O menino que carregava água na peneira

Por Manoel de Barros *

manbar

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

* Poeta

Do amor ao ódio petista

Por André Portella *

interr

Cada um de nós tem sua história. Somos lutadores sociais, sindicalistas, ativistas do movimento popular ou estudantil, do campo e da cidade. Tantos sonharam e militaram pela revolução e pelo socialismo, e o fazem até hoje, outros já não mais.

O Partido dos Trabalhadores, nunca se definiu como um partido revolucionário. Nasceu como a antítese do “socialismo real’ stalinista e transformou-se no polo agregador dessas diferentes matizes e tendências. Ex guerrilheiros, trotskitas, católicos, sindicalistas e intelectuais independentes uniram-se sob a liderança do metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva para construir um partido que representasse a classe trabalhadora, que havia crescido em importância, mas carecia de representação política genuína. A partir dessas articulações o PT tornou-se o mais importante partido de esquerda da América Latina.

Dentro de um contexto de lutas e desarranjos na política brasileira, Lula chegou à presidência do Brasil em 2003, onde acordou a conhecida “carta aos brasileiros”, um pacto com as elites nacionais e internacionais, comprometendo-se a manter os interesses do grande capital; bem como articular o presidencialismo de coalizão com diversos partidos, inclusive os de direita.

Logicamente os fatores econômicos, em seus dois mandatos, contribuíram para o silêncio da burguesia pois o grande capital rentista acumulava ganhos jamais alcançados na história do Brasil. Dentro desse contexto não podemos nos abster de lembrar que os ganhos sociais foram os maiores já constatados, nenhum outro governo trouxe tamanha prosperidade quanto o governo Lula.

Lamentavelmente, o primeiro governo de sua sucessora e o atual, a presidente Dilma, não seguiu a maré de prosperidade, aliás, o Brasil encontra-se neste momento em uma grave crise política/econômica, mais política, pelo fato de os mesmos rentistas oportunistas, mencionados anteriormente, potencializarem fatores para o caos. De fato, o amor aos primeiros governos petistas, virou ódio por parte dos brasileiros. Graves problemas de corrupção, algo repreendido pelo PT, quando oposição, e hoje imerso em denúncias e processos, onde dirigentes importantes da República, estão presos ou respondendo a processos. Portanto, é chegado o momento de refletirmos e pensarmos um Brasil sem corrupção, não só na política, mas em seu tecido social, onde as vantagens indevidas, ou jeitinho brasileiro, não seja conhecida como malandragem.

Cabe salientar que a população, no seu âmbito geral, não percebe que as manipulações midiáticas, esta efetuada por uma mídia conservadora, cujo principal objetivo é forjar um inimigo principal da atual corrupção, hoje direcionada ao PT, o qual não pode ser responsabilizado como progenitor corrupto do sistema. Em um estado democrático de direito devemos nos pautar por justiça não seletiva, cabendo ao poder judiciário investigar “todos” independentemente de partido político ou afinidades ideológicas. Fica a grande pergunta: neste momento a justiça é seletiva?

* Professor, mestre em Engenharia e pós-graduado em Ciências Sociais

Queijo de ralar

Por Pedro Câncio *

pedro

Porque era baixo, retaco de forte e roliço chamavam-lhe de Mulita. Tipo simpático e afável. Nunca contendia com ninguém. Ainda que fosse provocado. Evitava meter-se em certas complicações. Resolvia qualquer desafeto com naturalidade. Vivia no bairro do porto desde sempre, embora nascesse lá perto
do matadouro público. Não tinha ofício certo. Quando perguntado sobre suas ocupações de trabalho, solícito respondia:

– Eu vivo de changas.

Na realidade entenda-se changas por contrabandos. Mulita era contrabandista. Dessa atividade resultava o ganha-pão diário. Assim era conhecido e considerado. Amigo dos amigos. Homem de coragem e hábil nadador. Por isso naquela manhã, quando transitou pelas ruas do bairro do Porto, tinha-se a certeza de que à noite haveria contrabando. Mulita possuía um grande elenco de
companheiros às tarefas noturnas. Então quando cruzava ruas, em geral estava à procura de changadores para um servicinho. Agenciava homens e estabelecia condições com os donos das cargas a serem contrabandeadas. Avaliava peso e quantidade para precisar preços e volume, porque disso dependia o tamanho e tipo da embarcação apropriada à carga, bem como o número de parceiros. Por isso naquela manhã, ele se deslocava à procura do proprietário da Santana, chalana escolhida para a travessia de dois mil quilos de queijo de ralar.

Quando a Usina Elétrica deu o apito da uma da tarde, hora que convocava os funcionários ao trabalho a ser reiniciado meia hora depois, o agenciador Mulita estava com os planos traçados para essa noite. A chalana Santana alugada e os dois companheiros escolhidos a dedo, contratados. Pão Doce e Mergulhão. O nome de Pão Doce o exímio remador trouxe de casa. Assim o chamavam desde pequeno. Mergulhão, o próprio nome explica o motivo. Apelativo conquistado pela grande capacidade de manter-se escondido nas águas, quando era necessário. Caía aqui e aparecia a muitos metros adiante.

Tudo pronto. Deste lado do Rio Uruguai, Mulita, Pão Doce e Mergulhão, acomodados na chalana, aguardavam que a noite  chegasse. Do outro lado, lá nas costas argentinas, a situação era com os de lá, que, ao anoitecer, depositariam as peças de queijo dentro do mato, próximo à barranca que serviria de porto. Os
tripulantes da Santana deveriam transportá-las até a chalana e pronto. O mais era remar. Remar forte. Santana com dois mil quilos ficaria muito pesada. Seria preciso muita força nos remos para abrir as águas do rio. Mas eram dois remadores experientes, além de Mulita que, se necessário, também pegaria no pesado. Portanto eram três homens fortes e decididos, prontos a qualquer necessidade. Com Mulita, no comando, acomodado ao banco de popa, administrava a aventura, na condição de prático das águas e também da atividade. Ele carregava naquele momento em seus ombros todas as responsabilidades do mundo. Com a sua eram três vidas em jogo de vida e morte. Mais um perigo, entre tantos.

Enfim a noite chegou e com ela a incerteza dos participantes desapareceu, pois durante à tarde Pão Doce e Mergulhão foram tomados de certa ansiedade. Já acomodados na Santana, ouviram de Mulita:

– Seja o que Deus quiser! Tá na hora, embora!

Daí em diante a vida estava fora do controle. Nenhum daqueles homens tinha mais poder sobre si, ou sobre a situaçãoque os envolvia. Estava sacramentado o inquestionável poder de Deus. Viver era uma ilusão. Morrer um ato fugaz.

Tudo escuridão. Ao redor e dentro da Santana. O silêncio do diálogo contagiante permitia a compreensão dos limites de suas audácias. E Mulita, Pão Doce e Mergulhão avançaram em direção à costa de Paso de los Libres. Naquele momento uma brisa leve levantada das águas temperava as sombras da noite onde aqueles três filhos da natureza tinham sido jogados à própria sorte.

Sim! Mulita, Pão Doce e Mergulhão achavam-se integrados na natureza, portanto, eles eram natureza também.

Santana atracou no lugar combinado entre o dono da carga e seus agenciadores, o de lá e o de cá. Tudo corria de maravilha. Após o reconhecimento da carga, dedicaram-se a transportar as peças de queijo até a margem do rio, de onde colocariam depois na chalana. Foi quando um estranho ruído cortou o silêncio sepulcral que envolvia o ambiente. Atentos à direção de onde vinha o inesperado perceberam já próximos homens da guarda costeira que agachados, tentando evitar de serem vistos, avançavam com as armas em punho como se participassem de uma guerra. Mais perto uma voz aos brados, se manifestou:

– ¡Quietos! ¡Parados ahí dónde están!

Pão Doce jogou-se na água e silencioso foi se afastando da chalana em direção à costa brasileira. Mergulhão depois de vários metros percorridos, escondido nas águas, veio à tona e também nadou silencioso. Mulita que, dentro da chalana, ajeitava as peças de queijo já carregadas até a margem recebeu no peito, do lado esquerdo, um tiro de arma de fogo disparado a distância de menos de dez metros. Ali mesmo caiu, produzindo na queda um golpe surdo quando encontrou resistência no fundo da Santana. Caiu como se fosse um queijo de ralar, daqueles queijos revestidos de tinta negra, como se vestisse de luto.

Dois dias depois, com extrema dificuldade conseguiram liberar o corpo morto de Mulita para depositarem-no em sua derradeira morada. Em presença da família, e de amigos, e de companheiros de tantas changas, encontravam-se Pão Doce e Mergulhão, que compareceram ao ato, solidários. O silêncio só foi quebrado pelo sussurro dos mais chegados que abafavam a marca sentimental de suas dores.

Mas entre os changadores, havia aqueles que se preocupavam com outra questão:

– Quem é que vai substituir o Mulita e contratar novas changas pra nós?

* Professor aposentado do Instituto de Letras / UFRGS

provisorio

Narrativas de contrab

Porque era baixo, retaco de forte e roliço chamavam-lhe de Mulita. Tipo simpático e afável. Nunca contendia com ninguém.

Ainda que fosse provocado. Evitava meter-se em certas

complicações. Resolvia qualquer desafeto com naturalidade.

Vivia no bairro do porto desde sempre, embora nascesse lá perto

do matadouro público. Não tinha ofício certo. Quando perguntado

sobre suas ocupações de trabalho, solícito respondia:

– Eu vivo de changas.

Na realidade entenda-se changas por contrabandos. Mulita

era contrabandista. Dessa atividade resultava o ganha-pão diário.

Assim era conhecido e considerado. Amigo dos amigos. Homem

de coragem e hábil nadador. Por isso naquela manhã, quando

transitou pelas ruas do bairro do Porto, tinha-se a certeza de que à

noite haveria contrabando. Mulita possuía um grande elenco de

companheiros às tarefas noturnas. Então quando cruzava ruas, em

geral estava à procura de changadores para um servicinho.

Agenciava homens e estabelecia condições com os donos das

cargas a serem contrabandeadas. Avaliava peso e quantidade para

precisar preços e volume, porque disso dependia o tamanho e tipo

da embarcação apropriada à carga, bem como o número de

parceiros. Por isso naquela manhã, ele se deslocava à procura do

proprietário da Santana, chalana escolhida para a travessia de dois

mil quilos de queijo de ralar.

Quando a Usina Elétrica deu o apito da uma da tarde, hora

que convocava os funcionários ao trabalho a ser reiniciado meia

hora depois, o agenciador Mulita estava com os planos traçados

para essa noite. A chalana Santana alugada e os dois

companheiros escolhidos a dedo, contratados. Pão Doce e

Mergulhão. O nome de Pão Doce o exímio remador trouxe de

casa. Assim o chamavam desde pequeno. Mergulhão, o próprio

nome explica o motivo. Apelativo conquistado pela grande

capacidade de manter-se escondido nas águas, quando era

necessário. Caía aqui e aparecia a muitos metros adiante.

Tudo pronto. Deste lado do Rio Uruguai, Mulita, Pão Doce

e Mergulhão, acomodados na chalana, aguardavam que a noite

chegasse. Do outro lado, lá nas costas argentinas, a situação era

com os de lá, que, ao anoitecer, depositariam as peças de queijo

dentro do mato, próximo à barranca que serviria de porto. Os

tripulantes da Santana deveriam transportá-las até a chalana e

pronto. O mais era remar. Remar forte. Santana com dois mil

quilos ficaria muito pesada. Seria preciso muita força nos remos

para abrir as águas do rio. Mas eram dois remadores experientes,

além de Mulita que, se necessário, também pegaria no pesado.

Portanto eram três homens fortes e decididos, prontos a qualquer

necessidade. Com Mulita, no comando, acomodado ao banco de

popa, administrava a aventura, na condição de prático das águas e

também da atividade. Ele carregava naquele momento em seus

ombros todas as responsabilidades do mundo. Com a sua eram

três vidas em jogo de vida e morte. Mais um perigo, entre tantos.

Enfim a noite chegou e com ela a incerteza dos participantes

desapareceu, pois durante à tarde Pão Doce e Mergulhão foram

tomados de certa ansiedade. Já acomodados na Santana, ouviram

de Mulita:

– Seja o que Deus quiser! Tá na hora, embora!

Daí em diante a vida estava fora do controle. Nenhum

daqueles homens tinha mais poder sobre si, ou sobre a situação

que os envolvia. Estava sacramentado o inquestionável poder de

Deus. Viver era uma ilusão. Morrer um ato fugaz.

Tudo escuridão. Ao redor e dentro da Santana. O silêncio do

diálogo contagiante permitia a compreensão dos limites de suas

audácias. E Mulita, Pão Doce e Mergulhão avançaram em direção

à costa de Paso de los Libres. Naquele momento uma brisa leve

levantada das águas temperava as sombras da noite onde aqueles

três filhos da natureza tinham sido jogados à própria sorte.

Sim! Mulita, Pão Doce e Mergulhão achavam-se integrados

na natureza, portanto, eles eram natureza também.

Santana atracou no lugar combinado entre o dono da carga e

seus agenciadores, o de lá e o de cá. Tudo corria de maravilha.

Após o reconhecimento da carga, dedicaram-se a transportar as

peças de queijo até a margem do rio, de onde colocariam depois

na chalana. Foi quando um estranho ruído cortou o silêncio

sepulcral que envolvia o ambiente. Atentos à direção de onde

vinha o inesperado perceberam já próximos homens da guarda

costeira que agachados, tentando evitar de serem vistos,

avançavam com as armas em punho como se participassem de

uma guerra. Mais perto uma voz aos brados, se manifestou:

– ¡Quietos! ¡Parados ahí dónde están!

Pão Doce jogou-se na água e silencioso foi se afastando da

chalana em direção à costa brasileira. Mergulhão depois de vários

metros percorridos, escondido nas águas, veio à tona e também

nadou silencioso. Mulita que, dentro da chalana, ajeitava as peças

de queijo já carregadas até a margem recebeu no peito, do lado

esquerdo, um tiro de arma de fogo disparado a distância de menos

de dez metros. Ali mesmo caiu, produzindo na queda um golpe

surdo quando encontrou resistência no fundo da Santana. Caiu

como se fosse um queijo de ralar, daqueles queijos revestidos de

tinta negra, como se vestisse de luto.

Dois dias depois, com extrema dificuldade conseguiram

liberar o corpo morto de Mulita para depositarem-no em sua

derradeira morada. Em presença da família, e de amigos, e de

companheiros de tantas changas, encontravam-se Pão Doce e

Mergulhão, que compareceram ao ato, solidários. O silêncio só

foi quebrado pelo sussurro dos mais chegados que abafavam a

marca sentimental de suas dores.

Mas entre os changadores, havia aqueles que se

preocupavam com outra questão:

– Quem é que vai substituir o Mulita e contratar novas

changas pra nós?

Nova temporada de House of Cards ganha análise acadêmica

 Glauco Ludwig Araujo, Ivan Penteado Dourado e Vinicius Rauber e Souza *

image descriptionAs séries televisivas constituem hoje uma nova opção de entretenimento. Elas vão além da limitação de tempo e espaço de um filme ou mesmo de uma trilogia cinematográfica. Despertam o interesse crescente do público brasileiro, a despeito da tradição do país na produção de novelas e minisséries. Acrescente-se a isso um fator relativamente recente que é o da produção e exibição de séries em plataformas online, cujo caso mais notório é o da Netflix. Nesse ambiente, a narrativa pode fugir da estrutura linear, utilizando-se de elementos de hipertextualidade e outros. Em síntese, convidando o público a não ser mero espectador.

Os autores de Poder e Sociedade no Castelo de Cartas fizeram exatamente isso, saíram de sua posição espectadora para colocar os personagens de House of Cards em outros cenários.

Nesse livro o leitor encontrará Francis Underwood dialogando com Maquiavel sobre o edifício do Poder. Verá Rousseau mostrando como a natureza humana foi corrompida pela sociedade em House of Cards. Refletirá sobre a noção de político profissional a partir das considerações de Max Weber. Poderá compreender melhor como se estrutura o sistema político estadunidense e os jogos de poder que aí se movimentam e, a partir desse modelo, entender o próprio universo político brasileiro. O foco é a aproximação entre as teorias clássicas e o que há de mais contemporâneo nas narrativas seriadas.

* Organizadores do livro Poder e sociedade no castelo de cartas: Teoria política em House of Cards em produção pela Escritos Editora