Poema de ano novo

Por Vinicius de Moraes *

viniciusÉ preciso que nos encontremos diante do amor como as árvores fêmeas cuja raiz é a mesma e se perde na terra profana
É preciso… a tristeza está no fundo de todos os sentimentos como a lágrima no fundo de todos os olhos
Sejamos graves e prodigiosos, ó minha amada, e sejamos também irmãos e amigos.
É preciso que levemos diante de nós o retrato das nossas almas como se fôssemos a um tempo a Verônica e o Crucificado
Eu sou o eterno homem e hoje que a dor fecunda o tempo eu sinto mais que nunca a vontade de fechar os braços sobre a minha miséria.
Fiquemos como duas crianças pensativas sentadas numa escada – todos serão os peregrinos e apenas nós os contemplados.

* Poeta, diplomata, compositor, jornalista e dramaturgo.

Organiza o Natal

Por Carlos Drummond de Andrade *

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Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagui ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semiarmadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

* Poeta , contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Drummond foi um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro.

** Texto extraído do livro Cadeira de balanço

Apresentação do primeiro volume da segunda edição da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

Por Ivete Keil *

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A Escritos e o autor Cristiano Refosco decidiram apresentar, em três volumes, a segunda edição da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo.  O primeiro volume, que agora está sendo publicado, elenca quatro contos revisados pelo autor e trazem novas ilustrações.

Os contos de fadas apresentam-se como recurso pedagógico privilegiado. São eles extremamente importantes para o desenvolvimento psicosocial da criança. Por um lado, porque conduzem a um mundo mágico deixando fluir livremente a imaginação criadora e, por outro, porque respondem, realista ou simbolicamente, à curiosidade sobre questões da existência humana. Eles ativam o pensamento da criança e o pensamento ativa a sua existência.

Os contos de fadas tratam das aventuras, dos perigos, dos abandonos, dos desafios, dos dilemas, das misteriosas surpresas do estranho os quais o herói precisa enfrentar para que ele possa encontrar os elementos produtores de sentido da vida e, assim, encontrar um lugar no mundo. Ou seja, falam eles, através do mágico, de temas reais, de vivências concretas. Com eles, a criança se defronta com dilemas existenciais, compreende sua própria essência e se fortalece.

Além disso, a Coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo traz à cena pedagógica o tema da deficiência. Todas as crianças, com deficiências ou não, podem reforçar os seus recursos psíquicos pela imaginação e pela fantasia mediados pela problemática apresentada na releitura dos contos.

Para as crianças com deficiências trata-se de aprender a enfrentar e aceitar sua condição no sentido da autovalorização. Para as crianças sem deficiência trata-se de compreender os problemas que os indivíduos com deficiência enfrentam tendo em vista a gramática social brasileira profundamente segregadora e excludente. Trata-se, portanto, de um trabalho no qual se ancoram lutas por cidadania e generalização de direitos.

*Antropóloga

No primeiro dia do ano e no terceiro

Por Sei Shônagon *

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No primeiro dia do ano e no terceiro do terceiro mês, é bom que o céu esteja limpo.

O quinto dia do quinto mês, prefiro que permaneça coberto.

Já o sétimo dia do sétimo mês deve permanecer também nublado, mas que o céu se desanuvie ao cair da noite. Que a lua brilhe e sejam visíveis as constelações.

No nono dia do nono mês, convém haver chuva fina desde o amanhecer, para que os crisântemos se tornem bem molhados de orvalho e as bolsinhas de seda, com que foram cobertos na noite anterior, impregnem-se com o cheiro das flores.

Por vezes, acontece de a chuva estancar cedo, ainda de manhã, mas durante o resto do dia o céu permanece coberto de nuvens e parece que vai chover a qualquer momento. Também gosto quando é assim.

* Autora do Livro de travesseiro, escrito no Japão do século XI.