importante enfatizar que a Ciência Social empírica que se utiliza da quantificação (estatística) está preocupada com resultados gerais e coletivos e não com casos individuais. Por exemplo: comparar médias entre grupos (uso da estatística descritiva); fazer uma análise de causa e efeito para determinar principais efeitos (exemplo: efeito da renda e da profissão dos pais no aproveitamento escolar das crianças).

Cabe destacar que, quando queremos verificar as principais causas de fenômenos sociais, estamos assumindo que a realidade social seja multicausal e que não temos como dar conta de todas as possíveis causas de um fenômeno. Assim, os críticos da quantificação nas Ciências Sociais não devem perder de vista a ideia de que, quando cientistas sociais montam modelos multivariados de análise, a serem testados estatisticamente, estão sempre trabalhando com probabilidades causais. Sendo assim, jamais se conseguirá explicar 100% da variação de um fenômeno de forma a dar conta de todas as variáveis que o impactam. Mas, mesmo tendo consciência dessa limitação, o cientista social pode buscar respostas a partir de tentativas aproximadas (ou às vezes diretas) de mensuração dos fenômenos sociais e de explicações probabilísticas para os fenômenos, os quais ele está interessado em compreender. E todo o processo ocorre sempre de forma probabilística e aproximada, posto que admitimos que a multicausalidade da maioria dos fenômenos jamais poderá ser acessada na sua plenitude.

Resumidamente, o uso da quantificação para análise de problemas da realidade social serve para três propósitos básicos, os quais podem estar presentes num mesmo estudo ou em estudos diferentes: descrever e/ou comparar características de grupos sociais, realidades, contextos ou instituições; estabelecer relações causais. Isto é, verificar os efeitos de variáveis em outras, suas magnitudes particulares e o efeito em bloco de uma série de variáveis independentes em outra que é a dependente e inferir resultados para uma população a partir de resultados obtidos em uma amostra (estatisticamente representativa).

É relevante que se destaque que, hoje em dia, com auxílio dos softwares estatísticos o uso de técnicas quantitativas se tornou muito mais fácil e ágil. Existem muitos softwares (pacotes estatísticos) disponíveis, mas em específico para as Ciências Sociais um deles se tornou bastante popular: o SPSS (Statistical Package for the Social Sciences).

Especificamente o SPSS é um software aplicativo (programa de computador) do tipo científico. Originalmente o nome era Statistical Package for the Social Sciences – pacote estatístico para as ciências sociais, mas na atualidade a parte SPSS do nome completo do software (IBM SPSS) não tem significado. Teve a sua primeira versão em 1968 e é um dos programas de análise estatística mais usados nas ciências sociais; é também usado por pesquisadores de mercado, na pesquisa relacionada com a saúde, no governo, educação e outros setores. Foi inventado por Norman H. Nie, C. Hadlai (Tex) Hull e Dale H. Bent. Entre 1969 e 1975 a Universidade de Chicago por meio do seu National Opinion Research Center esteve a cargo do desenvolvimento, distribuição e venda do programa. A partir de 1975 corresponde à SPSS Inc.

Originalmente o aplicativo foi criado para grandes computadores. Em 1970 foi publicado o primeiro manual de usuário/utilizador do SPSS por Nie e Hall. Este manual populariza o programa entre as instituições de educação superior nos Estados Unidos. Em 1984 saiu a primeira versão para computadores pessoais.

O aplicativo SPSS é vendido por uma companhia chamada também de SPSS. Além do SPSS a companhia vende uma larga gama de softwares de análise estatística que não apenas o programa SPSS. As iniciais da companhia significam hoje Statistical Product and Service Solutions.

O SPSS Data Editor é útil para fazer testes estatísticos, tais como os testes da correlação, multicolinearidade e de hipóteses. Ele pode também providenciar ao pesquisador contagens de frequência, ordenar dados, reorganizar a informação, servindo também como um mecanismo de entrada dos dados, com rótulos para pequenas entradas. Embora originalmente concebido e nomeado para as ciências sociais, ele pode ser usado para muitos tipos de conjuntos de dados experimentais ou observacionais, incluindo as ciências ambientais e ecologia. É considerado relativamente simples de usar por causa de sua interface gráfica, ao contrário de cálculo manual de estatísticas ou codificação em uma linguagem de programação estatística.

O SPSS é semelhante a uma folha de cálculo em que existem células de armazenamento de dados, organizados em variáveis (colunas) e os casos (linhas). Os dados podem ser introduzidos ou importados de uma planilha, arquivo de texto ou outro formato de arquivo manualmente. Onde ele difere de mais planilhas existentes é na análise, a qual não é feita dentro da própria planilha, mas através de comandos nos menus. O usuário seleciona o teste estatístico e a saída é produzida em uma nova janela.

Especificamente o SPSS Data Editor tem duas “perspectivas” (views), a Data View (onde ocorre a entrada dos dados) e a perspectiva das variáveis, onde podemos selecionar o nome, tipo, número máximo de letras por célula (“width”), número de casas decimais, rótulo, largura da célula (“columns”), alinhamento dentro da célula (“align”), e caso se quer ou não que a variável seja nominal, ordinal, ou “scale” (“measure”). Na perspectiva das variáveis também se pode categorizar as entradas em rótulos (isto é, onde o uso de duas letras pode surgir em vez de palavras inteiras, na coluna “Values”) e marca entradas como inválidas (na coluna “Missing”).

Para aplicações especiais, tais como a análise conjunta ou de séries temporais, há módulos adicionais que se juntam ao programa base. O SPSS é acionado pelo menu, mas também possui uma linguagem de programação própria.
O SPSS é comumente utilizado em universidades, governos e outras organizações em todo o mundo, incluindo as agências de aplicação da lei e os prestadores de cuidados de saúde.

Como programa estatístico é muito popular também pela capacidade de trabalhar com bases de dados de grande dimensão. Da versão 12 em diante são possíveis mais de 2 bilhões de registros e 250.000 variáveis.

* Socióloga. Professora no PPG de Sociologia de Políticas Públicas/UFRGS. Publicou o livro Pesquisa social: abordagem quantitativa com uso do SPS