O fio dental

Maria Tomaselli *

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Por que começou a escrever alguns textos, nem ele sabe explicar direito.  O primeiro pedido de um colega para fazer a apresentação de sua exposição, Vito recusou, de medo. Medo de não conseguir captar a mensagem dos trabalhos do amigo, medo de não conseguir se expressar. Nunca havia escrito um texto nesse sentido, apenas redações para o colégio e uma ou outra carta mais rebuscada. Embora tivesse um diário, inicialmente um durante sua adolescência, que se perdeu no decorrer das suas muitas mudanças; ou será que ele o havia jogado no lixo? De qualquer jeito não lembrava muito do que havia escrito nele. Depois começou a anotar seus trabalhos, anotações puramente técnicas, sobre tamanhos, materiais, eventuais títulos, ano de execução. Numa tentativa de não se perder. Começava por numerar as obras, se perdia nos números, optou por colocar títulos, lembrando Paul Klee e seus títulos poéticos, que faziam até parte do trabalho em si.

Nesses cadernos de anotações ele fixava também alguns acontecimentos, exposições que o marcaram, algumas brigas entre artistas da cidade, achando-as engraçadas, não queria perdê-las. Começou a anotar dúvidas sobre seus trabalhos, sobre teorias de arte, sobre o circuito em geral. Pequenas anotações, como pinceladas, e bem esporádicas.

Só quando morreu sua amiga e tutora de anos, sem que ninguém tivesse notado sua partida, por ela ter se mandado em plenas férias de verão, numa época pré-redes-sociais (hoje ninguém mais escapa, nem vivo, nem morto), ele fez um texto, mais para ele mesmo, para fixar e focar a memória de um ser tão especial.  Nesse momento nasceu um prazer nunca antes vivido: o da palavra certa, de frases felizes, escolhidas, pensadas, sentidas, e não apenas algum escrito burocrático. Levou uma semana, reescreveu o texto várias vezes, cada mudança lhe trouxe novos sentimentos, novas conexões. Era como na pintura, na escultura, na gravura. Cada traço, cada mexida no gesso, cada linha gravada diferentemente abria outro caminho, exigia a cada momento uma escolha, uma decisão, uma tomada de posição. Era um turbilhão de possibilidades no qual ele precisava “se achar”, decidir, era algo vivo e jamais concluso.

Nas suas leituras começou a observar o lado da feitura do texto, das escolhas feitas pelo escritor. Antes de ele mesmo escrever, se deixava levar pela história (ou é estória?), pelos sentimentos provocados, pela curiosidade de ver o que vinha mais adiante, para não dizer para ver como terminava. Como sua tia Margarete, que só lia romances de amor, mas começava com as últimas páginas, para ver se tudo acabava bem. Tristes fins não lhe serviam, de tristezas bastava a vida. Tia Marga vivia nos sebos da cidade, escolhia os livros pelas capas, com casais se beijando, mocinhas sentadas embaixo de árvores, perdidas em pensamentos. Ela folheava os livros e só levava para casa o que lhe prometia prazer, uma projeção de felicidade, nem que fosse apenas alheia.

Vito descobriu que era preciso descrever tão bem os personagens, com detalhes, que através desses sua alma pudesse se desvendar, através dos gestos, das roupas, dos objetos de uma casa, das pequenas ações muito mais do que das grandes decisões.

No fundo ele sabia disso desde sempre, só havia esquecido de como, ainda no secundário, teve essa revelação. Esqueceu-se de tudo que estava escrito no livro, inclusive de seu título; só um trecho lhe ficou na memória, renovada diariamente perante o espelho, sempre que escovava os dentes:  primeiro de que é preciso, além de escovar os dentes, usar um fio dental. A descrição dessa operação lhe deu a noção da importância do detalhe, da observação, da concentração, do mergulho numa ação corriqueira:

O personagem abria a gaveta, pegava uma seda brilhosa bem enrolada, que, logo ao ser desenrolada, já exalava um delicioso perfume de menta, convidativo de ser cortado e colocado na boca, de ser degustado. Ele enrolava o fio no dedo indicador e médio da mão esquerda, fixando-o com o polegar e o esticou com a mão direita, tendo a seda enrolada no dedo médio e anular, tendo o polegar esquerdo a função de guiar o fio dental, na parte superior da arcada dentária, porque na parte inferior era o dedo indicador da mão direita que o empurrava para o vão entre os dentes, mas para tirá-lo de lá de dentro ele precisava de novo do polegar que na parte superior era capaz de fazer as duas ações.

O que marcou Vito na sua juventude tão longínqua, na sua inocência de leitor iniciante, não foi tanto esta descrição dos movimentos dos dedos, o que o chocou foi de como o autor havia observado os mínimos detalhes, especialmente esse: ao retirar o fio por entre os dentes de baixo, pequenas partículas de restos de comida haviam sido catapultadas contra o espelho, que refletia a boca retorcida de um rosto que não se sabia sorridente ou em angústia. Dos dentes de cima não acontecia nada disso, os pedacinhos ficavam na boca mesmo, que precisava ser lavada logo; ai que nojo.

Não é que com Vito acontece a mesma coisa?

* Artista plástica e escritora, autora de Kai

O medo, a esperança e a política do tempo presente

Bernardo Corrêa *

received_547700908742585O filósofo e professor Vladimir Safatle escreveu recentemente que a política é a arte de afetar os corpos e levá-los a impulsionar determinadas ações. O medo e a esperança são afetos mobilizadores na política, como podemos notar no mundo e no Brasil atuais.

Podemos dizer que há, pelo menos na interpretação da atividade política, um pêndulo que oscila entre Hobbes, quando o Estado faz com que as leis sejam respeitadas por meio do medo que impõe aos súditos, e Spinoza quando “a esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida”. Mas assim como o Estado não pode operar o tempo todo por meio da coerção, não há como existir esperança sem medo ou medo sem esperança, são dois afetos ligados a uma mesma temporalidade, distante do presente. Se esperamos algo é porque tememos que outra coisa possa vir a ocorrer e vice-versa.

A crise atual do capitalismo e da democracia liberal reserva aos sujeitos individualizados uma impotência de duplo sentido. A precariedade da vida social produz esvaziamento das esperanças e nossa crescente incapacidade de projetar um futuro distinto, cabendo então à política converter-se em uma gestão social do medo. Por outro lado, a crise do socialismo como paradigma de transformação incide diretamente sobre a esperança. Então, medrosos e esperançosos lançam as expectativas de mudança da realidade para uma temporalidade exterior ao tempo presente e convertem a dúvida sobre o passado e o futuro em alienação da ação política, sem ver que o velho que morre ainda não deixou o novo nascer em sua plenitude. A atividade teórica passa então a mera especulação sobre o real ou resignação a ele. Retomar as rédeas da ação política como parte de nosso cotidiano é, de verdade, a única forma de evitar que a dúvida nos paralise e deixemos de lutar pelo que é necessário histórica e individualmente.

Nesses tempos, nos quais a política aparece para milhões como uma atividade corrupta, desprovida de conexão entre a ação do indivíduo e o bem comum, há uma sensação generalizada (e correta) de desamparo. Para combatê-la é preciso prestar atenção e apostar nas potencialidades do novo que surge agora mesmo. Novos movimentos, novos protagonistas da história, novos costumes e concepções às quais devemos estar abertos. Como disse certa vez Lacan, “viver sem esperança é também viver sem medo”. Faz-se urgente recolocar na ação presente a fonte alternativa para pensar novos circuitos de afetos que não passem nem pelo medo nem pela esperança. Os futuros possíveis dependem da análise concreta, da ação política consciente e inscrevem-se precisamente no presente.

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BIBLIOGRAFIA

RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. In: WEFFORT, Francisco (Org). Os clássicos da política, vol. I, Ed. Ática, 1995.

SAFATLE, Vladimir. O afeto como utopia. Disponível em: < http://www.mutacoes.com.br/sinopses/o-afeto-como-utopia/>

SPINOZA, Benedito. Ética III, definição dos afetos.

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* Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, militante do PSOL, autor do livro Revitalização sindical em tempos de terceirização.