No final do dia o professor está arrasado

A educação escolar deve integrar e não separar – não pode ser vista como instrumento de distinção de classe, de pertencimento a um meio, a uma classe social. Aquele que vai para a escola vai para descobrir, conhecer, amar. Entretanto, em um país como o Brasil onde a cidadania passa pelo consumo, onde ter vale mais do que ser, a escola pública e privada – em geral – preocupada em manter o status quo, não produz uma cultura que considera a fecundidade dos seus estudantes e nem a importância dos seus professores. Tudo se passa como se tais categorias não fossem parte de um mesmo processo de aprender e ensinar, do processo de construção de uma inteligência crítica, do processo de desenvolvimento do poder interrogativo de suas subjetividades, com efeitos políticos concretos.

O efeito induzido pela escola brasileira contemporânea nega a sua própria função de ensinar conhecimentos e a transforma em um campo minado no qual professores e estudantes, em trincheiras opostas, se protegem um dos outros. São ambos vítimas do próprio sistema que os faz esquecer que a liberdade é o bem supremo, que a liberdade não é o usufruto de plenos poderes e nem incentiva a competição entre classes sociais ou categorias sociais tais como estudantes e professores.

Difícil ser professor na escola brasileira contemporânea – como muito bem mostra o texto que a Escritos Editora recebeu de um dos seus leitores.  A Escritos é grata por ele e o coloca no blog para que todos que o lerem possam refletir…
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No final do dia o professor está arrasado

Por José Mário Carvalho *

O dia 23 de março de 2009 marcou a carreira da professora Glaucia Terezinha Souza da Silva. De acordo com o delegado Christian Nedel, titular da 1º Delegacia da Criança e do Adolescente de Porto Alegre, a professora recebeu chutes e socos de uma adolescente após uma advertência nas dependências da Escola Estadual de Ensino Fundamental Bahia, localizada na Zona Norte da capital gaúcha. De acordo com o delegado, em entrevista ao jornal Zero Hora, a professora havia sido jogada no chão e perdido a consciência por alguns minutos. Ao ser socorrida no Hospital de Pronto Socorro foi constatado o traumatismo craniano, após exames realizados pela equipe de pronto atendimento.

Fatos como esse permeiam a realidade da educação brasileira, onde a busca por soluções figuram como miragens num plano distante. O jornalista Marcelo Gonzatto, inspirado no caso da professora Glaucia Souza, inicia um série de reportagens no jornal Zero Hora, oito meses após o ocorrido. Sob o sugestivo título Escolas Conflagradas, a reportagem reúne relatos de profissionais sobre o público atendido, remuneração, saúde, perspectiva de vida e carreiras. A reportagem ilustra de maneira pontual a infraestrutura do sistema de ensino gaucho onde a qualidade no serviço prestado é no mínimo questionável ou duvidosa.

Fatos…

Pesquisa divulgada em 13 de outubro de 2015 pela Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta o Brasil na 60º posição no ranking internacional de Educação num total de 76 países participantes.

A constrangedora posição do país demonstra a precariedade histórica do ensino nacional que atrasa e dificulta todas as iniciativas de elaboração de um projeto contundente de desenvolvimento. A realidade é ainda mais grave quando as analises permeiam o cotidiano da sala de aula e todos os expoentes envolvidos.

Tragédias como as da professora Glaucia Terezinha não se configuram como problemas a serem solucionados e superados. Ao contrário: o crescente descaso com o processo de alfabetização do indivíduo é nítido e crescente agravando ainda mais a situação instável da jovem democracia brasileira.

Experiência única…

O ensino privado convive há décadas com arbitrariedades que já se tornaram “institucionalizadas” pelo corpo diretivo e pela sociedade civil, que transfere para a escola a função de “educar” o aluno. Trata-se de uma lógica inversa, na medida em que o papel histórico dos estabelecimentos de ensino consiste em alfabetizar o indivíduo e estimular o pensamento criativo e autônomo cabendo as organizações familiares o papel de “educar”.

Estar atento para os valores éticos e morais do indivíduo é condição básica para um processo de formação. A família deve zelar pelo bem estar e confiar que a escola desempenhe seu real papel.

Questionar a metodologia da instituição bem como do corpo docente, é um direito legítimo de todo cidadão que procura o melhor para seu filho. A busca por informações é válida e auxilia no momento da escolha. Indicar sugestões para o aprimoramento ou melhorias da instituição é um ato de cidadania e real preocupação com o processo de formação do estudante.

No entanto, a realidade escolar brasileira obedece à lógica do ranking elaborado pela OCDE. A mercantilização do ensino não segue os critérios de qualidade e satisfação do cliente. Atualmente, o ensino é um substrato secundário da realidade nacional onde a sociedade civil não se identifica e projeta decepções ou sentimentos similares.

Encontros envolvendo a comunidade escolar geralmente não resultam em melhorias significativas. Questionamentos pautados em “notas” e acusações são comuns e ocorrem com frequência desgastando ainda mais a imagem da escola e do profissional de ensino.

Em dezesseis anos de profissão, vivenciei e participei de inúmeros encontros escolares. Divulguei notas, aprovei e reprovei alunos baseado nas normas das instituições. Elaborei e participei de projetos extracurriculares e sempre mantive uma posição de austeridade nos encontros diários. No entanto, devo reconhecer que ser acusado de maneira leviana de “apoiador do regime militar” foi o adjetivo mais inusitado de toda a minha carreira.

Particularmente, não consigo me identificar com qualquer forma de autoritarismo político e pessoal, tampouco uma ditadura organizada por militares. A livre iniciativa, o empreendedorismo, o Estado eficiente e o respeito as instituições democráticas sempre foram valores que procurei passar a jovens e adolescentes. A busca por um país onde a corrupção seja combatida dentro do espírito democrático é uma constante nos encontros de Sociologia e História.

Faço uma analogia com o caso da professora Glaucia. Ambos estavam desempenhando seu papel e buscando o melhor dentro de uma sociedade onde normas e leis são facilmente negligenciadas. Ambos estavam zelando pelo direito legítimo e constitucional dos estudantes. Independente da classe social, todo cidadão brasileiro possui o direito de frequentar o circulo escolar. E ambos foram agredidos no cumprimento do dever. Ambos tiveram seus casos minimizados pelas instituições e pela sociedade civil e ambos tiveram que lidar com o fato de que pais desinformados e alunos sem perspectiva fazem parte do tecido social brasileiro. Autoritarismo e Ditadura são chagas superadas na realidade política atual. Amadurecemos como país e como sociedade. A imprensa livre e o fortalecimento dos Poderes pavimentam o caminho do nosso futuro. No entanto, apesar dos inegáveis avanços das últimas décadas, ainda temos desafios urgentes a serem enfrentados e superados. No final do dia… “No final do dia o professor NÃO deveria estar arrasado”.

 

 

* Licenciado em História
Pós-Graduado em Sociologia

Admissão ao ginásio

Por Carlos Urbim*

urbimQuem estava no quinto ano primário tinha que fazer o exame de admissão ao ginásio. Por volta dos 11 anos, os estudantes deixavam o grupo escolar e iam para um novo colégio, quase sempre maior. Antes, porém, o suplício das provas de Redação, Gramática, Matemática, Geografia e História, com duas notas cada: a da prova escrita e a oral. Os professores chamavam os alunos para, depois da parte escrita, sortear perguntas que deviam ser respondidas na hora. Que sufoco! Quem passou por isso está marcado pera o resto da vida.

Na redação, a gente descrevia uma gravura exposta na frente de todos os que queriam ser admitidos no ginásio. Na prova oral de Português, as perguntas eram sobre regras gramaticais. Morríamos de medo das questões sobre análise sintática e crase.

Quando a gente era aprovado, ultrapassando também o terror das perguntas escritas e orais de Matemática, acidentes geográficos e datas históricas, começava a deixar de ser criança. Havia tanta coisa para se fazer no ginásio que as brincadeiras na praça, os gibis e os álbuns de figurinhas foram ficando distantes de nós. E, com a invenção da cola plástica branca, nunca mais usamos goma arábica.

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* Este texto foi escrito por Carlos Urbim para a apresentação de seu divertido e delicado livro Admissão ao ginásio, com ilustrações da artista plástica Zoravia Bettiol.