Fragmentos

De maneira irreverente, Fragmentos traz ao leitor uma reflexão crítica de situações do cotidiano – lugar onde tudo acontece, do individualismo, desse mundo globalizado regido que está pela hipocrisia dos mercados…, mostrando, ao mesmo tempo, a urgência de um olhar amoroso para o outro e o seu acolhimento. Na vida humana, as escolhas não são simples, é difícil discernir com clareza – quando se tem algumas possibilidades e poucas certezas. Fragmentos funciona como uma bússola ética que, sem perder de vista sua aplicação prática, questiona comportamentos contemporâneos.

 por André Portella *

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Julgamento oportunista

Elogiamos ou censuramos, a depender de qual nos dá mais oportunidade de fazer brilhar nosso julgamento. Oportunismo cabe aos vaidosos em sua maioria.

 Pensar ou subserviência

O pensamento liberta a alma, a ignorância e a subserviência. Imaginemos se a sociedade pensasse, o que seria do REI.

 Espadachim

Gosto dos valentes, mas não basta ser um espadachim: também é preciso saber a quem ferir. E, muitas vezes, abster-se demonstra mais bravura, reservando-se para um inimigo mais digno.

Monstros

Quem luta contra os monstros deve ter cuidado para não se transformar em um deles.

Compas

Preciso de companheiros, mas de companheiros vivos, não de cadáveres que eu tenha que levar nas costas por toda parte.

*Professor escritor
Pós graduado em Ciências Sociais
Mestre em  Engenharia Ambiental/Sanitário

Vultos na noite

Por Pedro Câncio *

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Quando a sinfonia dos galos da noite cortou a natural barreira de silêncio da madrugada, o menino Perico encolhido permanecia na cama à espera do retorno do sono que arredio lhe fugira. Os galos que próximos abriam seus bicos em desdobrados alertas, batiam asas com sons que repercutiam em forma de medo. Sons surdos confundidos apenas com o patear dos cavalos da ronda noturna dos brigadianos que durante as noites percorriam o antigo bairro do porto. A patrulha tinha itinerário regular. Surgia na Rua Liberdade, desde os eucaliptos até atingir a Rua General Câmara, nela dobrando e seguindo em direção ao centro. O bater de asas confundia-se com andar das patas dos cavalos na terra. Ruídos que sugeriam imagens de espanto nas ingênuas fantasias das crianças antigas.

Medo, sono e sonhos povoam as noites interioranas, a tal ponto que a realidade e a fantasia se confundem, delimitando fatos.

Naquela noite de estio, Perico tenso associava o mundo exterior de seu quarto, pleno de corpos celestes, gentes, animais que se mexem em diferentes direções, com os caminhos que apenas ele conhecia e por onde viajava, quando recolhido prestes a entregar-se ao sono. Caminhos também povoados por duendes, monstros, pesadelos particulares. Em viagem, ao tentar dormir, já distante, distante quebrou o silêncio um toc-toc estranho. Toc-toc miudinho. Toc-toc que batia nas pedras soltas da Rua Sete de Setembro. Toc-toc que a cada lapso de tempo auditivo aumentava, repercutindo mais forte em seus ouvidos. O relógio se descontrolou. Perdeu as rédeas do mundo. E Perico aos sobressaltos entreabriu a janela na tentativa de registrar e acompanhar o desenrolar do inusitado espetáculo teatral visto de seu camarote.

Vencendo o véu escuro do portal da noite, viu surgir em cena um cavaleiro e sua montaria. A seguir, mais um. Finalmente, um terceiro. Cavaleiros legítimos. Montavam em pelo. Suas montarias usavam apenas freios e rédeas. Rédeas compridas. Cada um, por sua vez, com a mão direita conduzia outro animal preso a um boçal. Três cavaleiros, seis animais. O tropel miudinho denunciava desde o começo que não era trotar de cavalos. O trotar miúdo, ritmado das montarias e dos animais conduzidos a cabresto, identificava ser de mulas. Ao subirem a Rua Sete de Setembro, desde o Rio Uruguai, produziam um concerto sinfônico em noite de estio: claridade refletida de luz lunar, trotar de mulas, pedras soltas na rua e sonhos infantis. O espetáculo estaria completo se não fosse tão limitada assistência que retraída observava sem aplaudir. Tudo silêncio. Só no palco da vida havia personagens em ação.

Depois do que viu, ouviu e pensou, Perico varou o que sobrava da noite, acordado. Olhos fixos no relógio de bolso do pai. Cada minuto que permaneceu na cama dilatou-se em tempo de nunca passar. Mesmo assim a roda da vida rolou. Rolou até que o dia amanheceu. O nascente arrastou à cena um dia de sol radiante, pintando um céu transparente, todo vestido de azul, que desprezava qualquer indiferença das pessoas presentes ao espetáculo. Mas, naquele momento, a Perico essa natureza de excepcional beleza pouco significava. O menino despertou do sono, mas não do sonho da madrugada. A cortina de veludo continuou seu movimento incessante de abrir e fechar confundindo a realidade com a fantasia e Perico absorto apertava os olhos, procurando um apoio na parede do teatro para sair, pois no mundo dos sonhos as mulas eram animais alados conduzidos por heróis noturnos que temem encontrar a luz do dia.

– Não falem comigo hoje. Não tenho cabeça pra nada. Minhas ideias só pensam nas pedras da rua que as mulas chutavam. Chutaram toda a noite. Quanto mais queria me desligar daquilo, mais preso ficava.

A preocupação obsessiva de Perico era fruto de sua visão de mundo que o acompanhou até a noite chegar e cobrir com o manto negro o ingênuo mundo dos meninos do bairro. Nas noites, quando não chovia, sob a luz do foco de luz produzida pela usina elétrica, os adolescentes se reuniam a contar histórias, a narrar façanhas, a matizar a vida com vitórias que apenas eles conseguiam ver e, muitas vezes, participar.

A noite se apresentou e com ela componentes do Exército de Salvação pela Rua Sete de Setembro, desceram até a antiga Liberdade, presença que serviu para aumentar a angústia dos guris que se reuniam tendo o poste de luz como centro. A reunião dos religiosos transferiu para depois o tão esperado encontro. Nesse tempo, nas esquinas os religiosos, de uniformes azuis, realizavam pequenos cultos de pregação, distribuíam material impresso, enquanto o capitão do Exército provocava as palhetas de seu clarim. Era bonito de se ouvir aquele som cortar a noite, abrindo espaços nas camadas de ar rarefeito e chocar-se com a brisa suave que reverberava das águas do Uruguai. O som produzido tinha uma dupla ou mais finalidades: convocar os crentes do bairro à reunião volante e anunciar a chegada do Senhor que se aproximava e deveria ser recebido a fim de abençoar o coração do povo. Os adeptos, moradores dos arredores, às pressas convergiam à esquina com a intenção de não perder um canto, uma nota do clarim, uma palavra divina. Entre os mais apressados estavam a cabo Doraliza e a recruta Joana. Em seus fardamentos completos, ao chegarem ao coração do grupo, em posição de sentido, erguiam o braço direito, mão espalmada, dedos em riste e completavam o dever da continência diante do oficial superior: o  capitão.

Cumprida a missão evangelizadora, o grupo se retirava, em geral em silêncio, depois, é claro, dos agradecimentos pelas presenças dos fiéis e pelo correto desempenho de cada um, como indivíduo e como participante do grupo, na execução do ritual religioso. Havia silêncio. Alguma voz isolada e comedida manifestava-se em comentários de vitórias. Sempre de uma vitória conquistada pela perseverança.

– É de pequenas batalhas que se chega à grande vitória final – arrematava a segunda autoridade presente ao culto.

A tranquilidade dos retirantes entrava em conflito com os motivos do grupo de jovens que ainda se reuniria naquela mesma noite, naquele mesmo lugar. A palavra de promessa e de amor seria substituída pela narrativa da noite anterior. Os fatos gerados por vultos na noite e o toc-toc nas pedras do trotar das mulas.

Quem pensa que nas esquinas antigas de localidades do interior gaúcho a vida fosse tranquila, na certa não conhecia o cotidiano de pessoas tão ricas de imaginação. Engano de quem assim pensa. Uma reunião de devoção termina e outra povoada de fatos naturais começa.

À medida que a área coberta de luz foi sendo tomada pelos mirins moradores do bairro, que não eram tão mirins assim, e que foram sentando em círculo, atendendo aos assobios de Perico quem tinha algo muito importante a desabafar,  todos passaram a ser ouvidos e atenção.

– Venham mais pra perto. Vocês lembram aqueles três bacudos que desceram aí pro lado do rio ontem quando nós távamos aqui?

– Sim, eu me lembro. Eram três mesmo. Eram três e vieram lá de cima, um por um.

– Eu disse que era estranho. Vestidos de bombacha, com cinturão de couro. Calçavam alpargatas.

– Tinha um deles que debaixo do cinturão com guaiaca usava faixa, uma faixa preta e larga das que tem franjas nas pontas.

– Pois é – acrescentou Perico – já tarde da noite, depois do canto dos galos, eles voltaram os três juntos com seis mulas. Montavam três e outras três puxavam a cabresto.

– Então vieram esperar um contrabando de mulas!

– Contrabandistas!

– Não. Eles vieram esperar as mulas contrabandeadas. Mulas que trazem da Argentina. Aqui no interior completam uma tropa que depois é levada ao interior de São Paulo. Pra serem vendidas em arremates. Mas aqui no rio cruzam em pequenos lotes.

– Eu acho que eles também são contrabandistas. Eles fazem parte de uma turma que quer a mesma coisa: tapear as leis.

– Eu também acho.

– Não dão a mínima pras autoridades.

– Parecem que são gentes de paz! Homens bons!

– Sim, mas e daí? Esse é o ofício desses homens.

– Todo o mundo tem que trabalhar. E eles trabalham e levam no sangue a vontade de aventuras.

– Mas eu quero saber: como atravessam o rio?

– Ora como? A nado. Um chalaneiro rema e o outro sentado no banco de popa da chalana segura o cabresto do boçal.

– Pois é. Eu não sabia que as mulas nadam assim.

– Claro, os correntinos trazem as mulas pela parte de cima do banco de areia que se forma na costa de lá, bem na direção da Barranca Pelada e já deu também água pros bichos!

– Tá bem, mas as chalanas como é que entram nisso tudo?

– Ah! Sim. As chalanas aparecem no meio da noite, vindas do lado brasileiro, com dois homens. Um remador e outro sentado na popa, pronto pra conduzir os animais na travessia. Os correntinos passam de suas mãos o comando e falam um ¡qué tenga suerte mi paisano!

– Como é que tu sabes tanto de contrabando de mulas,

– Sei por que perguntei ao seu Ramão. Eu tava muito curioso depois do que vi na noite passada. Então, fui ali embaixo, na casa dele. Me alcançou um banco pra sentar e depois me contou tudo, direitinho. Um dia meu pai já tinha me falado que seu Ramão era um vaqueano em contrabando de animais. Vocês ainda não se deram conta de que sempre que a gente anda por ali, ele tá sentado na sombra daquela taleira que nasceu atrás da casa dele.

Descansa de dia, mas de noite cai no rio. Passar contrabando pelo rio é o ofício dele também, assim como de outros de por aqui.

* Professor aposentado do Instituto de Letras / UFRGS

O truque

Por Gonçalo Tavares*

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O senhor Valéry vestia sempre de negro. Ele explicava:

– Ao verem-me de preto julgam-me de luto e, por compaixão, não me enviam mais sofrimento.

E dizia ainda:

– Não se pode sofrer o dobro de muito. É essa. Aliás, a única razão porque consigo ser feliz, em certos dias: o meu terno de luto engana-os. E é sempre boa a sensação de enganar os mais fortes – acrescentava, orgulhosos, o senhor Valéry, nunca se sabendo propriamente a quem se referia. O senhor Valéry, porém, insistia:

– É como uma reação química.

E desenhou

– Se de um lado se encontra tudo escuro e do outro claro, a tendência é para o lado escuro oferecer ao lado claro, e o lado claro oferecer claridade ao lado escuro. Passado algum tempo encontra-se o equilíbrio.

(E nessa altura o senhor Valéry fez outro desenho)

– O meu truque – dizia o senhor Valéry, enquanto distraído pelos raciocínios, vestia um terno branco – o meu truque – dizia ele – é andar sempre vestido de luto. Para atrair alegria.

* Escritor e professor universitário português. Publicou várias obras recebendo prêmios importantes. Com o livro O Senhor Valéry (publicado em Portugal pela Editora Caminho e no Brasil pela Escritos Editora) recebeu o Prêmio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com Investigações. Suas obras têm dado origem a peças de teatro, vídeos de arte, óperas.

** O truque foi retirado do livro O Senhor Valéry, publicado pela Escritos.

O contrato

Por Gonçalo Tavares*

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O senhor Henri disse: os meus pais não me adormeciam com histórias infantis.

… os meus pais me adormeciam a ler contratos de arrendamentos e outros.

… o meu pai trabalhava num notário que tinha um notário e três homens que ninguém notava.

… o meu pai era um deles.

… o meu pai não tempo para estar comigo e não tinha tempo para reler os contratos que era obrigado a redigir.

… o meu pai aproveitava os momentos antes de eu dormir para me ler alto os contratos e assim verificar os erros, e eu cresci a pensar que as histórias infantis tinham sempre dois lados, o lado da direita e o lado da esquerda, dois outorgantes, e que um só dava uma coisa em troca de outra.

… só mais tarde percebi que isto acontecia mesmo na vida real – o dá e recebe – e só nos livros infantis é que se dava algo sem querer receber nada em troca.

… antes de morrer o meu pai chamou-me e disse: nunca faças nada sem antes celebrares um contrato.

… foram as suas últimas palavras. Era um homem sensato.

… mais um copo de absinto!, excelentíssimo 20  outorgante aqui presente.

… muito obrigado.

* Escritor e professor universitário português. Publicou várias obras recebendo prêmios importantes. Com o livro O Senhor Valéry (publicado em Portugal pela Editora Caminho e no Brasil pela Escritos Editora) recebeu o Prêmio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com Investigações. Suas obras têm dado origem a peças de teatro, vídeos de arte, óperas.

** O contrato foi retirado do livro O Senhor Henri, publicado pela Escritos.

Leia no parque, no café, na sala de espera, no ônibus, na lotação…

Por Escritos

escul Livros são companhia para todos os momentos, sobretudo na semana do dia mundial sem carro, são eles pacientes professores e acompanhantes de grandes viagens. Verdadeiros amigos. Lê-los amplia e qualifica a visão de mundo do leitor. Por essa razão a Escritos selecionou algumas obras para você ler em qualquer lugar. Confira:

Dialética (Carlos Cirne Lima)

Não se trata da reedição do já conhecido livro Dialética para principiantes, há revisões e alguns acréscimos, especialmente na segunda parte, na qual consta a obra Depois de Hegel. Na primeira parte do autor conduz o leitor pelos principais problemas filosóficos, com início na tradição que introduziu a Filosofia a partir da Dialética e a partir da Analítica. Na segunda parte, o filósofo afirma a compatibilidade entre lógica Analítica e a Dialética, traçando detalhadamente a sua reconstrução independente do sistema neoplatônico.

Filosofia cinza (Márcia Tiburi)

Dividido em duas partes que servem de espelho uma à outra, a obra busca a experiência do pensamento que se enfrenta com o próprio vazio e esboça a escrita como outro trabalho do conceito. A exposição da filosofia é a verdade das coisas não ditas ainda que ditas: a melancolia com que o livro sela suas cifras é, mais que um fundamento metafísico, a chave para a ação produtiva da cultura como reinvenção de laços entre seres humanos e natureza, entre o abismo do ser e o amor ao que existe. É a filosofia do corpo aparecendo para manchar o pensamento e repropor o trabalho negativo do conceito rumo à salvação do corpo e das imagens que o revelam.

Kai (Maria Tomaselli)

Kai não é apenas um livro de memórias, mas uma trama socioantropológica na qual jogam diferentes tempos e espaços, culturas e classes sociais, éticas e estéticas, que ora se estranham e ora se acolhem dentro de novas concepções de mundo – escancarando a experiência humana do ponto de vista de seu sentido ou significado. Esse mundo se oferece à experiência dos atores graças à capacidade do diálogo permanente mediado pela lógica sensorial e sentimental, em boa parte com alguns conflitos, inquietações e mudanças. A leitura do Kai comove, suas histórias se misturam às do leitor. Trata-se de um exercício de alteridade no qual se aprende o jeito de os outros serem. Aí reside outra dimensão de sua originalidade.

Livro do Travesseiro (Sei Shônagon)

Requintada e instigante obra clássica da literatura japonesa. A autora narra os costumes da corte, o cotidiano vivido, as cerimônias religiosas, os festivais, os códigos e as regras de sexualidade, os exuberantes quimonos com os quais se ornam os homens e as mulheres no Japão do século XI. A obra mostra a voluptuosidade como um dos traços significativos do espírito japonês, em uma época marcada pelo culto do belo, em razão das tendências hedonistas, que explicam a delicadeza levada ao extremo, e o excessivo refinamento que afetava a aristocracia.

Mateus e Mateusa (Qorpo Santo)

Qorpo Santo (pseudônimo literário de José Joaquim de Campos Leão) é precursor do surrealismo e do teatro do absurdo, antecipando Jarry e Ionesco. Nesta peça escrita em 12 de maio de 1866, o autor narra uma estranha história de amor com certo tom de tragédia entre um casal de velhos, levando o leitor ao cômico sentido das relações familiares. O canto dá à obra um tom lírico contrastando com o farsesco que caracteriza o conflito familiar vivido. A densa obra revela o olhar crítico e vanguardista do autor, mostrando situações inusitadas da realidade, muitas vezes sem soluções, convidando à ampla reflexão acerca das relações humanas.

Senhor Henri (Gonçalo Tavares)

Muitas vezes premiado e traduzido em várias línguas, Gonçalo Tavares oferta um novo paradigma da literatura. Neste livro o autor português traz, de modo criativo, humorado e sarcástico, pontos significativos da inquietação humana. O personagem do livro, o Sr. Henri, tem como teoria sobre o mundo – o absinto. É, também, o absinto o seu sistema de pensamento. Assim calcado na bebida esverdeada que toma em quantidades exageradas, ele transita em diferentes campos, ofertando ao leitor imagens cotidianas, óbvias, mas, por isso mesmo, imagens absolutamente impensadas.

Tempo e magia (José Alberto Baldissera e Thiago Bruinelli)

Muitos educadores ilustram as aulas de história com filmes. Este pode ser um guia poderoso para a preparação e análise de cada momento histórico através do cinema. Antiguidade é o primeiro livro desta quatrilogia, abrangendo o Antigo Egito, os povos hebreus, gregos e romanos. Contrapondo os tempos da filmagem com o retratado, os autores examinam as intenções e motivações das produções grandiosas, filmes que integram a lista dos grandes clássicos do cinema. Após introdução a cada época e filme os autores tomam algumas cenas devidamente identificadas como foco de análise. E ainda brindam os autores com notas curiosas sobre as filmagens.

Dia 9 – lançamento do Kai

Por Escritos

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Primeiro livro escrito por Maria Tomaselli, o Kai foi lançado na última quinta-feira, no Studio Clio. Longe de querer jogar um clichê, por força dos fatos se é obrigado a escrever que essa quinta-feira marcará a autora para sempre. Mas não apenas ela será marcada, a editora também e, provavelmente, muitos dos convidados. Acontece que o lançamento desse livro foi diferente. Havia nele uma sensibilidade humana envolvendo a todos, uma espécie de partilha de afetos entre os que aparecem no livro, familiares e amigos, e recuperam com ele, pelo menos simbolicamente, pedaços do passado e os simplesmente leitores. O Kai é um romance autobiográfico entremeado por questões filosóficas e das artes plásticas. Um livro que escancara o imaginário do leitor e, provavelmente, torna a sua vida mais rica.

Para muitos dos que ali estavam, o relato primordial do livro traz a memória de uma vida construída junto, ao mesmo tempo, em que espalha fragmentos da história de cada um. O que eles viveram ganha uma dimensão social e obtém testemunhas desse tempo vivido, ampliando sua própria experiência.

É notável o fio de emoção que ligava os convidados, a autora e o Kai no seu lançamento. Nesse sentido, são muitas as boas imagens. A mais emblemática é a de um senhor que veio de longe, de outro estado. Antes de abraçar a autora, pegou o livro e, curioso e inquieto como um homem menino, procurou os comentários sobre a sua família. Quando os encontrou sorriu alegremente e saiu apressado para o encontro com Maria Tomaselli. Esse leitor amigo da autora, embalado pelo senso poético do texto, já lhe enviou inúmeros comentários. Muitos outros, delicados e belos, reconhecendo a importância do Kai já chegaram à autora em apenas poucos dias após o seu lançamento. As pessoas leem o Kai com sofreguidão.

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Maria Tomaselli tem muito talento para escrever, compõe frases curtas, claras, simples, sem formalidades desnecessárias, joga com expressões ponderadas protegendo o leitor da desesperança. Sua escritura proporciona a sensação de um estar na presença dos fatos, de uma experiência que, modificado o enquadre temporal, parece estar sendo vivida pelo próprio leitor no ato da leitura, sem qualquer rotina racionalizada. Quando o livro se fecha, o Kai continua invadindo o coração e o pensamento do leitor que se subordina impetuosamente ao imaginário. O Kai faz viajar… e remete o leitor, simultaneamente, ao resolvido, ao contemporâneo e ao futuro.

Mas voltando ao seu lançamento, agora mais especificamente ao seu momento anedótico… Não se pode deixar de descrever aqui, mesmo que de modo ligeiro, o grande e maravilhoso penetra, o gate-crasher que lá esteve. O penetra não é um destruidor de festas como afirma a expressão, ele é sempre indicador de festa boa – ele tem experiência no assunto e muitos motivos: comer e beber gratuitamente, sentir a adrenalina da transgressão, sentir-se incluído em determinado grupo… não importa.

Há os penetras históricos como o casal Michaele e Tareq Salahi que, em 2009, conseguiu entrar na recepção de Barack Obama, na Casa Branca. Os dois penetras posaram para fotos com o presidente e a primeira dama, colocaram em cheque o serviço de segurança americano e se tornaram celebridades. Há penetras e penetras.

O inusitado penetra que foi ao lançamento do Kai, sem constrangimento pessoal como em geral funcionam todos eles, de conversa agradável e fala mansa, parece ser um homem despojado e gentil. Saudou simpaticamente o artista plástico e a editora que estavam conversando na entrada, perguntou do que se tratava aquele evento e quando soube que era lançamento de um livro da artista plástica Maria Tomaselli – o tal penetra agiu como se muito a conhecesse (tipo grande admirador de sua arte). Sorriu, tirou um bloquinho do bolso e se colocou na fila dos autógrafos… Parecia estar em estado de graça, envolvido pela emoção das cenas em que penetrava, pelas vozes dos convidados e suas modulações, pela miscelânea de ecos, pelos gestos de cada um, suas posturas, trejeitos e hesitações. O penetra não traiu o lançamento do Kai, foi digno, se entrosou, comeu e bebeu junto com todos, sem preocupação com uma finalidade ou projeto futuro. Claro que as pessoas logo perceberam o que estava acontecendo, mas o trataram muito bem. Sem dúvida, há um deus dos penetras.

Aí estão características fortes da socialidade, isto é, a experiência do Outro como aquilo que dá base à sociedade, mesmo quando essa experiência aparece de forma conflituosa. Cada um representou o seu papel e participou do lançamento do Kai que não será sem importância às relações sociais. Sua estética, isto é, o sentir e o experimentar em comum, aquele presente vivido coletivamente, em grupo, importa muito. Porquanto, o cotidiano é a história vivida no dia a dia.

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Por tudo isso e muito mais, a noite do dia nove de julho será saborosamente inesquecível…