Pluralidade econômica e democracia *

Isabelle Hillenkamp e Jean-Louis Laville

poliA nova Sociologia Econômica e a Escola das Convenções, ao se concentrarem nos microarranjos, podem subestimar as forças do mercado, enquanto as macrossínteses, tais como a Teoria da Regulação, podem superestimá-las, conferindo ao cosmos capitalista um caráter implacável. Por levar em conta as formas não mercantis de coordenação e a interação entre grandes áreas institucionais, a Sociologia Econômica francófona certamente aprofunda mais a análise das relações complexas entre economia e sociedade do que a nova Sociologia Econômica norte-americana, centrada na construção social dos mercados. Mas nenhuma delas, ao menos em seus desdobramentos principais, aborda de maneira aprofundada a questão crucial dos vínculos entre pluralidade econômica e política. Assim, por um lado, a insuficiente consideração das forças do mercado na nova Sociologia Econômica e na Escola das Convenções pode levar a ver apenas a extrema variabilidade dos mercados; por outro, a focalização nas forças do mercado operada pelas macrossínteses pode culminar em um horizonte limitado pelas formas institucionais do capitalismo. Todas essas abordagens, bem contrastadas, avalizam, finalmente, a centralidade do fato mercantil no fato econômico. Por razões opostas, as interrogações sobre a conciliação entre fato mercantil e ordem política, assim como aquelas sobre a compatibilidade entre capitalismo e democracia, são deixadas de lado, embora sejam essenciais para inúmeros autores de Filosofia Política. Jürgen Habermas (1981) destaca que “entre capitalismo e democracia, há uma relação de tensão insuperável”.

Portanto, convém reagir a uma visão estrita da neutralidade axiológica, que deixaria sem resposta essa problemática, reanimada pela crise atual. O cientificismo ofuscado pela purificação em relação a qualquer valor é epistemologicamente insustentável em um período em que toda a sociedade se preocupa com a relação com a economia. Numa orientação análoga àquela defendida por Philippe Chanial (2011), parece necessário optar por uma Sociologia Econômica associada a uma reflexão filosófica. Isso constitui a primeira característica deste livro, que começa por textos de Filosofia Política e prossegue com capítulos de Economia ou de Sociologia, postulando uma continuidade e uma contiguidade nas preocupações dos articuladores. Todos eles investigam as relações entre economia e sociedade sob o ângulo da preservação e do aprofundamento da democracia, a partir do suporte essencial da obra de Karl Polanyi, que trata dos laços entre pluralidade econômica e política.

Para além da pluralidade das formas de racionalidade e dos modos de coordenação, Polanyi (2011) identifica o sofisma economista, isto é, a redução da economia ao mercado, como um problema maior de nossa época, sugerindo indiretamente que a reabilitação de uma pluralidade de princípios de integração econômica poderia lhe fornecer uma solução. Ele concede um grande espaço à demonstração da existência dessa pluralidade de princípios “de integração econômica”: além do mercado, a reciprocidade, a redistribuição e a administração doméstica constituem, segundo o autor, “princípios de comportamento” pelos quais “a ordem é […] garantida na produção e na distribuição” (Polanyi, 1944). Se o sofisma corresponde à definição formal da economia pela raridade que determina o caráter lógico da relação entre os meios e os fins, o reconhecimento da pluralidade dos princípios de integração coincide com uma definição substantiva da economia. Tal definição admite a dependência do homem à natureza e a seus semelhantes e considera que a satisfação das necessidades humanas passa por uma interação institucional (ibid.). Nesse sentido, uma Sociologia Econômica atenta à pluralidade institucional e política não pode se contentar nem com o exame detalhado de mercados particulares, nem com a constatação recorrente de uma dominação capitalista. Mostra-se indispensável articular uma crítica às tentativas de absolutização da ordem econômica que repousa sobre sua definição formal a uma atenção pragmática às práticas socioeconômicas que ultrapassam os mercados, mobilizando princípios e integração visibilizados por uma concepção substantiva da economia. Desse modo, Polanyi alerta para uma Sociologia Econômica de alcance limitado, inteiramente construída a partir do conceito de troca, que só é universal em uma sociedade de mercado. Ele defende uma ampliação do ponto de vista da análise a fim de cobrir “estas zonas em que se encontram as fronteiras da economia de mercado e da economia sem mercado” (Polanyi, 1963, citado por Chavance, 2011).

 

* Fragmento da introdução do livroSocioeconomia e democracia: a atualidade de Karl Polanyi, organizado por Isabelle Hillenkamp e Jean-Louis Laville

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