O medo, a esperança e a política do tempo presente

Bernardo Corrêa *

received_547700908742585O filósofo e professor Vladimir Safatle escreveu recentemente que a política é a arte de afetar os corpos e levá-los a impulsionar determinadas ações. O medo e a esperança são afetos mobilizadores na política, como podemos notar no mundo e no Brasil atuais.

Podemos dizer que há, pelo menos na interpretação da atividade política, um pêndulo que oscila entre Hobbes, quando o Estado faz com que as leis sejam respeitadas por meio do medo que impõe aos súditos, e Spinoza quando “a esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida”. Mas assim como o Estado não pode operar o tempo todo por meio da coerção, não há como existir esperança sem medo ou medo sem esperança, são dois afetos ligados a uma mesma temporalidade, distante do presente. Se esperamos algo é porque tememos que outra coisa possa vir a ocorrer e vice-versa.

A crise atual do capitalismo e da democracia liberal reserva aos sujeitos individualizados uma impotência de duplo sentido. A precariedade da vida social produz esvaziamento das esperanças e nossa crescente incapacidade de projetar um futuro distinto, cabendo então à política converter-se em uma gestão social do medo. Por outro lado, a crise do socialismo como paradigma de transformação incide diretamente sobre a esperança. Então, medrosos e esperançosos lançam as expectativas de mudança da realidade para uma temporalidade exterior ao tempo presente e convertem a dúvida sobre o passado e o futuro em alienação da ação política, sem ver que o velho que morre ainda não deixou o novo nascer em sua plenitude. A atividade teórica passa então a mera especulação sobre o real ou resignação a ele. Retomar as rédeas da ação política como parte de nosso cotidiano é, de verdade, a única forma de evitar que a dúvida nos paralise e deixemos de lutar pelo que é necessário histórica e individualmente.

Nesses tempos, nos quais a política aparece para milhões como uma atividade corrupta, desprovida de conexão entre a ação do indivíduo e o bem comum, há uma sensação generalizada (e correta) de desamparo. Para combatê-la é preciso prestar atenção e apostar nas potencialidades do novo que surge agora mesmo. Novos movimentos, novos protagonistas da história, novos costumes e concepções às quais devemos estar abertos. Como disse certa vez Lacan, “viver sem esperança é também viver sem medo”. Faz-se urgente recolocar na ação presente a fonte alternativa para pensar novos circuitos de afetos que não passem nem pelo medo nem pela esperança. Os futuros possíveis dependem da análise concreta, da ação política consciente e inscrevem-se precisamente no presente.

_____________________________________________________________________

BIBLIOGRAFIA

RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. In: WEFFORT, Francisco (Org). Os clássicos da política, vol. I, Ed. Ática, 1995.

SAFATLE, Vladimir. O afeto como utopia. Disponível em: < http://www.mutacoes.com.br/sinopses/o-afeto-como-utopia/>

SPINOZA, Benedito. Ética III, definição dos afetos.

______________________________________________________________________

* Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, militante do PSOL, autor do livro Revitalização sindical em tempos de terceirização.

Do amor ao ódio petista

Por André Portella *

interr

Cada um de nós tem sua história. Somos lutadores sociais, sindicalistas, ativistas do movimento popular ou estudantil, do campo e da cidade. Tantos sonharam e militaram pela revolução e pelo socialismo, e o fazem até hoje, outros já não mais.

O Partido dos Trabalhadores, nunca se definiu como um partido revolucionário. Nasceu como a antítese do “socialismo real’ stalinista e transformou-se no polo agregador dessas diferentes matizes e tendências. Ex guerrilheiros, trotskitas, católicos, sindicalistas e intelectuais independentes uniram-se sob a liderança do metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva para construir um partido que representasse a classe trabalhadora, que havia crescido em importância, mas carecia de representação política genuína. A partir dessas articulações o PT tornou-se o mais importante partido de esquerda da América Latina.

Dentro de um contexto de lutas e desarranjos na política brasileira, Lula chegou à presidência do Brasil em 2003, onde acordou a conhecida “carta aos brasileiros”, um pacto com as elites nacionais e internacionais, comprometendo-se a manter os interesses do grande capital; bem como articular o presidencialismo de coalizão com diversos partidos, inclusive os de direita.

Logicamente os fatores econômicos, em seus dois mandatos, contribuíram para o silêncio da burguesia pois o grande capital rentista acumulava ganhos jamais alcançados na história do Brasil. Dentro desse contexto não podemos nos abster de lembrar que os ganhos sociais foram os maiores já constatados, nenhum outro governo trouxe tamanha prosperidade quanto o governo Lula.

Lamentavelmente, o primeiro governo de sua sucessora e o atual, a presidente Dilma, não seguiu a maré de prosperidade, aliás, o Brasil encontra-se neste momento em uma grave crise política/econômica, mais política, pelo fato de os mesmos rentistas oportunistas, mencionados anteriormente, potencializarem fatores para o caos. De fato, o amor aos primeiros governos petistas, virou ódio por parte dos brasileiros. Graves problemas de corrupção, algo repreendido pelo PT, quando oposição, e hoje imerso em denúncias e processos, onde dirigentes importantes da República, estão presos ou respondendo a processos. Portanto, é chegado o momento de refletirmos e pensarmos um Brasil sem corrupção, não só na política, mas em seu tecido social, onde as vantagens indevidas, ou jeitinho brasileiro, não seja conhecida como malandragem.

Cabe salientar que a população, no seu âmbito geral, não percebe que as manipulações midiáticas, esta efetuada por uma mídia conservadora, cujo principal objetivo é forjar um inimigo principal da atual corrupção, hoje direcionada ao PT, o qual não pode ser responsabilizado como progenitor corrupto do sistema. Em um estado democrático de direito devemos nos pautar por justiça não seletiva, cabendo ao poder judiciário investigar “todos” independentemente de partido político ou afinidades ideológicas. Fica a grande pergunta: neste momento a justiça é seletiva?

* Professor, mestre em Engenharia e pós-graduado em Ciências Sociais