E chegou a segunda edição!

Por Cristiano Refosco *

testaDepois de meses de muito trabalho, temos a honra de apresentar para nossos pequenos e grandes leitores a segunda edição da coleção “Era uma vez um conto de fadas inclusivo”. A princípio, quando esgotaram os exemplares da primeira edição, pensamos em fazer apenas uma reimpressão dos livros, o que seria bastante rápido e mais fácil. Porém, o desejo de aprimorar um trabalho que já é reconhecido no Brasil todo convenceu-nos de que podíamos  mais.

Lançar a primeira edição dos contos inclusivos em 2012 foi uma aventura da qual me orgulho profundamente. Nunca vou esquecer o dia em que levei os originais das minhas primeiras ilustrações até o designer e amigo Leandro Selister. Após folhear os desenhos, Leandro chorou. Foi então que eu pensei: “Para ele ter chorado, ou está muito bom ou está muito ruim”.  A próxima frase dita pelo meu amigo designer foi um veredicto de que tudo ia dar certo:

“Cris, coloco meu escritório à disposição para fazermos esses livros, e acho importante que você os ilustre”.

De imediato, a ideia de eu mesmo ilustrar os meus livros pareceu-me absurda, visto que não sou ilustrador, mas acabei convencido pelo talento e pela sensibilidade de Leandro Selister e iniciei uma verdadeira odisseia pessoal. Imagine alguém que nunca havia desenhado nada a não ser rabiscos no caderno, durante as aulas de antropologia, fazer em 4 meses mais de 170 ilustrações. Mas valeu a pena.

Findado todo o processo de captação de patrocinadores e após a  parceria com a editora Escritos, lançamos para o mundo de forma ousada e original 11 livros (sim, 11 livros de uma única vez!) que viriam a contribuir para a reflexão de muitos professores e alunos de todo o país acerca de assuntos ainda tão pouco discutidos em salas de aula como deficiência, inclusão e acessibilidade.

Chapeuzinho cadeirante caindo com sua cadeira de rodas num buraco, Cinderela sem pé perdendo a prótese durante a fuga do baile, João sem braços subindo pelo pé de feijão usando a boca… Cada um dos principais contos de fadas ganhou uma deficiência e as histórias passaram a ter outros enfoques, sempre primando pela ideia da importância do respeito às diferenças.

Para a segunda edição queríamos mais. Se é preciso ter coragem para criar algo autêntico, também é preciso coragem para reconhecer que tudo sempre pode ser aprimorado. Logo, decidimos que a segunda edição manteria a originalidade da primeira, mas que seria um novo produto. Foi então que a Escritos apresentou-me o Thiago Luz, o nosso jovem e talentoso ilustrador. Especialmente para mim, que havia desenhado toda a primeira edição, ver meus personagens com outras caras e traços foi uma experiência engrandecedora. Reconhecer na “nova Chapeuzinho da cadeirinha de rodas” ilustrada pelo Thiago a mesma energia da minha Chapeuzinho da primeira edição, certificou-me de que esses personagens já existem, independente das formas que eles venham a ter. Além de demonstrar todo o conhecimento técnico que buscávamos para as ilustrações, Thiago Luz conseguiu manter o espírito de alegria que os personagens dos meus livros possuem. Deficiência não é sinônimo de tristeza. Deficiência é somente deficiência e assim é que tinha que continuar sendo nos contos de fadas inclusivos.

Da mesma forma, chegou a hora de revisar os textos dos livros. Acredito que para qualquer escritor esta seja uma situação única. Alguém de fora do seu universo, com outros olhos e impressões, vir e sugerir que você mude aqui ou ali, que repense uma frase ou um parágrafo é um verdadeiro exercício de desapego, mas uma ótima oportunidade de aprender e de crescer ainda mais.

Coleção ilustrada e revisada, optamos por condensar as histórias em 3 volumes, o que facilitaria o acesso aos contos de quem não tivesse condições de comprar os 11 livros de uma só vez. Não adianta nada lançar uma coleção muito bacana sobre inclusão e acessibilidade se ela não puder ser acessível na sua aquisição.

Sendo assim, é com profunda alegria e com o coração repleto de agradecimento ao carinho dispensado pela Escritos para com os contos de fadas inclusivos, que convido a todos os leitores, grandes e pequenos, novos e antigos a mergulharem nesta segunda edição.

Uma ótima leitura a todos e que consigamos educar nossas crianças em prol do respeito às diferenças, bem como – num futuro próximo – povoar o mundo de adultos mais tolerantes e livres de preconceitos.

 * Autor da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo e fisioterapeuta.

Entrevista com o filósofo Carlos Roberto Velho Cirne Lima

Por IHU online *

cirne

O senhor poderia explicar em que consistem suas duas correções ao sistema hegeliano?
Quando falo em correção no sistema de Hegel, estou pressupondo erros que ele cometeu e que devam ser corrigidos. Esses erros foram apontados por Schelling no tempo em que Hegel lecionava em Berlim. Schelling lecionava na Universidade de Munique. Companheiro de estudos de Hegel, Schelling, depois de certo período, seguiu outros caminhos. A amizade deles, inclusive, parece que diminuiu. Schelling era, naquela época, uma das pessoas que melhor entendiam o que Hegel queria e o que havia feito. Dois ou três anos antes de Hegel morrer, Schelling ofereceu um semestre inteiro de aulas em Munique com o título Preleções sobre a filosofia contemporânea. Nessa oportunidade ele fez uma coisa inédita, porque cada capítulo é destinado a um grande pensador: Descartes, Christian Wollf , Spinoza, Leibniz, Kant, Fichte. Só que depois de Fichte vem o próprio Schelling, e ele fala dele mesmo. Depois de falar sobre ele mesmo, fala sobre Hegel. A seguir, no último capítulo, ele fala sobre si próprio novamente como o Schelling da velhice. Então, há dois capítulos sobre Schelling, e no meio deles um capítulo sobre Hegel. Nesse capítulo, Schelling critica Hegel, apontando algumas críticas corretas e com fundamento. A primeira dessas críticas é a mais séria de todas: que Hegel nunca deu o devido valor e importância para a contingência ou, em outras palavras, a facticidade das coisas nesse mundo e, portanto, da história. Aquilo que hoje Habermas  chama de facticidade (o termo técnico é contingência), é aquilo que pode ser e pode não ser, mas de fato é. Hegel tem a tendência muito forte de dizer que tudo que é a rigor tinha que ser. Ele nunca escreve isso com essa força, com esse descaramento. Ele não é bobo… Inclusive no começo da Filosofia do direito, Hegel pressupõe claramente o mundo contingente em que podemos e devemos fazer os mais variados contratos. Esse é um lugar em que Hegel respeitou a contingência do mundo. Mas, em muitos outros lugares, ele parece negar mais e mais a contingência do mundo. Num texto importante, que tem como título A razão na história, que é a introdução à Filosofia da história de Hegel, ele escreve “para entender a história é preciso afastar a contingência”. E a objeção que Schelling faz, e depois repetida por muitos outros contemporâneos que trabalham sobre Hegel, é que, embora ele tenha e fale sobre a contingência em vários lugares e tenha certa importância, nas grandes linhas do sistema, ela é negligenciada. Ela não recebe a importância que deveria ter, de sorte que a história já em Hegel adquire um caráter necessitário, o que vai provocar o grande erro de Marx de que a história é inexorável e que, portanto, a revolução comunista é um momento inexorável da história, que necessariamente vai acontecer. Esse é o primeiro grande erro de Hegel. Ele não foi suficientemente claro em dar ênfase para a facticidade da história. O segundo grande erro de Hegel é mais um problema de terminologia combinado com certa ambiguidade. O filósofo fala constantemente da contradição como motor do sistema. Só que todos os lógicos a partir de Aristóteles até hoje dizem que quem não respeita o princípio da não-contradição perde o uso da razão e “fica reduzido ao estado de planta” . E Hegel diz que a contradição é o motor do sistema… Essa é uma objeção que os lógicos e a filosofia analítica fazem contra Hegel e que os hegelianos não conseguem responder. Se contradição é algo tão ruim, se ela nos tira o uso da razão, como é que em Hegel a razão funciona e se movimenta mediante a contradição? A resposta que eu dou, e nesse ponto eu estou quase sozinho, acompanhado apenas por Eduardo Luft, que foi meu aluno, e por Klaus Düssing, na Alemanha, é que quando Hegel fala em contradição, ele deveria estar falando em contrariedade. Junto comigo, Düsing não apenas aceita, mas defende essa teoria. Em lógica, contradição é diferente de contrariedade. Na contradição, se um pólo é verdadeiro, o outro é falso, e é impossível que ambos sejam falsos. Ora, em Hegel, tese e antíteses são falsas, e isso é possível na contrariedade, mas não é possível na contradição. Daí então se coloca a minha correção em Hegel e dizer que quando ele fala em contradição, entenda-se contrariedade.

E a que o senhor atribui essa incompreensão do termo contradição?
Acredito que entre os contemporâneos é um problema de fé. Há poucos dias recebi um livro muito bem escrito do colega José Henrique Santos  sobre a Fenomenologia do espírito: O trabalho do negativo: ensaios sobre a Fenomenologia do Espírito (São Paulo: Loyola, 2007). Nessa obra, ele tem um capítulo inteiro em que expõe minha teoria sobre a contrariedade mas, depois, volta atrás e diz que não é contrariedade, mas sim contradição. Contudo, aí ele precisa admitir que a lógica de Hegel não tem nada a ver com a lógica contemporânea, ou seja, é outra coisa. Mas ele não consegue explicar que outra coisa essa lógica hegeliana seria. Os outros autores também são assim, ao passo que na Alemanha, em Colônia, meu colega Düsing tem a mesma teoria que eu, e chegou a ela independentemente de mim, e eu independentemente dele. A explicação é simples. Até os advogados confundem contradição e contrariedade e usam uma quando deveriam usar a outra. A mesma coisa acontece com os políticos. As palavras contradição e contrariedade, no decorrer dos séculos, ficaram com conteúdo muitas vezes flutuante e, às vezes, eram vistas como sinônimos. Já se um lógico ouve falar em contradição, ele diz que isso está errado. E se o sistema de Hegel fala em contradição, então está tudo errado. Essa é a posição de um lógico e da filosofia analítica contemporânea. Por isso é que Hegel nesse campo analítico é um absurdo. Minha teoria é de que a lógica está correta e o que Hegel quer dizer realmente é contrariedade. O que acontece é que, já no tempo dele, nem todos distinguiam corretamente contradição e contrariedade.

E após essas duas correções que o senhor sugere, como se poderia chegar a um conceito complexo de identidade e no que ele implica em termos de uma ponte com o conceito de complexidade, Teoria da Evolução, Caos e Sistemas?
No meu último livro, Depois de Hegel, toda a parte final trata sobre a Teoria de Sistemas, Evolução e Complexidade. A partir do sistema de Hegel, com as duas correções que indiquei, além de mais uma que outra modificação, eu desemboco na Teoria da Evolução e de Sistemas, que é a Teoria da Complexidade. Isso, em Hegel, vem do conceito de identidade, pois ela mesma é complexa. Então, x = x vale apenas para um lógico. Quando Hegel diz que x é idêntico a x, ele não está dizendo apenas que x = x. É por isso que no meu livro está escrito que na fórmula x = x há identidade dialética de x e de x. A lógica implica nisso. A identidade dialética é diferente do x = x, pois ela contém a oposição. Na identidade simples, o pai é o pai, e tu podes esquecer completamente o filho. Na identidade dialética se está falando sempre do pai e do filho ao mesmo tempo, portanto da filiação. Nessa identidade, existem sempre dois polos que numa primeira etapa são separados e se opõem, e numa segunda etapa se unem, se conciliam, formando a síntese. A identidade lógica é vazia de conteúdo, enquanto que a identidade dialética tem, dentro de si, uma oposição. Na vida real, nem eu nem você podemos dizer que somos x = x. Somos xt1, xt2, xt3, porque o tempo está passado. Agora estou sentado, depois estarei de pé. Cada vez que há um movimento, tu já não és mais apenas o x. Então tu tens que fazer uma teoria (algo que ninguém consegue fazer direito), da identidade do x sentado, do x de pé, do x neste momento, do x em outro lugar, porque em lógica contemporânea o x significa apenas aquele exato momento naquela configuração. Já a identidade dialética inclui o que eu sou e o que eu quero ser, aquilo que fui no passado. As pessoas são uma identidade dialética: elas estão no tempo e têm passado, presente e futuro. Esse é o mundo no qual vivemos realmente. A identidade lógica só vale para a matemática; não vale nem mesmo para a física, na qual já temos uma transição para a identidade dialética. A vida é um sistema dinâmico em funcionamento. Essa é a conclusão a que chego no final desse meu livro. Isso não é mais Hegel, mas uma continuação do sistema hegeliano.

O senhor poderia nos dar mais detalhes sobre a acusação de necessitarismo que o sistema de Hegel sofreu e os entraves que, a partir disso, se colocam em relação ética e à liberdade?
Se dissermos que o sistema de Hegel é necessitário, por consequência não há ética e nem liberdade. O necessitarismo não dá chances de escolher entre alternativas. É preciso seguir o caminho “necessário”. Marx tem uma frase que expressa isso muito bem, falando que, quando alguém entra no rio da história, não se deve tentar nadar contra a correnteza porque não adianta nada. O certo é entrar no rio e se deixar levar pela correnteza. Essa correnteza do rio é a necessidade, o necessitarismo do sistema de Marx e que se encontra pré-figurado em Hegel, pois embora tenha alguns textos contra, grosso modo, tende mais para o necessitarismo do que para uma teoria libertária.

Em uma entrevista que o senhor nos concedeu, especificamente no número 166 da IHU On-Line, o senhor diz que o panenteísmo  “nos levará a uma compreensão da unidade do Universo”, aproximando diferentes religiões. Em que medida o conceito de Absoluto hegeliano apoia essa perspectiva?
O conceito de Absoluto apoia completamente essa teoria, algo que estou formulando com palavras um pouco diferentes. O sistema hegeliano é panenteísta, não há a menor dúvida. E quando um sistema é panenteísta, há mais facilidade de diálogo com outras religiões. Vamos tomar o exemplo do maior teólogo católico do século XXI, Karl Rahner. Agora vamos pensar sobre o índio brasileiro, que nunca teve contato com os brancos e que levou uma vida muito decente, muito boa, mas nunca batizou-se ou ouviu falar de Jesus Cristo. Se esse índio morre, ele vai para o céu? Para Rahner, sim. Esse é o cristão anônimo, teoria que ele formulou e levou ao Concílio Vaticano II . Lá Rahner foi derrotado com essa ideia. Se expandirmos essa teoria, teremos, então, uma teoria ecumênica. O problema é que tanto islâmicos quanto protestantes estão caminhando a passos largos para um extremismo religioso. No Islamismo isso fica bem claro através de todas essas guerras que vemos hoje. A forma como os islâmicos tratam a mulher, o uso da burka, a introdução da lei duríssima da Charia essa tendência para o rigorismo é totalmente contra o espírito ecumênico. Uma teoria panenteísta, que há meio século teria efeitos melhores, hoje esbarra no fanatismo religioso, que não é só de uma religião, mas de várias: judeus ortodoxos, árabes e até os protestantes americanos. A Guerra do Iraque tem uma base religiosa protestante. O fanatismo religioso é o maior inimigo de uma posição ecumênica em todos os credos, inclusive no católico.

Quais foram as maiores dificuldades no projeto que o senhor e seu colega Carlos Soares , da UCS, tiveram ao formalizar a Ciência da lógica de Hegel? Como foi a recepção desse estudo pela academia?
Hegel dizia que sua filosofia não poderia ser formalizada. Só que ele estava falando da lógica do seu tempo. Entretanto, os seus argumentos atingem as lógicas contemporâneas. Assim, o Soares, que é o melhor lógico do Rio Grande do Sul, a meu convite, se debruçou sobre o assunto e tentamos fazer a exposição da primeira parte da Lógica de Hegel em lógica simbólica. O que causa estranhamento é que nenhum lógico lê nosso trabalho porque ele trata de Hegel, e nenhum hegeliano o lê porque é lógica. Então, nós fizemos algo que foi publicado numa revista de circulação ampla e não recebemos nenhuma única manifestação, quer positiva ou negativa. Em seguida, publiquei Depois de Hegel, e nele, após cada capítulo, faço uma formalização. No trabalho sobre a Ciência da lógica, fizemos a primeira parte. Agora fiz as três partes numa lógica mais simples, acessível, que todos aprendem no primeiro ou segundo semestre da Filosofia. Do ponto de vista lógico, esse trabalho é muito menos “bonito”, “perfeito”, mas em compensação, mais fácil de ler para um lógico. O texto de Depois de Hegel está muito claro, fácil de ler. Espero, num futuro próximo, que haja uma reação maior do que aquela que tivemos quando da formalização da Ciência da lógica através dos dois artigos.

E por que o senhor deu ao seu livro o nome de Depois de Hegel?
Coloquei esse nome porque se eu colocasse apenas Hegel, as pessoas perguntariam com que direito eu estou corrigindo Hegel. O livro não tem a intenção de expor o filósofo ao pé da letra, não sendo uma obra de história da Filosofia. Corrijo Hegel, mudo palavras dele, e assim a obra está baseada no pensador. Não é um livro de um comentador de Hegel. É um livro de alguém que estudou Hegel e que está escrevendo sobre ele. A culpa e a responsabilidade pelos erros e acertos são minhas. O leitor atento perceberá que nesse estudo me alicercei em erros e acertos de Hegel.

Antecipando o tema que o IHU tratará no Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma Sociedade de indivíduos?, como o senhor conectaria o “dever-ser” de Hegel com a busca e construção da autonomia do sujeito contemporâneo?
O problema da autonomia é que o eu no sentido singular é algo que não existe. Essa é uma ideia de Hegel e que vem desde Platão, passando pelos neoplatônicos como Plotino , Nicolaus Cusanus , chega a Schelling e Hegel e que eu abraço totalmente. Eu não sou apenas um eu singular. Sou nós dois que estamos conversando. Sou nós que estamos lendo esse trabalho. Sou nós que somos Unisinos. Sou nós que somos gaúchos, brasileiros, humanidade, Terra, Universo. Então o eu singular é, ao mesmo tempo, o eu universal. É por isso que eu tenho obrigações com o outro eu, que está próximo de mim, e também com o eu que está bem longe, no outro lado do planeta. Tenho obrigações com a natureza, com a ecologia. O meu eu atinge o universo inteiro. O eu verdadeiro só é verdadeiro quando é universal, o que eu chamo de autonomia, pois é o universo que dá as leis a si mesmo. E eu, enquanto universo, dou as leis a mim mesmo. Bem concretamente, se eu tomar a decisão de fazer algo, essa é uma atitude singular. Em termos estaduais, federais, por exemplo, é correto dizer que eu perdi a minha autonomia porque foram os deputados que fizeram as leis, e não eu? Não. Sou eu que estou simbolicamente na Assembleia fazendo as leis. E se eu não obedeço a alguém “estranho”, estou desobedecendo a mim mesmo. Quando eu obedeço à lei brasileira, obedeço àquele Congresso Nacional, não o singular que existe e que está cheio de ladrões, mas àquele Congresso que representa o meu eu ampliado. É por isso que, quando obedeço à lei brasileira, estou obedecendo algo que eu mesmo fiz. Isso mostra que o eu pode e deve ser expandido de tal maneira que ele abarque não só o município, estado, ou país, mas o universo inteiro. Esse é o sentido da autonomia.

Então seria correto afirmar que o conceito de autonomia hegeliano se apoia em Kant e, por isso, o indivíduo como um “nó no sistema do mundo” é aquele que age obedecendo como um eu expandido, categoricamente?
A diferença sobre a autonomia em Kant e em Hegel é que, para Kant, a autonomia diz respeito apenas ao homem, a quem ele chama de eu transcendental. Mas o eu transcendental de Kant abarca apenas os homens. Nesse sentido, uma ética kantiana é incapaz de fundamentar a ecologia. Então, de acordo com a autonomia de Kant eu posso destruir as florestas, exceto se vou prejudicar outro homem. No conceito de autonomia que eu estou defendendo, mesmo que eu não estivesse prejudicando o outro homem, a floresta tem a sua base moral, e não posso matar animais sem motivo, por exemplo. Não posso destruir uma floresta sem motivo. Posso, sim, comer um animal porque estou um elo acima na cadeia alimentar. Como a autonomia que defendo abrange o homem que se estende pela natureza e abarca o universo inteiro, esta é uma autonomia mais ampla. Kant é parecido com Hegel, porém mais estreito.

E o que a filosofia pós-moderna, de característica antissistema, pode aprender com Hegel? O senhor ainda acha que a Filosofia agoniza por conta dessa falta de sistema? Esse cenário continua e tende a continuar? Por quê?
Penso que o problema continua e tende a continuar. A partir da virada do século XIX para o XX, fomos destruindo a razão: prova disso são Nietzsche, Heidegger  e outros pensadores. Não há praticamente ninguém no horizonte da Filosofia que esteja tentando fazer uma visão globalizada do mundo, uma ciência universalíssima, nome usado antigamente. Os filósofos nos departamentos de Filosofia estão todos fazendo história da Filosofia, ou da Ciência. E quem está fazendo filosofia, na minha opinião, é um que outro físico e biólogo, que tem uma visão de conjunto. Acho que alguns físicos contemporâneos são muito mais filósofos do que os professores de Filosofia. Dou um exemplo: a Unisinos publicou o livro A vida no cosmos (São Leopoldo: Unisinos, 2004), do físico americano Lee Smolin. Acredito que Smolin é mais filósofo do que a maioria dos professores de Filosofia que andam pelo mundo. Por quê? Porque ele tem uma visão do mundo e quer procurar uma teoria do mundo. Essa é a ideia da Filosofia, e os filósofos a abandonaram. Não vejo nenhum filósofo dedicando-se a isso em país nenhum. Uma visão global está sendo dada fajutamente por psicanalistas e, de uma forma muito boa, por cientistas como Lee Smolin e alguns teóricos do sistema.

Como Capra, por exemplo?
Bem, cheguei a conhecer o Capra  pessoalmente. Gostamos bastante um do outro. Acho que o grande livro dele é Teia da vida (São Paulo: Cultrix, 1997), uma obra na qual ele tem uma visão global. Os outros livros dele eu não recomendo porque ele tenta uma visão global e não a atinge. A Teia da vida, contudo, é um livro que traria orgulho para um filósofo.

Qual é a importância da Fenomenologia e como o senhor percebe essa obra em relação às demais na Filosofia?
A Fenomenologia é um dos mais importantes livros da história da Filosofia. Penso, ainda, que há poucas obras para colocar em patamar de igualdade com ela. É um livro difícil de ler, mas de uma grandiosidade, de uma amplidão, de uma visão do mundo tão ampla e sábia que, dificilmente, alguém conseguirá escrever algo parecido. Há, entretanto, um erro no capítulo final, e correções precisam ser feitas. Isso porque esse capítulo desemboca em algo que pode ser interpretado de modo totalitário. Se tu me perguntasses qual é o capítulo mais belo, eu mencionaria a Vorrede (prefácio), pela sua concisão e pelo panorama que Hegel dá de cima dessa “montanha”.

* Entrevista realizada em 2007.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o Prof. Dr. Carlos Roberto Velho Cirne Lima explicou as correções que faz ao sistema de Hegel e que o tornaram referência entre os estudiosos do pensador. Uma dessas correções reside no uso incorreto da palavra contradição, que Cirne Lima substitui por contrariedade: assim, quando o filósofo alemão “fala em contradição, entenda-se contrariedade”. Refletindo sobre o conceito de autonomia baseado em Hegel, o pesquisador compreende que o eu não pode ser entendido apenas como singular, mas como um “eu expandido”, e por isso comprometido com todo o universo, pois é autônomo o sujeito que dá a si mesmo as suas leis e as cumpre. Questionado sobre a repercussão que a formalização da Ciência da lógica, realizada em parceria com o lógico Carlos Soares, Cirne Lima manifestou seu estranhamento com o silêncio que seguiu a publicação dos dois artigos que a divulgaram: “Nenhum lógico lê nosso trabalho porque ele trata de Hegel, e nenhum hegeliano o lê porque é lógica”.

O senhor poderia explicar em que consistem suas duas correções ao sistema hegeliano?
Quando falo em correção no sistema de Hegel, estou pressupondo erros que ele cometeu e que devam ser corrigidos. Esses erros foram apontados por Schelling no tempo em que Hegel lecionava em Berlim. Schelling lecionava na Universidade de Munique. Companheiro de estudos de Hegel, Schelling, depois de certo período, seguiu outros caminhos. A amizade deles, inclusive, parece que diminuiu. Schelling era, naquela época, uma das pessoas que melhor entendiam o que Hegel queria e o que havia feito. Dois ou três anos antes de Hegel morrer, Schelling ofereceu um semestre inteiro de aulas em Munique com o título Preleções sobre a filosofia contemporânea. Nessa oportunidade ele fez uma coisa inédita, porque cada capítulo é destinado a um grande pensador: Descartes, Christian Wollf , Spinoza, Leibniz, Kant, Fichte. Só que depois de Fichte vem o próprio Schelling, e ele fala dele mesmo. Depois de falar sobre ele mesmo, fala sobre Hegel. A seguir, no último capítulo, ele fala sobre si próprio novamente como o Schelling da velhice. Então, há dois capítulos sobre Schelling, e no meio deles um capítulo sobre Hegel. Nesse capítulo, Schelling critica Hegel, apontando algumas críticas corretas e com fundamento.

A primeira dessas críticas é a mais séria de todas: que Hegel nunca deu o devido valor e importância para a contingência ou, em outras palavras, a facticidade das coisas nesse mundo e, portanto, da história. Aquilo que hoje Habermas  chama de facticidade (o termo técnico é contingência), é aquilo que pode ser e pode não ser, mas de fato é. Hegel tem a tendência muito forte de dizer que tudo que é a rigor tinha que ser. Ele nunca escreve isso com essa força, com esse descaramento. Ele não é bobo… Inclusive no começo da Filosofia do direito, Hegel pressupõe claramente o mundo contingente em que podemos e devemos fazer os mais variados contratos. Esse é um lugar em que Hegel respeitou a contingência do mundo. Mas, em muitos outros lugares, ele parece negar mais e mais a contingência do mundo. Num texto importante, que tem como título A razão na história, que é a introdução à Filosofia da história de Hegel, ele escreve “para entender a história é preciso afastar a contingência”. E a objeção que Schelling faz, e depois repetida por muitos outros contemporâneos que trabalham sobre Hegel, é que, embora ele tenha e fale sobre a contingência em vários lugares e tenha certa importância, nas grandes linhas do sistema, ela é negligenciada. Ela não recebe a importância que deveria ter, de sorte que a história já em Hegel adquire um caráter necessitário, o que vai provocar o grande erro de Marx de que a história é inexorável e que, portanto, a revolução comunista é um momento inexorável da história, que necessariamente vai acontecer. Esse é o primeiro grande erro de Hegel. Ele não foi suficientemente claro em dar ênfase para a facticidade da história.

O segundo erro de Hegel
O segundo grande erro de Hegel é mais um problema de terminologia combinado com certa ambiguidade. O filósofo fala constantemente da contradição como motor do sistema. Só que todos os lógicos a partir de Aristóteles até hoje dizem que quem não respeita o princípio da não-contradição perde o uso da razão e “fica reduzido ao estado de planta” . E Hegel diz que a contradição é o motor do sistema… Essa é uma objeção que os lógicos e a filosofia analítica fazem contra Hegel e que os hegelianos não conseguem responder. Se contradição é algo tão ruim, se ela nos tira o uso da razão, como é que em Hegel a razão funciona e se movimenta mediante a contradição? A resposta que eu dou, e nesse ponto eu estou quase sozinho, acompanhado apenas por Eduardo Luft, que foi meu aluno, e por Klaus Düssing, na Alemanha, é que quando Hegel fala em contradição, ele deveria estar falando em contrariedade. Junto comigo, Düsing não apenas aceita, mas defende essa teoria. Em lógica, contradição é diferente de contrariedade. Na contradição, se um pólo é verdadeiro, o outro é falso, e é impossível que ambos sejam falsos. Ora, em Hegel, tese e antíteses são falsas, e isso é possível na contrariedade, mas não é possível na contradição. Daí então se coloca a minha correção em Hegel e dizer que quando ele fala em contradição, entenda-se contrariedade.

E a que o senhor atribui essa incompreensão do termo contradição?
Acredito que entre os contemporâneos é um problema de fé. Há poucos dias recebi um livro muito bem escrito do colega José Henrique Santos  sobre a Fenomenologia do espírito: O trabalho do negativo: ensaios sobre a Fenomenologia do Espírito (São Paulo: Loyola, 2007). Nessa obra, ele tem um capítulo inteiro em que expõe minha teoria sobre a contrariedade mas, depois, volta atrás e diz que não é contrariedade, mas sim contradição. Contudo, aí ele precisa admitir que a lógica de Hegel não tem nada a ver com a lógica contemporânea, ou seja, é outra coisa. Mas ele não consegue explicar que outra coisa essa lógica hegeliana seria. Os outros autores também são assim, ao passo que na Alemanha, em Colônia, meu colega Düsing tem a mesma teoria que eu, e chegou a ela independentemente de mim, e eu independentemente dele. A explicação é simples. Até os advogados confundem contradição e contrariedade e usam uma quando deveriam usar a outra. A mesma coisa acontece com os políticos. As palavras contradição e contrariedade, no decorrer dos séculos, ficaram com conteúdo muitas vezes flutuante e, às vezes, eram vistas como sinônimos. Já se um lógico ouve falar em contradição, ele diz que isso está errado. E se o sistema de Hegel fala em contradição, então está tudo errado. Essa é a posição de um lógico e da filosofia analítica contemporânea. Por isso é que Hegel nesse campo analítico é um absurdo. Minha teoria é de que a lógica está correta e o que Hegel quer dizer realmente é contrariedade. O que acontece é que, já no tempo dele, nem todos distinguiam corretamente contradição e contrariedade.

Professor, e após essas duas correções que o senhor sugere, como se poderia chegar a um conceito complexo de identidade e no que ele implica em termos de uma ponte com o conceito de complexidade, Teoria da Evolução, Caos e Sistemas?
Carlos Roberto Cirne Lima – No meu último livro, Depois de Hegel, toda a parte final trata sobre a Teoria de Sistemas, Evolução e Complexidade. A partir do sistema de Hegel, com as duas correções que indiquei, além de mais uma que outra modificação, eu desemboco na Teoria da Evolução e de Sistemas, que é a Teoria da Complexidade. Isso, em Hegel, vem do conceito de identidade, pois ela mesma é complexa. Então, x = x vale apenas para um lógico. Quando Hegel diz que x é idêntico a x, ele não está dizendo apenas que x = x. É por isso que no meu livro está escrito que na fórmula x = x há identidade dialética de x e de x. A lógica implica nisso. A identidade dialética é diferente do x = x, pois ela contém a oposição. Na identidade simples, o pai é o pai, e tu podes esquecer completamente o filho. Na identidade dialética se está falando sempre do pai e do filho ao mesmo tempo, portanto da filiação. Nessa identidade, existem sempre dois pólos que numa primeira etapa são separados e se opõem, e numa segunda etapa se unem, se conciliam, formando a síntese.

Identidade dialética
A identidade lógica é vazia de conteúdo, enquanto que a identidade dialética tem, dentro de si, uma oposição. Na vida real, nem eu nem você podemos dizer que somos x = x. Somos xt1, xt2, xt3, porque o tempo está passado. Agora estou sentado, depois estarei de pé. Cada vez que há um movimento, tu já não és mais apenas o x. Então tu tens que fazer uma teoria (algo que ninguém consegue fazer direito), da identidade do x sentado, do x de pé, do x neste momento, do x em outro lugar, porque em lógica contemporânea o x significa apenas aquele exato momento naquela configuração. Já a identidade dialética inclui o que eu sou e o que eu quero ser, aquilo que fui no passado. As pessoas são uma identidade dialética: elas estão no tempo e têm passado, presente e futuro. Esse é o mundo no qual vivemos realmente. A identidade lógica só vale para a matemática; não vale nem mesmo para a física, na qual já temos uma transição para a identidade dialética. A vida é um sistema dinâmico em funcionamento. Essa é a conclusão a que chego no final desse meu livro. Isso não é mais Hegel, mas uma continuação do sistema hegeliano.

IHU On-Line – O senhor poderia nos dar mais detalhes sobre a acusação de necessitarismo que o sistema de Hegel sofreu e os entraves que, a partir disso, se colocam em relação ética e à liberdade?
Carlos Roberto Cirne Lima – Se dissermos que o sistema de Hegel é necessitário, por conseqüência não há ética e nem liberdade. O necessitarismo não dá chances de escolher entre alternativas. É preciso seguir o caminho “necessário”. Marx tem uma frase que expressa isso muito bem, falando que, quando alguém entra no rio da história, não se deve tentar nadar contra a correnteza porque não adianta nada. O certo é entrar no rio e se deixar levar pela correnteza. Essa correnteza do rio é a necessidade, o necessitarismo do sistema de Marx e que se encontra pré-figurado em Hegel, pois embora tenha alguns textos contra, grosso modo, tende mais para o necessitarismo do que para uma teoria libertária.

IHU On-Line – Em uma entrevista que o senhor nos concedeu, especificamente no número 166 da IHU On-Line, o senhor diz que o panenteísmo  “nos levará a uma compreensão da unidade do Universo”, aproximando diferentes religiões. Em que medida o conceito de Absoluto hegeliano apóia essa perspectiva?
Carlos Roberto Cirne Lima – O conceito de Absoluto apóia completamente essa teoria, algo que estou formulando com palavras um pouco diferentes. O sistema hegeliano é panenteísta, não há a menor dúvida. E quando um sistema é panenteísta, há mais facilidade de diálogo com outras religiões. Vamos tomar o exemplo do maior teólogo católico do século XXI, Karl Rahner. Agora vamos pensar sobre o índio brasileiro, que nunca teve contato com os brancos e que levou uma vida muito decente, muito boa, mas nunca batizou-se ou ouviu falar de Jesus Cristo. Se esse índio morre, ele vai para o céu? Para Rahner, sim. Esse é o cristão anônimo, teoria que ele formulou e levou ao Concílio Vaticano II . Lá Rahner foi derrotado com essa idéia. Se expandirmos essa teoria, teremos, então, uma teoria ecumênica. O problema é que tanto islâmicos quanto protestantes estão caminhando a passos largos para um extremismo religioso. No Islamismo isso fica bem claro através de todas essas guerras que vemos hoje. A forma como os islâmicos tratam a mulher, o uso da burka, a introdução da lei duríssima da Charia essa tendência para o rigorismo é totalmente contra o espírito ecumênico. Uma teoria panenteísta, que há meio século teria efeitos melhores, hoje esbarra no fanatismo religioso, que não é só de uma religião, mas de várias: judeus ortodoxos, árabes e até os protestantes americanos. A Guerra do Iraque tem uma base religiosa protestante. O fanatismo religioso é o maior inimigo de uma posição ecumênica em todos os credos, inclusive no católico.

IHU On-Line – Quais foram as maiores dificuldades no projeto que o senhor e seu colega Carlos Soares , da UCS, tiveram ao formalizar a Ciência da lógica de Hegel? Como foi a recepção desse estudo pela academia?
Carlos Roberto Cirne Lima – Hegel dizia que sua filosofia não poderia ser formalizada. Só que ele estava falando da lógica do seu tempo. Entretanto, os seus argumentos atingem as lógicas contemporâneas. Assim, o Soares, que é o melhor lógico do Rio Grande do Sul, a meu convite, se debruçou sobre o assunto e tentamos fazer a exposição da primeira parte da Lógica de Hegel em lógica simbólica. O que causa estranhamento é que nenhum lógico lê nosso trabalho porque ele trata de Hegel, e nenhum hegeliano o lê porque é lógica. Então, nós fizemos algo que foi publicado numa revista de circulação ampla e não recebemos nenhuma única manifestação, quer positiva ou negativa. Em seguida, publiquei Depois de Hegel, e nele, após cada capítulo, faço uma formalização. No trabalho sobre a Ciência da lógica, fizemos a primeira parte. Agora fiz as três partes numa lógica mais simples, acessível, que todos aprendem no primeiro ou segundo semestre da Filosofia. Do ponto de vista lógico, esse trabalho é muito menos “bonito”, “perfeito”, mas em compensação, mais fácil de ler para um lógico. O texto de Depois de Hegel está muito claro, fácil de ler. Espero, num futuro próximo, que haja uma reação maior do que aquela que tivemos quando da formalização da Ciência da lógica através dos dois artigos .

IHU On-Line – E por que o senhor deu ao seu livro o nome de Depois de Hegel?
Carlos Roberto Cirne Lima – Coloquei esse nome porque se eu colocasse apenas Hegel, as pessoas perguntariam com que direito eu estou corrigindo Hegel. O livro não tem a intenção de expor o filósofo ao pé da letra, não sendo uma obra de história da Filosofia. Corrijo Hegel, mudo palavras dele, e assim a obra está baseada no pensador. Não é um livro de um comentador de Hegel. É um livro de alguém que estudou Hegel e que está escrevendo sobre ele. A culpa e a responsabilidade pelos erros e acertos são minhas. O leitor atento perceberá que nesse estudo me alicercei em erros e acertos de Hegel.

IHU On-Line – Antecipando o tema que o IHU tratará no Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma Sociedade de indivíduos?, como o senhor conectaria o “dever-ser” de Hegel com a busca e construção da autonomia do sujeito contemporâneo?
Carlos Roberto Cirne Lima – O problema da autonomia é que o eu no sentido singular é algo que não existe. Essa é uma idéia de Hegel e que vem desde Platão, passando pelos neoplatônicos como Plotino , Nicolaus Cusanus , chega a Schelling e Hegel e que eu abraço totalmente. Eu não sou apenas um eu singular. Sou nós dois que estamos conversando. Sou nós que estamos lendo esse trabalho. Sou nós que somos Unisinos. Sou nós que somos gaúchos, brasileiros, humanidade, Terra, Universo. Então o eu singular é, ao mesmo tempo, o eu universal. É por isso que eu tenho obrigações com o outro eu, que está próximo de mim, e também com o eu que está bem longe, no outro lado do planeta. Tenho obrigações com a natureza, com a ecologia. O meu eu atinge o universo inteiro. O eu verdadeiro só é verdadeiro quando é universal, o que eu chamo de autonomia, pois é o universo que dá as leis a si mesmo. E eu, enquanto universo, dou as leis a mim mesmo. Bem concretamente, se eu tomar a decisão de fazer algo, essa é uma atitude singular. Em termos estaduais, federais, por exemplo, é correto dizer que eu perdi a minha autonomia porque foram os deputados que fizeram as leis, e não eu? Não. Sou eu que estou simbolicamente na Assembléia fazendo as leis. E se eu não obedeço a alguém “estranho”, estou desobedecendo a mim mesmo. Quando eu obedeço à lei brasileira, obedeço àquele Congresso Nacional, não o singular que existe e que está cheio de ladrões, mas àquele Congresso que representa o meu eu ampliado. É por isso que, quando obedeço à lei brasileira, estou obedecendo algo que eu mesmo fiz. Isso mostra que o eu pode e deve ser expandido de tal maneira que ele abarque não só o município, estado, ou país, mas o universo inteiro. Esse é o sentido da autonomia.

IHU On-Line – Então seria correto afirmar que o conceito de autonomia hegeliano se apóia em Kant e, por isso, o indivíduo como um “nó no sistema do mundo” é aquele que age obedecendo como um eu expandido, categoricamente?
Carlos Roberto Cirne Lima – A diferença sobre a autonomia em Kant e em Hegel é que, para Kant, a autonomia diz respeito apenas ao homem, a quem ele chama de eu transcendental. Mas o eu transcendental de Kant abarca apenas os homens. Nesse sentido, uma ética kantiana é incapaz de fundamentar a ecologia. Então, de acordo com a autonomia de Kant eu posso destruir as florestas, exceto se vou prejudicar outro homem. No conceito de autonomia que eu estou defendendo, mesmo que eu não estivesse prejudicando o outro homem, a floresta tem a sua base moral, e não posso matar animais sem motivo, por exemplo. Não posso destruir uma floresta sem motivo. Posso, sim, comer um animal porque estou um elo acima na cadeia alimentar. Como a autonomia que defendo abrange o homem que se estende pela natureza e abarca o universo inteiro, esta é uma autonomia mais ampla. Kant é parecido com Hegel, porém mais estreito.

IHU On-Line – E o que a filosofia pós-moderna, de característica anti-sistema, pode aprender com Hegel? O senhor ainda acha que a Filosofia agoniza por conta dessa falta de sistema? Esse cenário continua e tende a continuar? Por quê?
Carlos Roberto Cirne Lima – Penso que o problema continua e tende a continuar. A partir da virada do século XIX para o XX, fomos destruindo a razão: prova disso são Nietzsche, Heidegger  e outros pensadores. Não há praticamente ninguém no horizonte da Filosofia que esteja tentando fazer uma visão globalizada do mundo, uma ciência universalíssima, nome usado antigamente. Os filósofos nos departamentos de Filosofia estão todos fazendo história da Filosofia, ou da Ciência. E quem está fazendo filosofia, na minha opinião, é um que outro físico e biólogo, que tem uma visão de conjunto. Acho que alguns físicos contemporâneos são muito mais filósofos do que os professores de Filosofia. Dou um exemplo: a Unisinos publicou o livro A vida no cosmos (São Leopoldo: Unisinos, 2004), do físico americano Lee Smolin. Acredito que Smolin é mais filósofo do que a maioria dos professores de Filosofia que andam pelo mundo. Por quê? Porque ele tem uma visão do mundo e quer procurar uma teoria do mundo. Essa é a idéia da Filosofia, e os filósofos a abandonaram. Não vejo nenhum filósofo dedicando-se a isso em país nenhum. Uma visão global está sendo dada fajutamente por psicanalistas e, de uma forma muito boa, por cientistas como Lee Smolin e alguns teóricos do sistema.

Como Capra, por exemplo?
Bem, cheguei a conhecer o Capra  pessoalmente. Gostamos bastante um do outro. Acho que o grande livro dele é Teia da vida (São Paulo: Cultrix, 1997), uma obra na qual ele tem uma visão global. Os outros livros dele eu não recomendo porque ele tenta uma visão global e não a atinge. A Teia da vida, contudo, é um livro que traria orgulho para um filósofo.

Qual é a importância da Fenomenologia e como o senhor percebe essa obra em relação às demais na Filosofia?
A Fenomenologia é um dos mais importantes livros da história da Filosofia. Penso, ainda, que há poucas obras para colocar em patamar de igualdade com ela. É um livro difícil de ler, mas de uma grandiosidade, de uma amplidão, de uma visão do mundo tão ampla e sábia que, dificilmente, alguém conseguirá escrever algo parecido. Há, entretanto, um erro no capítulo final, e correções precisam ser feitas. Isso porque esse capítulo desemboca em algo que pode ser interpretado de modo totalitário. Se tu me perguntasses qual é o capítulo mais belo, eu mencionaria a Vorrede (prefácio), pela sua concisão e pelo panorama que Hegel dá de cima dessa “montanha”.