O truque

Por Gonçalo Tavares*

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O senhor Valéry vestia sempre de negro. Ele explicava:

– Ao verem-me de preto julgam-me de luto e, por compaixão, não me enviam mais sofrimento.

E dizia ainda:

– Não se pode sofrer o dobro de muito. É essa. Aliás, a única razão porque consigo ser feliz, em certos dias: o meu terno de luto engana-os. E é sempre boa a sensação de enganar os mais fortes – acrescentava, orgulhosos, o senhor Valéry, nunca se sabendo propriamente a quem se referia. O senhor Valéry, porém, insistia:

– É como uma reação química.

E desenhou

– Se de um lado se encontra tudo escuro e do outro claro, a tendência é para o lado escuro oferecer ao lado claro, e o lado claro oferecer claridade ao lado escuro. Passado algum tempo encontra-se o equilíbrio.

(E nessa altura o senhor Valéry fez outro desenho)

– O meu truque – dizia o senhor Valéry, enquanto distraído pelos raciocínios, vestia um terno branco – o meu truque – dizia ele – é andar sempre vestido de luto. Para atrair alegria.

* Escritor e professor universitário português. Publicou várias obras recebendo prêmios importantes. Com o livro O Senhor Valéry (publicado em Portugal pela Editora Caminho e no Brasil pela Escritos Editora) recebeu o Prêmio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com Investigações. Suas obras têm dado origem a peças de teatro, vídeos de arte, óperas.

** O truque foi retirado do livro O Senhor Valéry, publicado pela Escritos.

O contrato

Por Gonçalo Tavares*

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O senhor Henri disse: os meus pais não me adormeciam com histórias infantis.

… os meus pais me adormeciam a ler contratos de arrendamentos e outros.

… o meu pai trabalhava num notário que tinha um notário e três homens que ninguém notava.

… o meu pai era um deles.

… o meu pai não tempo para estar comigo e não tinha tempo para reler os contratos que era obrigado a redigir.

… o meu pai aproveitava os momentos antes de eu dormir para me ler alto os contratos e assim verificar os erros, e eu cresci a pensar que as histórias infantis tinham sempre dois lados, o lado da direita e o lado da esquerda, dois outorgantes, e que um só dava uma coisa em troca de outra.

… só mais tarde percebi que isto acontecia mesmo na vida real – o dá e recebe – e só nos livros infantis é que se dava algo sem querer receber nada em troca.

… antes de morrer o meu pai chamou-me e disse: nunca faças nada sem antes celebrares um contrato.

… foram as suas últimas palavras. Era um homem sensato.

… mais um copo de absinto!, excelentíssimo 20  outorgante aqui presente.

… muito obrigado.

* Escritor e professor universitário português. Publicou várias obras recebendo prêmios importantes. Com o livro O Senhor Valéry (publicado em Portugal pela Editora Caminho e no Brasil pela Escritos Editora) recebeu o Prêmio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com Investigações. Suas obras têm dado origem a peças de teatro, vídeos de arte, óperas.

** O contrato foi retirado do livro O Senhor Henri, publicado pela Escritos.

Algumas dicas para pais e cuidadores para utilização dos contos da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

Por Cristiano Refosco *

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A coleção “Era uma vez um conto de fadas inclusivo” é uma ferramenta que pode ser utilizada para aproximar o universo infantil do universo das diferenças tanto em casa, como na sala de aula. Pensando nisso, neste post elaboramos algumas dicas para pais e cuidadores de como usar a coleção.

Dicas para os pais:

– abordar as histórias com naturalidade;

– aproveitar os contos inclusivos para falar sobre temas como respeito às diferenças, acessibilidade e inclusão com as crianças;

– no final do livro existe uma espécie de glossário, onde são mostradas as nomenclaturas utilizadas atualmente para se referir às pessoas com deficiência. Termos como “portador de deficiência”, “deficiente”, “pessoa normal” e “criança especial” não são mais utilizados;

– os personagens não são mostrados nem como coitadinhos e nem como super-heróis. São apenas personagens com deficiências que vão viver as suas histórias com algum tipo de limitação. O mesmo acontece na vida real.

fonte: http://www.centauroalado.blogspot.com.br/

* Autor da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

Algumas dicas para professores para utilização dos contos da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

Por Cristiano Refosco *

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A coleção “Era uma vez um conto de fadas inclusivo” é uma ferramenta que pode ser utilizada para aproximar o universo infantil do universo das diferenças tanto em casa, como na sala de aula. Pensando nisso, neste post elaboramos algumas dicas para professores de como usar a coleção.

Dicas para os professores:

– associar as histórias dos livros com situações do dia a dia; mostrando que pessoas com deficiência existem em todos os locais e que têm os mesmos direitos do que as pessoas sem deficiência;

– propor para as crianças experiências práticas em relação aos livros, como por exemplo, atividades que busquem identificar se a sua escola e bairro têm acessibilidade;

– além da aproximação entre o universo infantil e o universo das diferenças, a temática dos contos inclusivos pode ser utilizada para explorar o uso de outros sentidos do aluno: em algumas turmas de sala de aula, os professores vendam os olhos das crianças após a leitura de Branca Cega de Neve para propiciar o uso do olfato e do tato, por exemplo.

– alguns dos personagens carregam nos seus nomes as deficiências que possuem, como o João sem braços, por exemplo. É importante os professores observarem que estamos falando de nomes de personagens, assim como o Capitão Gancho, a Mula sem cabeça ou a menina do nariz arrebitado, e que em momento algum isso constitui um estímulo para que os alunos se apontem pelas suas diferenças. A ideia é valorizar a deficiência enquanto característica e não como demérito.

Fonte: http://www.centauroalado.blogspot.com.br/

* Autor da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

 

Entre a melancolia e o amor desinteressado

Por Álvaro Valls*

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No século XIX viveu no Brasil um importante cientista dinamarquês, o DR. Peter W. Lund, que, tendo vindo curar-se de uma tuberculose num clima melhor que o de sua pátria, pesquisou durante mais de 50 anos a flora, a fauna e as cavernas de Minas Gerais. Dr. Lund encantou-se com o Brasil e, numa visita a Copenhague, no final dos anos 20, manteve uma longa conversa com um jovem de 16 anos, – decisiva para a opção vocacional deste irmão de duas cunhadas suas. Seis anos mais tarde, em 1835, o jovem, Søren Aabye Kierkegaard, ainda entusiasmado com as descrições do naturalista, redige uma carta na qual registra suas emoções, suas dúvidas e sua decisão final, que cumprirá pelos vinte anos que ainda há de viver. Embora reconhecendo a maravilha que é dedicar-se às ciências da natureza, confessa que o mais importante para ele é a vida segundo a razão e a liberdade, e acrescenta: “o meu maior desejo sempre foi esclarecer e solucionar o enigma da vida”. Voltar-se-á, portanto, como conclui, às ciências do sentido (da vida). Estudará teologia, será filósofo e escritor. Ao longo dos anos 30, segue ainda sem pressa os cursos de filosofia e teologia na Universidade de Copenhague, familiarizando-se com Platão (em grego, dinamarquês e nas traduções de Schleiermacher), fazendo de Sócrates o seu herói intelectual, visualizado nas polêmicas contra os sofistas, que ele suspeita não terem ainda desaparecido do mundo, e redige sua dissertação de 1841, sobre O CONCEITO DE IRONIA CONSTANTEMENTE REFERIDO Ã SÓCRATES.

Nos anos 40 do século XIX, em seu capital, Søren Kierkegaard faz sucesso com escritos românticos, melancólicos, desesperados, como O DIÁRIO DO SEDUTOR e os DIAPSALMATA, de A ALTERNATIVA I, E OS ESTÁDIOS NO CAMINHO DA VIDA, com seus escritos de polêmica filosófica, como o POST-SCRIPTUM FINAL NÃO-CIENTÍFICO ÀS MIGALHAS FILOSÓFICAS (que critica os sonhos românticos e especulação do “sistema” como duas formas de fuga da realidade e da seriedade da existência) e, finalmente, com alguns livros de difícil classificação, talvez “demasiado edificantes”, tais como O CONCEITO ANGÚSTIA, A DOENÇA PARA A MORTE e a ESCOLA DE CRISTIANISMO.

Nos anos 50, após um período de silencia, em que escreve milhares de páginas nos PAPIRER, conhecidos como DIÁRIOS, Kierkegaard inicia uma agitação cultural e religiosa, polemizando nos jornais e nas ruas contra a “cristandade’, multidão despersonalizada, sem vida interior, onde todos são cristãos desde o oitavo dia de vida, por razoes geográficas, não por opção consciente, e onde ninguém aprofunda o que significa tornar-se e ser de verdade “cristão”, pois todos pensam que estão definitivamente salvos por Cristo, podendo manter tranquilamente uma vida burguesa em busca do dinheiro e dos prazeres do mundo, mas esquecem que O Modelo tem de ser seguido e imitado, e que A Verdade foi crucificada, depois de cuspida, humilhada, açoitada, ridicularizada pelos estrangeiros e pelos conterrâneos. Polemista, recorda outra versão do “vox populi vox Dei”, o povo gritando: “Crucifica-o”.

Em 1850, enquanto preparava essa “catástrofe”, anota nos PAPIRER, sob o título “Wilhelm Lund”.

“Acudiu-me hoje à lembrança a identidade íntima que minha vida tem com a sua. Assim como ele vive lá no Brasil, perdido para o mundo, mergulhado nas escavações dos extratos antediluvianos, assim vivo eu, como que fora do mundo, a pesquisar os conceitos cristãos, na cristandade, onde o Cristianismo está em plena floração, exuberante com seus mil pastores, e onde todos são cristãos.

Ora, Dr. Lund vivia de fato “perdido para o mundo” e nunca divulgou, em nossa terra, nada do trabalho de “exumação” dos conceitos soterrados pelo esquecimento e pela de reflexão, que seu contraparente desenvolvia com capacidade dialética e um conhecimento da psicologia humana só comparável com os de Dostoiévski e Nietzsche. Assim, no Brasil, os pensamentos e os escritos de Søren Kierkegaard acompanharam seu destino nos outros países: ficaram ignorados por mais de cinquenta anos. Pois este pensador teve a ousadia de escrever dezenas de volumes sempre e apenas em dinamarquês, sua língua materna!

Os alemães, boas cabeças para as reflexões dialéticas e para as meditações religiosas, o descobriram primeiro: menos de quarente anos após sua morte, começaram a traduzi-lo, especialmente nas obras de polemista e “escritor religiosos”. Heidegger dirá que ele foi “o único (escritor religiosos”) à altura do destino de sua época”, ou seja, a época das reflexões críticas de Feuerbach, Schopenhauer, Hegel, Bauer e Strauss, e de Nietzsche, Comte ou Dostoiévski. Também seus DISCURSOS EDIFICANTES, que não são sermões, mas filosofia, e da boa (como Heidegger o percebeu), foram divulgados e estudados em alemão, influenciando Jaspers, Heidegger, Adorno, Barth, Marx Frisch e Kafka.

Os franceses descobriram o Kierkegaard “sedutor”, seu lado literário e poético, antes de perceberem seu conteúdo dialético, filosófico e religiosos, teológico-cristão. Assim surgiu nos países latinos a imagem do “pai do Esclarecimento”, o qual parece nada mais ter feito do que se escabelar em páginas passionais e angustiadas, desesperadas, cheias de dúvidas, contradições, paradoxos e absurdos (alguns dos quais, aliás, de inteira responsabilidade dos tradutores). Sua trilogia, melancolia, angústia e desespero, acabará arrematada pelo conceito sartreano da náusea. Esta Kierkegaard serviu para os que se sentiam oprimidos pelo pensamento do sistema (o de Hegel, o de Marx, ou mesmo dos positivistas-lógicos). Só recentemente os franceses conseguiram relacionar o “sedutor” kierkegaardiano (Don Juan intelectual0 com o “sedutor da juventude” ateniense, Sócrates. Apesar dos méritos dos pioneiros P. Mesnard e J. Wahl, só há três décadas, com a ajuda das investigações de G. Malantschuk, P.H. Tisseau e H. B. Vergote, descobriram que ele emprega três protótipos do homem perdido: D. Juan (sensibilidade-sensualidade), Fausto (inteligência-dúvida) e Aasverus, o Judeu Errante vontade/ausência de ponto de referência). E que há ainda um protótipo do “ser-verdadeiro” do homem, resumido na antropologia de João 19,5 (“Eis o Homem”), mas muito bem ocultado pela escrita estratégica e irônica deste Sócrates dinamarquês.

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Na Europa atual, como também na América do Norte, os melhores pesquisadores procuram desvelar a estrutura de sua obra como uma totalidade, lendo a lógica de seu jogo de pseudônimos, de seus múltiplos falantes, deixando, de certo modo, muitos discursos “em suspenso”, como que solicitando a interpretação do leitor, para que este escolha e se identifique com o que melhor o convence. Tal como Sócrates, Kierkegaard fala de muitos assuntos, para assim poder melhor calar: faz silêncio falando, escreve para abrir um silêncio diante de nós. Seus discursos, mesmo quando afirmativo, vale como uma interrogação que busca mexer com o leitor: “de te narratur fabula”, gosta de repetir.

No Brasil, os estudos da obra de Kierkegaard foi historicamente muito prejudicado. Surgiram, em português, no século XX, umas poucas traduções isoladas: O DIÁRIO DE UM SEDUTOR nos idos de 1911, O DESESPERO HUMANA em 1936, duas traduções (uma portuguesa e outra brasileira) de O CONCEITO DE ANGÚSTIA, ambas obscurecendo bastante o texto original e, por fim, entre os demais textos de razoável divulgação, TEMOR E TREMOR. Este último, sobre o sacrifício de Isaac por Abraão, que, ao se dispor a este ato incompreensível, se tornou o “pai da fé”, fez certa fortuna entre nós, dando, porém, a impressão de que Kierkegaard se opõe de maneira irracional a Kant e a Hegel, defendendo sem mais uma fé absurda. Tais leituras em nosso idioma não permitiram uma visão, ousemos dizer, mais lógica, racional, dialética e até mais “sistemática” da obra de Kierkegaard. Quem, por exemplo, se perguntou entre nós se o autor de TEMOR E TREMOR, Johannes de Silentio, um dos pseudônimos de Kierkegaard, é ou não o próprio Kierkegaard, e se é cristão ou se, ao menos, tem fé que tanto canta e elogia? Quem se deu conta de que ele declara ser apenas “o poeta dos religiosos”, preocupado com o fato de que outras paixões, como a do amor, tiveram seu poeta, enquanto que a fé, maior de todas as paixões, ainda não foi cantada? Quem percebeu, nas traduções de O CONCEITO DE ANGÚSTIA, que o livro todo, do pseudônimo Vigilius Haufniensis (“o vigilante de Copenhague”), num estilo docente, direto até, trata todo o tempo, em perspectiva transcendental, da questão da liberdade humana, na esteira das reflexões do Schelling de 1809, procurando complementar aí indicações de seu mestre e querido amigo, então já falecido, o poeta e professor de moral Poul Martin Møller, a quem, aliás, está dedicado o livro? Quem conseguiu esquivar-se das armadilhas das traduções do tratado sobre O DESESPERO HUMAN0 (isto é, DOENÇA PARA A MORTE) a ponto de descobrir, por trás do discurso sobre o desespero, doença tão universal, a fórmula, sugerida de maneira abstrata e algébrica, do “estado em que o desespero está totalmente extinto”, fórmula da fé cristã, disfarçada em linguagem filosófica, com terminologia tornada de Fitche, Schelling e Hegel?

“Eis a fórmula que descreve o estado do eu, quando deste se extirpa completamente o desespero: orientando-se para si próprio, querendo ser ele próprio, o eu mergulha, através de sua transparência, até ao poder que o criou”.

A mais completa apresentação de Kierkegaard no Brasil é a tradução, por Ernani Reichmann, dos TEXTOS SELECIONADOS, publicada em Curitiba nos anos 70 e há bastante tempo esgotada. Reichmann teve o mérito de conhecer a obra toda do dinamarquês, de poder lê-la na língua em que foi escrita, de conhecer os principais comentadores e de fornecer, com sua seleção, um panorama quase perfeito da obra do escritor religioso, filósofo e polemista. Só ele traduziu para o português trechos dos PAPIRER, bem como da polemica de O INSTANTE, além de alguns dos mais belos e profundos capítulos da espiritualidade kierkegaardiana. Ficou devendo, apenas, em sua seleção de textos, O CONCEITO DE IRONIA e os DISCURSOS EDIFICANTES.

O panorama foi enriquecido recentemente, graças às Edições 70, pela tradução (a partir da versão francesa de Tisseau) do PONTO DE VISTA EXPLICATIVO DE MINHA OBRA COMO ESCRITOR, auto-interpretação póstuma, que merece ser estudada. No mesmo volume, esconde-se a tradução dos DOIS PEQUENOS TRATADOS ÉTICO-RELIGIOSOS, UM HOMEM TEM O DIREITO DE SE DEIXAR CONDENAR À MORTE PELA VERDADE? E SOBRE A DIFERENÇA ENTRE UM GÊNIO E UM APÓSTOLO. Com tais textos, e partindo de Reichmann, já nos é possível escapar às interpretações (?) estereotipadas que reduzem Kierkegaard ao “pai do existencialismo”, ao angustiado e melancólico pensador do absurdo, ao ex-noivo amalucado que teria acabado por jogar suas frustrações contra a Igreja, – a qual defendera por vários anos depois de uma suposta “conversão”, – ao indivíduo que, incapaz de pensamento racional, vira louco furioso em ataques que confundem os amigos com os inimigos, pois sugerem que os cristãos leiam Feuerbach, receita Schopenhauer como antídoto a um certo cristianismo otimista e decerto só não cita Nietzsche porque este ainda era uma criança em 1855.

Já é possível, no Brasil, ao menos iniciar uma leitura de Kierkegaard. E Vergote aconselha que se comece pela Dissertação sobre a ironia. Ali se encontra, inteiro, seu “método” socrático, sua maiêutica, pois, afinal, Kierkegaard está convencido de que não tem propriamente uma doutrina nova ou uma teoria recém-inventada para ensinar. Recusa-se à “comunicação magistral”. Pessoas com indigestão, diz ele, precisam de um vomitório, e não de mais comida, nova e abundante. Tarefa socrática: provocar, interrogar, refutar, conversar com todo o mundo, nas revistas, na literatura, nos jornais, nos bares e nas calçadas das ruas de sua cidade, na Universidade de Berlim, nos teatros ou nas tabernas de Copenhague. Afinal, precisamos de um novo Messias, ou de um “auxiliar” que ajude a reler os textos antigos, talvez de maneira mais pessoal, mais profunda e interiorizada? No contexto histórico de Kierkegaard, da cristandade dos mil pastores assalariados, a maneira que encontrou para ajudar neste parto foi dizer, não como Sócrates, um “sei que nada sei”, porém adaptado às circunstâncias: “digo e tenho que dizer que não sou cristão”. – Qual seria a reação adequada a tais palavras? Preocuparmo-nos com o destino de sua alma (que só a Deus pertence), ou concluirmos que Deus não existe e que a preocupação com o cristianismo foi tempo perdido? Ou, quem sabe, aplicarmos a nós mesmos a máxima: de te narratur fabula, perguntando-nos se nós temos sido cristãos de verdade, e se a nossa maneira de sermos homens tem ainda algo a ver com o ecce homo de Pilatos: se cultivamos semelhanças com O Modelo (que aceitou assumir nossa humanidade, na forma do “servo”, viver num pequeno país da periferia do Império, como trabalhador, pobre e injustiçado, sofrer perseguições, sempre a mostrar como um homem de verdade se relaciona com o seu Deus e Pai, e que foi testemunha da verdade não só por palavras, mas pelo exemplo e pelo sangue)? A ironia socrática ajuda-nos a desviar um pouco a atenção do conteúdo para melhor perceber o sentido daquilo que é dito – e muito influi o modo como algo é dito. Entre Sócrates e Cristo, Kierkegaard também se esforça por falar no silêncio, procurando aquele leitor sério “de quem é possível fazer-se compreender à distância”.

Todavia, se já conseguimos visualizar Kierkegaard entre Sócrates e Cristo, uma outra maneira de descobrir o sentido e a abrangência de sua obra buscaria situá-la entre uma melancolia radical (também caracterizada como desespero silencioso), e um amor muito puro, que nem busca o que é seu, amor abnegado, apaixonado – mas não egoísta. Não se trata propriamente de escolher uma das duas realidades, mas de perceber como uma delas é cura ou solução para a outra, quando as coisas são apresentadas com a seriedade de um médico à cabeceira de um enfermo. Eis então aqui o que buscamos fazer com o presente volume, colocando à disposição dos leitores de nossa língua materna passagens significativas, de especial valor literário, de três das obras de Kierkegaard até agora inacessíveis a quem só gosta de ler em português.

Em primeiro lugar, oferecemos uma amostra dos aforismos que abrem A ALTERNATIVA, ali intitulados DIAPSALMATA. Não são todos os noventa aforismos, mas devem bastar para que o leitor perceba o que pode encontrar nos textos estáticos de 1843. A seguir, extraímos da terceira parte dos ESTÁDIOS NO CAMINHO DA VIDA (de 1845), intitulada CULPADO? – NÃO CULPADO?, as seis “novelas” ali inseridas para criar a Stimmung ( ou seja, a atmosfera que transmite um estado de ânimo) adequada à história de uma Paixão. Constituem-se em textos literários de incrível acuidade psicológica, capazes de situar Kierkegaard ao menos no mesmo nível de Dotoiévski ou de Nietzsche. Finalmente, antecipamos a tradução dos dois últimos discursos da obra, recém-traduzida ao português, AS OBRAS DO AMOR, de 1847, livro de quatrocentas páginas, assinado pelo próprio Kierkegaard, e que traz como subtítulo “Considerações cristãs sob forma de discursos”. – Que o leitor julgue se com tais textos de Kierkegaard que apenas desabafar suas frustrações, ao ver a ex-noiva casando com outro, ou se aí se nivela com os mais profundos conhecedores da essência do Cristianismo (que quer ver vivida na prática, pois se elogiar o amor já pode ser uma obra de amor, o que interessa mesmo são os atos).

Assim selecionados e reunidos, os textos das três partes da presente coletânea revelam três momentos (de dois anos) da grande sinfonia que Kierkegaard escreveu nas obras assinadas ou pseudônimas. Mais do que a faceta ético-existencial, razoavelmente conhecida entre nós, estes textos podem transmitir-nos uma noção das facetas estética e religiosa do autor do antídoto eficaz para a melancolia que parece ser a doença dos tempos mais recentes, e que já por isso mesmo precisa ser levada totalmente a sério.

* Apresentação do livro Do desespero silencioso ao elogio do amor desinteressado, publicado pela Escritos.

** O autor possui graduação em Filosofia pela Faculdade de Filosofia N. Sra. Medianeira (1971), mestrado em Filosofia – Universitat Heidelberg (Ruprecht-Karls) (1977) e doutorado em Filosofia – Universitat Heidelberg (Ruprecht-Karls) (1981). Professor Adjunto 4 aposentado da UFRGS. Atualmente é professor titular 1 da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: Kierkegaard, socratismo, filosofia dinamarquesa, ética, Nietzsche e ironia. Traduziu vários livros de Kierkegaard do original dinamarquês, e de Adorno, do alemão.