Re-inventar a cidade

Itinerários, caminhos, percursos, andanças pela cidade, se deixar levar, flanar, pura experiência sensível e, ao mesmo tempo, experiência racional do corpo e do pensamento. As marcas visíveis que se mostram na arquitetura, nas esculturas, nos monumentos, nos prédios, no traçado das ruas, nos grafites, nos personagens, nas socialidades… revelam ao espectador atento, ao turista da cidade, no primeiro plano, a cidade de pedra, mas, sobretudo, lhe revelam toda a multiplicidade conectável com marcas subterrâneas – que há muito estão a sua espera. Como um encontro marcado entre outros, de gerações precedentes, e ele.

O passado, que lhe é contemporâneo, o cuidado do presente e o imaginário se fundem num turbilhão onírico. O turista da cidade, o verdadeiramente iniciado, é aquele que, ao dirigir o seu olhar para uma janela, para um mosaico, para um vitral, vê e sonha e produz uma estética e com ela des-cobre, re-inventa o espírito do lugar. Isto é, a materialidade da pedra suscita a sensibilidade do turista da cidade e o que se produz é um texto imagético fecundo de fluxos, dobras, grandezas, combinações – uma trama. O turista da cidade é um tecelão. Ele tece com os fios da história, mas sabe que a história humana tem um quarto de realidade e, ao menos, três quartos de imaginação. Quanto mais conexões o tecelão arranjar, com os seus fios, mais rica será a sua tessitura. Uma tessitura a ser sempre recomeçada: cada vez que o turista da cidade observa uma marca, uma marca da cidade já antes observada por ele, uma nova imagem será produzida. Pois não há imitação nem semelhança, mas experimentação-estética e com ela uma explosão de imagens se encadeando, se revezando, se produzindo.

O tempo do turista da cidade é fonte de criação da qual ele recolhe as impressões que movimentam a viagem imaginária. A dança, por assim dizer, entre o mundo imaginal e a cidade de pedra é um vetor de comunhão que re-liga as gerações precedentes com o turista da cidade e seus coetâneos. O jogo de imagens progressivamente o contamina e ele ganha um novo estilo de existência, mais comunitário, mais habitado por emoções, pois o turista da cidade ao explorar o espaço urbano, seus detalhes, experimenta uma nova forma de sensibilidade. Estilo como princípio de unidade, laço, força de agregação. Em outras palavras, estilo como outra maneira de ver e sentir a cidade, que implica na passagem de uma estética da representação a uma estética da sensibilidade. Sentir a cidade, a perceber pela sensibilidade é abandonar o registro da representação.

O turista da cidade recolhe, relaciona, compara tudo o que vê e imagina o que teria se passado um dia…

Desse modo, ele funciona em dois planos: com o conhecimento do fato histórico, das relações que o produziram, o turista da cidade é capaz de montar uma versão do que foi, uma versão de algo que se aproxima do real, e conhecer o espírito da época, mas também, imerso na lógica do sensível é capaz de colocar em movimento a vida sem qualidade, as socialidades cotidianas, as situações mais ordinárias e dar sentido ao lugar. O devaneio coloca a todos em estado de alma nascente. Os dois planos com os quais funciona o turista da cidade se entrecruzam e dão à cidade uma alma, uma alma que descobre o seu mundo, o mundo onde o turista da cidade desejaria viver.

Multiplicação dos olhos. Os detalhes estão por toda a parte. Razão pela qual estar atento é uma condição. O turista da cidade olha e vê, sem estar bêbado de realismo, ele é tragado pela imagem e devaneia. Viaja pelo tempo…

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