O menino que carregava água na peneira

Por Manoel de Barros *

manbar

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

* Poeta

Do amor ao ódio petista

Por André Portella *

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Cada um de nós tem sua história. Somos lutadores sociais, sindicalistas, ativistas do movimento popular ou estudantil, do campo e da cidade. Tantos sonharam e militaram pela revolução e pelo socialismo, e o fazem até hoje, outros já não mais.

O Partido dos Trabalhadores, nunca se definiu como um partido revolucionário. Nasceu como a antítese do “socialismo real’ stalinista e transformou-se no polo agregador dessas diferentes matizes e tendências. Ex guerrilheiros, trotskitas, católicos, sindicalistas e intelectuais independentes uniram-se sob a liderança do metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva para construir um partido que representasse a classe trabalhadora, que havia crescido em importância, mas carecia de representação política genuína. A partir dessas articulações o PT tornou-se o mais importante partido de esquerda da América Latina.

Dentro de um contexto de lutas e desarranjos na política brasileira, Lula chegou à presidência do Brasil em 2003, onde acordou a conhecida “carta aos brasileiros”, um pacto com as elites nacionais e internacionais, comprometendo-se a manter os interesses do grande capital; bem como articular o presidencialismo de coalizão com diversos partidos, inclusive os de direita.

Logicamente os fatores econômicos, em seus dois mandatos, contribuíram para o silêncio da burguesia pois o grande capital rentista acumulava ganhos jamais alcançados na história do Brasil. Dentro desse contexto não podemos nos abster de lembrar que os ganhos sociais foram os maiores já constatados, nenhum outro governo trouxe tamanha prosperidade quanto o governo Lula.

Lamentavelmente, o primeiro governo de sua sucessora e o atual, a presidente Dilma, não seguiu a maré de prosperidade, aliás, o Brasil encontra-se neste momento em uma grave crise política/econômica, mais política, pelo fato de os mesmos rentistas oportunistas, mencionados anteriormente, potencializarem fatores para o caos. De fato, o amor aos primeiros governos petistas, virou ódio por parte dos brasileiros. Graves problemas de corrupção, algo repreendido pelo PT, quando oposição, e hoje imerso em denúncias e processos, onde dirigentes importantes da República, estão presos ou respondendo a processos. Portanto, é chegado o momento de refletirmos e pensarmos um Brasil sem corrupção, não só na política, mas em seu tecido social, onde as vantagens indevidas, ou jeitinho brasileiro, não seja conhecida como malandragem.

Cabe salientar que a população, no seu âmbito geral, não percebe que as manipulações midiáticas, esta efetuada por uma mídia conservadora, cujo principal objetivo é forjar um inimigo principal da atual corrupção, hoje direcionada ao PT, o qual não pode ser responsabilizado como progenitor corrupto do sistema. Em um estado democrático de direito devemos nos pautar por justiça não seletiva, cabendo ao poder judiciário investigar “todos” independentemente de partido político ou afinidades ideológicas. Fica a grande pergunta: neste momento a justiça é seletiva?

* Professor, mestre em Engenharia e pós-graduado em Ciências Sociais

Queijo de ralar

Por Pedro Câncio *

pedro

Porque era baixo, retaco de forte e roliço chamavam-lhe de Mulita. Tipo simpático e afável. Nunca contendia com ninguém. Ainda que fosse provocado. Evitava meter-se em certas complicações. Resolvia qualquer desafeto com naturalidade. Vivia no bairro do porto desde sempre, embora nascesse lá perto
do matadouro público. Não tinha ofício certo. Quando perguntado sobre suas ocupações de trabalho, solícito respondia:

– Eu vivo de changas.

Na realidade entenda-se changas por contrabandos. Mulita era contrabandista. Dessa atividade resultava o ganha-pão diário. Assim era conhecido e considerado. Amigo dos amigos. Homem de coragem e hábil nadador. Por isso naquela manhã, quando transitou pelas ruas do bairro do Porto, tinha-se a certeza de que à noite haveria contrabando. Mulita possuía um grande elenco de
companheiros às tarefas noturnas. Então quando cruzava ruas, em geral estava à procura de changadores para um servicinho. Agenciava homens e estabelecia condições com os donos das cargas a serem contrabandeadas. Avaliava peso e quantidade para precisar preços e volume, porque disso dependia o tamanho e tipo da embarcação apropriada à carga, bem como o número de parceiros. Por isso naquela manhã, ele se deslocava à procura do proprietário da Santana, chalana escolhida para a travessia de dois mil quilos de queijo de ralar.

Quando a Usina Elétrica deu o apito da uma da tarde, hora que convocava os funcionários ao trabalho a ser reiniciado meia hora depois, o agenciador Mulita estava com os planos traçados para essa noite. A chalana Santana alugada e os dois companheiros escolhidos a dedo, contratados. Pão Doce e Mergulhão. O nome de Pão Doce o exímio remador trouxe de casa. Assim o chamavam desde pequeno. Mergulhão, o próprio nome explica o motivo. Apelativo conquistado pela grande capacidade de manter-se escondido nas águas, quando era necessário. Caía aqui e aparecia a muitos metros adiante.

Tudo pronto. Deste lado do Rio Uruguai, Mulita, Pão Doce e Mergulhão, acomodados na chalana, aguardavam que a noite  chegasse. Do outro lado, lá nas costas argentinas, a situação era com os de lá, que, ao anoitecer, depositariam as peças de queijo dentro do mato, próximo à barranca que serviria de porto. Os
tripulantes da Santana deveriam transportá-las até a chalana e pronto. O mais era remar. Remar forte. Santana com dois mil quilos ficaria muito pesada. Seria preciso muita força nos remos para abrir as águas do rio. Mas eram dois remadores experientes, além de Mulita que, se necessário, também pegaria no pesado. Portanto eram três homens fortes e decididos, prontos a qualquer necessidade. Com Mulita, no comando, acomodado ao banco de popa, administrava a aventura, na condição de prático das águas e também da atividade. Ele carregava naquele momento em seus ombros todas as responsabilidades do mundo. Com a sua eram três vidas em jogo de vida e morte. Mais um perigo, entre tantos.

Enfim a noite chegou e com ela a incerteza dos participantes desapareceu, pois durante à tarde Pão Doce e Mergulhão foram tomados de certa ansiedade. Já acomodados na Santana, ouviram de Mulita:

– Seja o que Deus quiser! Tá na hora, embora!

Daí em diante a vida estava fora do controle. Nenhum daqueles homens tinha mais poder sobre si, ou sobre a situaçãoque os envolvia. Estava sacramentado o inquestionável poder de Deus. Viver era uma ilusão. Morrer um ato fugaz.

Tudo escuridão. Ao redor e dentro da Santana. O silêncio do diálogo contagiante permitia a compreensão dos limites de suas audácias. E Mulita, Pão Doce e Mergulhão avançaram em direção à costa de Paso de los Libres. Naquele momento uma brisa leve levantada das águas temperava as sombras da noite onde aqueles três filhos da natureza tinham sido jogados à própria sorte.

Sim! Mulita, Pão Doce e Mergulhão achavam-se integrados na natureza, portanto, eles eram natureza também.

Santana atracou no lugar combinado entre o dono da carga e seus agenciadores, o de lá e o de cá. Tudo corria de maravilha. Após o reconhecimento da carga, dedicaram-se a transportar as peças de queijo até a margem do rio, de onde colocariam depois na chalana. Foi quando um estranho ruído cortou o silêncio sepulcral que envolvia o ambiente. Atentos à direção de onde vinha o inesperado perceberam já próximos homens da guarda costeira que agachados, tentando evitar de serem vistos, avançavam com as armas em punho como se participassem de uma guerra. Mais perto uma voz aos brados, se manifestou:

– ¡Quietos! ¡Parados ahí dónde están!

Pão Doce jogou-se na água e silencioso foi se afastando da chalana em direção à costa brasileira. Mergulhão depois de vários metros percorridos, escondido nas águas, veio à tona e também nadou silencioso. Mulita que, dentro da chalana, ajeitava as peças de queijo já carregadas até a margem recebeu no peito, do lado esquerdo, um tiro de arma de fogo disparado a distância de menos de dez metros. Ali mesmo caiu, produzindo na queda um golpe surdo quando encontrou resistência no fundo da Santana. Caiu como se fosse um queijo de ralar, daqueles queijos revestidos de tinta negra, como se vestisse de luto.

Dois dias depois, com extrema dificuldade conseguiram liberar o corpo morto de Mulita para depositarem-no em sua derradeira morada. Em presença da família, e de amigos, e de companheiros de tantas changas, encontravam-se Pão Doce e Mergulhão, que compareceram ao ato, solidários. O silêncio só foi quebrado pelo sussurro dos mais chegados que abafavam a marca sentimental de suas dores.

Mas entre os changadores, havia aqueles que se preocupavam com outra questão:

– Quem é que vai substituir o Mulita e contratar novas changas pra nós?

* Professor aposentado do Instituto de Letras / UFRGS

provisorio

Narrativas de contrab

Porque era baixo, retaco de forte e roliço chamavam-lhe de Mulita. Tipo simpático e afável. Nunca contendia com ninguém.

Ainda que fosse provocado. Evitava meter-se em certas

complicações. Resolvia qualquer desafeto com naturalidade.

Vivia no bairro do porto desde sempre, embora nascesse lá perto

do matadouro público. Não tinha ofício certo. Quando perguntado

sobre suas ocupações de trabalho, solícito respondia:

– Eu vivo de changas.

Na realidade entenda-se changas por contrabandos. Mulita

era contrabandista. Dessa atividade resultava o ganha-pão diário.

Assim era conhecido e considerado. Amigo dos amigos. Homem

de coragem e hábil nadador. Por isso naquela manhã, quando

transitou pelas ruas do bairro do Porto, tinha-se a certeza de que à

noite haveria contrabando. Mulita possuía um grande elenco de

companheiros às tarefas noturnas. Então quando cruzava ruas, em

geral estava à procura de changadores para um servicinho.

Agenciava homens e estabelecia condições com os donos das

cargas a serem contrabandeadas. Avaliava peso e quantidade para

precisar preços e volume, porque disso dependia o tamanho e tipo

da embarcação apropriada à carga, bem como o número de

parceiros. Por isso naquela manhã, ele se deslocava à procura do

proprietário da Santana, chalana escolhida para a travessia de dois

mil quilos de queijo de ralar.

Quando a Usina Elétrica deu o apito da uma da tarde, hora

que convocava os funcionários ao trabalho a ser reiniciado meia

hora depois, o agenciador Mulita estava com os planos traçados

para essa noite. A chalana Santana alugada e os dois

companheiros escolhidos a dedo, contratados. Pão Doce e

Mergulhão. O nome de Pão Doce o exímio remador trouxe de

casa. Assim o chamavam desde pequeno. Mergulhão, o próprio

nome explica o motivo. Apelativo conquistado pela grande

capacidade de manter-se escondido nas águas, quando era

necessário. Caía aqui e aparecia a muitos metros adiante.

Tudo pronto. Deste lado do Rio Uruguai, Mulita, Pão Doce

e Mergulhão, acomodados na chalana, aguardavam que a noite

chegasse. Do outro lado, lá nas costas argentinas, a situação era

com os de lá, que, ao anoitecer, depositariam as peças de queijo

dentro do mato, próximo à barranca que serviria de porto. Os

tripulantes da Santana deveriam transportá-las até a chalana e

pronto. O mais era remar. Remar forte. Santana com dois mil

quilos ficaria muito pesada. Seria preciso muita força nos remos

para abrir as águas do rio. Mas eram dois remadores experientes,

além de Mulita que, se necessário, também pegaria no pesado.

Portanto eram três homens fortes e decididos, prontos a qualquer

necessidade. Com Mulita, no comando, acomodado ao banco de

popa, administrava a aventura, na condição de prático das águas e

também da atividade. Ele carregava naquele momento em seus

ombros todas as responsabilidades do mundo. Com a sua eram

três vidas em jogo de vida e morte. Mais um perigo, entre tantos.

Enfim a noite chegou e com ela a incerteza dos participantes

desapareceu, pois durante à tarde Pão Doce e Mergulhão foram

tomados de certa ansiedade. Já acomodados na Santana, ouviram

de Mulita:

– Seja o que Deus quiser! Tá na hora, embora!

Daí em diante a vida estava fora do controle. Nenhum

daqueles homens tinha mais poder sobre si, ou sobre a situação

que os envolvia. Estava sacramentado o inquestionável poder de

Deus. Viver era uma ilusão. Morrer um ato fugaz.

Tudo escuridão. Ao redor e dentro da Santana. O silêncio do

diálogo contagiante permitia a compreensão dos limites de suas

audácias. E Mulita, Pão Doce e Mergulhão avançaram em direção

à costa de Paso de los Libres. Naquele momento uma brisa leve

levantada das águas temperava as sombras da noite onde aqueles

três filhos da natureza tinham sido jogados à própria sorte.

Sim! Mulita, Pão Doce e Mergulhão achavam-se integrados

na natureza, portanto, eles eram natureza também.

Santana atracou no lugar combinado entre o dono da carga e

seus agenciadores, o de lá e o de cá. Tudo corria de maravilha.

Após o reconhecimento da carga, dedicaram-se a transportar as

peças de queijo até a margem do rio, de onde colocariam depois

na chalana. Foi quando um estranho ruído cortou o silêncio

sepulcral que envolvia o ambiente. Atentos à direção de onde

vinha o inesperado perceberam já próximos homens da guarda

costeira que agachados, tentando evitar de serem vistos,

avançavam com as armas em punho como se participassem de

uma guerra. Mais perto uma voz aos brados, se manifestou:

– ¡Quietos! ¡Parados ahí dónde están!

Pão Doce jogou-se na água e silencioso foi se afastando da

chalana em direção à costa brasileira. Mergulhão depois de vários

metros percorridos, escondido nas águas, veio à tona e também

nadou silencioso. Mulita que, dentro da chalana, ajeitava as peças

de queijo já carregadas até a margem recebeu no peito, do lado

esquerdo, um tiro de arma de fogo disparado a distância de menos

de dez metros. Ali mesmo caiu, produzindo na queda um golpe

surdo quando encontrou resistência no fundo da Santana. Caiu

como se fosse um queijo de ralar, daqueles queijos revestidos de

tinta negra, como se vestisse de luto.

Dois dias depois, com extrema dificuldade conseguiram

liberar o corpo morto de Mulita para depositarem-no em sua

derradeira morada. Em presença da família, e de amigos, e de

companheiros de tantas changas, encontravam-se Pão Doce e

Mergulhão, que compareceram ao ato, solidários. O silêncio só

foi quebrado pelo sussurro dos mais chegados que abafavam a

marca sentimental de suas dores.

Mas entre os changadores, havia aqueles que se

preocupavam com outra questão:

– Quem é que vai substituir o Mulita e contratar novas

changas pra nós?

Nova temporada de House of Cards ganha análise acadêmica

 Glauco Ludwig Araujo, Ivan Penteado Dourado e Vinicius Rauber e Souza *

image descriptionAs séries televisivas constituem hoje uma nova opção de entretenimento. Elas vão além da limitação de tempo e espaço de um filme ou mesmo de uma trilogia cinematográfica. Despertam o interesse crescente do público brasileiro, a despeito da tradição do país na produção de novelas e minisséries. Acrescente-se a isso um fator relativamente recente que é o da produção e exibição de séries em plataformas online, cujo caso mais notório é o da Netflix. Nesse ambiente, a narrativa pode fugir da estrutura linear, utilizando-se de elementos de hipertextualidade e outros. Em síntese, convidando o público a não ser mero espectador.

Os autores de Poder e Sociedade no Castelo de Cartas fizeram exatamente isso, saíram de sua posição espectadora para colocar os personagens de House of Cards em outros cenários.

Nesse livro o leitor encontrará Francis Underwood dialogando com Maquiavel sobre o edifício do Poder. Verá Rousseau mostrando como a natureza humana foi corrompida pela sociedade em House of Cards. Refletirá sobre a noção de político profissional a partir das considerações de Max Weber. Poderá compreender melhor como se estrutura o sistema político estadunidense e os jogos de poder que aí se movimentam e, a partir desse modelo, entender o próprio universo político brasileiro. O foco é a aproximação entre as teorias clássicas e o que há de mais contemporâneo nas narrativas seriadas.

* Organizadores do livro Poder e sociedade no castelo de cartas: Teoria política em House of Cards em produção pela Escritos Editora

Garanhão cansado

Por Pedro Câncio*

jung
Nelson Jungbluth

– Olha só! Hoje tem contrabando de bicho.

– Acho que sim. Mas esse gaúcho a pé não é de por aqui.

– Nunca vi esse tipo. Olhou pra nós com jeito de desconfiado.

– Desconfiado, mas sabia o caminho por onde andam todos os de bombacha e alpargatas que vão pelo escuro em direção ao Cortado.

– Quem não sabe de onde ele vem, somos nós, mas ele conhece bem aonde vai. Já é vaqueano.

– Tomara que não me chamem cedo pra ir dormir. Eu quero ver o que se passa hoje.

– Eu também.

– Sim, acho que nós gostaríamos de ver o animal, ou os animais, de hoje.

– De pertinho!

– Já é quase meia-noite. Daqui a pouco ele tá de volta.

– Eu não disse. Ali vem ele montado, saindo do escuro.

– É só um cavalo. Que cavalo bonito! Garboso! Mesmo no escuro, dá pra vê que não é um matungo desses das carroças que trilham nas ruas do bairro.

– Mas bah tchê! É lindo mesmo.

– Vi bem a cara do homem. Ele não é daqui do porto.

– Também nunca vi.

– Olhem só, ele desmontou ali na sombra noturna do angico.

– Que será que aconteceu?

– Amarrou as rédeas no arame da cerca.

– Vamos lá falar com o homem pra saber o que aconteceu?

– Será que não é perigoso?

– Como perigoso, se o cavalo tá amarrado. É animal manso.

– Não pessoal. É que a polícia pode bater. E prendem o homem e o cavalo.

– Tá na hora da patrulha passar.

– Vamos ali, sim, avisar ele do perigo.

– O que que é gurizada?

– Não, nada, é que tá na hora da patrulha passar aí na Liberdade.

– Nós já tamos indo. Meu amigo já descansou um pouco. Ele teve que nadar um tiro largo. Me disse o correntino que me passou o garanhão que houve denúncia do outro lado. Então adiantaram a hora e trocaram o lugar da travessia, pra despistar a polícia. E as denúncias de lá também chegaram aqui deste lado. Por isso o cuidado tem que ser dobrado. O risco de hoje é muito grande.

– O senhor falou: “Meu amigo”. Então já conhecia o cavalo.

– Não. Nossa amizade começou hoje, aqui no Cortado, quando recebi ele das mãos do chalaneiro. Mas de hoje em diante, vou cuidar e tratar dele lá na estância da minha patrona. Lá têm algumas éguas de puro sangue esperando por ele.

– Então, ele vai gerar muitos filhos?

– É isso aí. A dona lá vai começar uma criação de cavalo crioulo com esse garanhão argentino.

– Já deu pra entender tudo.

– Eu preciso ir. Recebi ordem de pegar o cavalo e desaparecer imediatamente, porque as denúncias feitas lá logo chegam aqui.

– Já dá pra ir, ele parece descansado.

– Cuidado com vocês, se aparecer alguém perguntando por um homem e um cavalo, atenção, hein! Bico calado!

– Vá sossegado que aqui ninguém viu nada.

O gaúcho deu um salto certinho e acomodou-se logo. Deu uma palmadinha no lado direito, na anca do garanhão e saíram garbosos a trote Rua Sete de Setembro acima. Houve tempo nada mais do que suficiente para desaparecerem na escuridão da noite, quando os que ficaram apenas se acomodavam, sentando-se no chão sob a luz que irradiava lá de cima da lâmpada colocada no poste, escutaram o latir dos cuscos dos ranchos que margeavam a várzea, o bater das pedras da rua umas nas outras e ao tempo um sussurro abafado de vozes próprio da noite. Sussurro humano que aumentou até o momento em que permitiu aos guris que há pouco haviam abandonado a sombra do angico, perceberem que um grupo de homens, alguns uniformizados, outros não, ganhava também a iluminação pública.

– Hei guris, vocês viram um homem vestido de bombacha montando um cavalo negro, negro como a noite? Acho que eles passaram aqui, nesta esquina – perguntou e conjeturou o sujeito que usava uniforme da Marinha.

– Não senhor, aqui não passou nem o homem nem o cavalo negro, negro como a noite.

– As últimas pessoas que aqui deram as caras foram as do Exército de Salvação.

– Cantaram e rezaram. O Capitão pregou e depois empunhou o clarim de sempre e tocou um hino em favor dos fracos e oprimidos.

– Isso aí. Nós até participamos da festa da vitória louvando com uma baita aleluia.

– Aleluia! Aleluia!

– E depois as ovelhas foram se dispersando.

– Só tamos nós aqui agora.

– Olhe bem senhor! Se o homem de bombacha e seu cavalo negro não passaram aqui, devem ainda estar escondidos aí na vargem, escondidos atrás de algum monte de lenha esperando que a poeira desça.

– É isso aí. Vamos voltar e procurar até encontrar esse contrabandista com as mãos na botija – afirmou o homem de uniforme azul claro.

– Sim, temos que botar a mão em ao menos um, porque os dois da chalana se escafederam.

* Professor aposentado do Instituto de Letras / UFRGS

 

Vultos na noite

Por Pedro Câncio *

pedro

Quando a sinfonia dos galos da noite cortou a natural barreira de silêncio da madrugada, o menino Perico encolhido permanecia na cama à espera do retorno do sono que arredio lhe fugira. Os galos que próximos abriam seus bicos em desdobrados alertas, batiam asas com sons que repercutiam em forma de medo. Sons surdos confundidos apenas com o patear dos cavalos da ronda noturna dos brigadianos que durante as noites percorriam o antigo bairro do porto. A patrulha tinha itinerário regular. Surgia na Rua Liberdade, desde os eucaliptos até atingir a Rua General Câmara, nela dobrando e seguindo em direção ao centro. O bater de asas confundia-se com andar das patas dos cavalos na terra. Ruídos que sugeriam imagens de espanto nas ingênuas fantasias das crianças antigas.

Medo, sono e sonhos povoam as noites interioranas, a tal ponto que a realidade e a fantasia se confundem, delimitando fatos.

Naquela noite de estio, Perico tenso associava o mundo exterior de seu quarto, pleno de corpos celestes, gentes, animais que se mexem em diferentes direções, com os caminhos que apenas ele conhecia e por onde viajava, quando recolhido prestes a entregar-se ao sono. Caminhos também povoados por duendes, monstros, pesadelos particulares. Em viagem, ao tentar dormir, já distante, distante quebrou o silêncio um toc-toc estranho. Toc-toc miudinho. Toc-toc que batia nas pedras soltas da Rua Sete de Setembro. Toc-toc que a cada lapso de tempo auditivo aumentava, repercutindo mais forte em seus ouvidos. O relógio se descontrolou. Perdeu as rédeas do mundo. E Perico aos sobressaltos entreabriu a janela na tentativa de registrar e acompanhar o desenrolar do inusitado espetáculo teatral visto de seu camarote.

Vencendo o véu escuro do portal da noite, viu surgir em cena um cavaleiro e sua montaria. A seguir, mais um. Finalmente, um terceiro. Cavaleiros legítimos. Montavam em pelo. Suas montarias usavam apenas freios e rédeas. Rédeas compridas. Cada um, por sua vez, com a mão direita conduzia outro animal preso a um boçal. Três cavaleiros, seis animais. O tropel miudinho denunciava desde o começo que não era trotar de cavalos. O trotar miúdo, ritmado das montarias e dos animais conduzidos a cabresto, identificava ser de mulas. Ao subirem a Rua Sete de Setembro, desde o Rio Uruguai, produziam um concerto sinfônico em noite de estio: claridade refletida de luz lunar, trotar de mulas, pedras soltas na rua e sonhos infantis. O espetáculo estaria completo se não fosse tão limitada assistência que retraída observava sem aplaudir. Tudo silêncio. Só no palco da vida havia personagens em ação.

Depois do que viu, ouviu e pensou, Perico varou o que sobrava da noite, acordado. Olhos fixos no relógio de bolso do pai. Cada minuto que permaneceu na cama dilatou-se em tempo de nunca passar. Mesmo assim a roda da vida rolou. Rolou até que o dia amanheceu. O nascente arrastou à cena um dia de sol radiante, pintando um céu transparente, todo vestido de azul, que desprezava qualquer indiferença das pessoas presentes ao espetáculo. Mas, naquele momento, a Perico essa natureza de excepcional beleza pouco significava. O menino despertou do sono, mas não do sonho da madrugada. A cortina de veludo continuou seu movimento incessante de abrir e fechar confundindo a realidade com a fantasia e Perico absorto apertava os olhos, procurando um apoio na parede do teatro para sair, pois no mundo dos sonhos as mulas eram animais alados conduzidos por heróis noturnos que temem encontrar a luz do dia.

– Não falem comigo hoje. Não tenho cabeça pra nada. Minhas ideias só pensam nas pedras da rua que as mulas chutavam. Chutaram toda a noite. Quanto mais queria me desligar daquilo, mais preso ficava.

A preocupação obsessiva de Perico era fruto de sua visão de mundo que o acompanhou até a noite chegar e cobrir com o manto negro o ingênuo mundo dos meninos do bairro. Nas noites, quando não chovia, sob a luz do foco de luz produzida pela usina elétrica, os adolescentes se reuniam a contar histórias, a narrar façanhas, a matizar a vida com vitórias que apenas eles conseguiam ver e, muitas vezes, participar.

A noite se apresentou e com ela componentes do Exército de Salvação pela Rua Sete de Setembro, desceram até a antiga Liberdade, presença que serviu para aumentar a angústia dos guris que se reuniam tendo o poste de luz como centro. A reunião dos religiosos transferiu para depois o tão esperado encontro. Nesse tempo, nas esquinas os religiosos, de uniformes azuis, realizavam pequenos cultos de pregação, distribuíam material impresso, enquanto o capitão do Exército provocava as palhetas de seu clarim. Era bonito de se ouvir aquele som cortar a noite, abrindo espaços nas camadas de ar rarefeito e chocar-se com a brisa suave que reverberava das águas do Uruguai. O som produzido tinha uma dupla ou mais finalidades: convocar os crentes do bairro à reunião volante e anunciar a chegada do Senhor que se aproximava e deveria ser recebido a fim de abençoar o coração do povo. Os adeptos, moradores dos arredores, às pressas convergiam à esquina com a intenção de não perder um canto, uma nota do clarim, uma palavra divina. Entre os mais apressados estavam a cabo Doraliza e a recruta Joana. Em seus fardamentos completos, ao chegarem ao coração do grupo, em posição de sentido, erguiam o braço direito, mão espalmada, dedos em riste e completavam o dever da continência diante do oficial superior: o  capitão.

Cumprida a missão evangelizadora, o grupo se retirava, em geral em silêncio, depois, é claro, dos agradecimentos pelas presenças dos fiéis e pelo correto desempenho de cada um, como indivíduo e como participante do grupo, na execução do ritual religioso. Havia silêncio. Alguma voz isolada e comedida manifestava-se em comentários de vitórias. Sempre de uma vitória conquistada pela perseverança.

– É de pequenas batalhas que se chega à grande vitória final – arrematava a segunda autoridade presente ao culto.

A tranquilidade dos retirantes entrava em conflito com os motivos do grupo de jovens que ainda se reuniria naquela mesma noite, naquele mesmo lugar. A palavra de promessa e de amor seria substituída pela narrativa da noite anterior. Os fatos gerados por vultos na noite e o toc-toc nas pedras do trotar das mulas.

Quem pensa que nas esquinas antigas de localidades do interior gaúcho a vida fosse tranquila, na certa não conhecia o cotidiano de pessoas tão ricas de imaginação. Engano de quem assim pensa. Uma reunião de devoção termina e outra povoada de fatos naturais começa.

À medida que a área coberta de luz foi sendo tomada pelos mirins moradores do bairro, que não eram tão mirins assim, e que foram sentando em círculo, atendendo aos assobios de Perico quem tinha algo muito importante a desabafar,  todos passaram a ser ouvidos e atenção.

– Venham mais pra perto. Vocês lembram aqueles três bacudos que desceram aí pro lado do rio ontem quando nós távamos aqui?

– Sim, eu me lembro. Eram três mesmo. Eram três e vieram lá de cima, um por um.

– Eu disse que era estranho. Vestidos de bombacha, com cinturão de couro. Calçavam alpargatas.

– Tinha um deles que debaixo do cinturão com guaiaca usava faixa, uma faixa preta e larga das que tem franjas nas pontas.

– Pois é – acrescentou Perico – já tarde da noite, depois do canto dos galos, eles voltaram os três juntos com seis mulas. Montavam três e outras três puxavam a cabresto.

– Então vieram esperar um contrabando de mulas!

– Contrabandistas!

– Não. Eles vieram esperar as mulas contrabandeadas. Mulas que trazem da Argentina. Aqui no interior completam uma tropa que depois é levada ao interior de São Paulo. Pra serem vendidas em arremates. Mas aqui no rio cruzam em pequenos lotes.

– Eu acho que eles também são contrabandistas. Eles fazem parte de uma turma que quer a mesma coisa: tapear as leis.

– Eu também acho.

– Não dão a mínima pras autoridades.

– Parecem que são gentes de paz! Homens bons!

– Sim, mas e daí? Esse é o ofício desses homens.

– Todo o mundo tem que trabalhar. E eles trabalham e levam no sangue a vontade de aventuras.

– Mas eu quero saber: como atravessam o rio?

– Ora como? A nado. Um chalaneiro rema e o outro sentado no banco de popa da chalana segura o cabresto do boçal.

– Pois é. Eu não sabia que as mulas nadam assim.

– Claro, os correntinos trazem as mulas pela parte de cima do banco de areia que se forma na costa de lá, bem na direção da Barranca Pelada e já deu também água pros bichos!

– Tá bem, mas as chalanas como é que entram nisso tudo?

– Ah! Sim. As chalanas aparecem no meio da noite, vindas do lado brasileiro, com dois homens. Um remador e outro sentado na popa, pronto pra conduzir os animais na travessia. Os correntinos passam de suas mãos o comando e falam um ¡qué tenga suerte mi paisano!

– Como é que tu sabes tanto de contrabando de mulas,

– Sei por que perguntei ao seu Ramão. Eu tava muito curioso depois do que vi na noite passada. Então, fui ali embaixo, na casa dele. Me alcançou um banco pra sentar e depois me contou tudo, direitinho. Um dia meu pai já tinha me falado que seu Ramão era um vaqueano em contrabando de animais. Vocês ainda não se deram conta de que sempre que a gente anda por ali, ele tá sentado na sombra daquela taleira que nasceu atrás da casa dele.

Descansa de dia, mas de noite cai no rio. Passar contrabando pelo rio é o ofício dele também, assim como de outros de por aqui.

* Professor aposentado do Instituto de Letras / UFRGS

E chegou a segunda edição!

Por Cristiano Refosco *

testaDepois de meses de muito trabalho, temos a honra de apresentar para nossos pequenos e grandes leitores a segunda edição da coleção “Era uma vez um conto de fadas inclusivo”. A princípio, quando esgotaram os exemplares da primeira edição, pensamos em fazer apenas uma reimpressão dos livros, o que seria bastante rápido e mais fácil. Porém, o desejo de aprimorar um trabalho que já é reconhecido no Brasil todo convenceu-nos de que podíamos  mais.

Lançar a primeira edição dos contos inclusivos em 2012 foi uma aventura da qual me orgulho profundamente. Nunca vou esquecer o dia em que levei os originais das minhas primeiras ilustrações até o designer e amigo Leandro Selister. Após folhear os desenhos, Leandro chorou. Foi então que eu pensei: “Para ele ter chorado, ou está muito bom ou está muito ruim”.  A próxima frase dita pelo meu amigo designer foi um veredicto de que tudo ia dar certo:

“Cris, coloco meu escritório à disposição para fazermos esses livros, e acho importante que você os ilustre”.

De imediato, a ideia de eu mesmo ilustrar os meus livros pareceu-me absurda, visto que não sou ilustrador, mas acabei convencido pelo talento e pela sensibilidade de Leandro Selister e iniciei uma verdadeira odisseia pessoal. Imagine alguém que nunca havia desenhado nada a não ser rabiscos no caderno, durante as aulas de antropologia, fazer em 4 meses mais de 170 ilustrações. Mas valeu a pena.

Findado todo o processo de captação de patrocinadores e após a  parceria com a editora Escritos, lançamos para o mundo de forma ousada e original 11 livros (sim, 11 livros de uma única vez!) que viriam a contribuir para a reflexão de muitos professores e alunos de todo o país acerca de assuntos ainda tão pouco discutidos em salas de aula como deficiência, inclusão e acessibilidade.

Chapeuzinho cadeirante caindo com sua cadeira de rodas num buraco, Cinderela sem pé perdendo a prótese durante a fuga do baile, João sem braços subindo pelo pé de feijão usando a boca… Cada um dos principais contos de fadas ganhou uma deficiência e as histórias passaram a ter outros enfoques, sempre primando pela ideia da importância do respeito às diferenças.

Para a segunda edição queríamos mais. Se é preciso ter coragem para criar algo autêntico, também é preciso coragem para reconhecer que tudo sempre pode ser aprimorado. Logo, decidimos que a segunda edição manteria a originalidade da primeira, mas que seria um novo produto. Foi então que a Escritos apresentou-me o Thiago Luz, o nosso jovem e talentoso ilustrador. Especialmente para mim, que havia desenhado toda a primeira edição, ver meus personagens com outras caras e traços foi uma experiência engrandecedora. Reconhecer na “nova Chapeuzinho da cadeirinha de rodas” ilustrada pelo Thiago a mesma energia da minha Chapeuzinho da primeira edição, certificou-me de que esses personagens já existem, independente das formas que eles venham a ter. Além de demonstrar todo o conhecimento técnico que buscávamos para as ilustrações, Thiago Luz conseguiu manter o espírito de alegria que os personagens dos meus livros possuem. Deficiência não é sinônimo de tristeza. Deficiência é somente deficiência e assim é que tinha que continuar sendo nos contos de fadas inclusivos.

Da mesma forma, chegou a hora de revisar os textos dos livros. Acredito que para qualquer escritor esta seja uma situação única. Alguém de fora do seu universo, com outros olhos e impressões, vir e sugerir que você mude aqui ou ali, que repense uma frase ou um parágrafo é um verdadeiro exercício de desapego, mas uma ótima oportunidade de aprender e de crescer ainda mais.

Coleção ilustrada e revisada, optamos por condensar as histórias em 3 volumes, o que facilitaria o acesso aos contos de quem não tivesse condições de comprar os 11 livros de uma só vez. Não adianta nada lançar uma coleção muito bacana sobre inclusão e acessibilidade se ela não puder ser acessível na sua aquisição.

Sendo assim, é com profunda alegria e com o coração repleto de agradecimento ao carinho dispensado pela Escritos para com os contos de fadas inclusivos, que convido a todos os leitores, grandes e pequenos, novos e antigos a mergulharem nesta segunda edição.

Uma ótima leitura a todos e que consigamos educar nossas crianças em prol do respeito às diferenças, bem como – num futuro próximo – povoar o mundo de adultos mais tolerantes e livres de preconceitos.

 * Autor da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo e fisioterapeuta.