Leia no parque, no café, na sala de espera, no ônibus, na lotação…

Por Escritos

escul Livros são companhia para todos os momentos, sobretudo na semana do dia mundial sem carro, são eles pacientes professores e acompanhantes de grandes viagens. Verdadeiros amigos. Lê-los amplia e qualifica a visão de mundo do leitor. Por essa razão a Escritos selecionou algumas obras para você ler em qualquer lugar. Confira:

Dialética (Carlos Cirne Lima)

Não se trata da reedição do já conhecido livro Dialética para principiantes, há revisões e alguns acréscimos, especialmente na segunda parte, na qual consta a obra Depois de Hegel. Na primeira parte do autor conduz o leitor pelos principais problemas filosóficos, com início na tradição que introduziu a Filosofia a partir da Dialética e a partir da Analítica. Na segunda parte, o filósofo afirma a compatibilidade entre lógica Analítica e a Dialética, traçando detalhadamente a sua reconstrução independente do sistema neoplatônico.

Filosofia cinza (Márcia Tiburi)

Dividido em duas partes que servem de espelho uma à outra, a obra busca a experiência do pensamento que se enfrenta com o próprio vazio e esboça a escrita como outro trabalho do conceito. A exposição da filosofia é a verdade das coisas não ditas ainda que ditas: a melancolia com que o livro sela suas cifras é, mais que um fundamento metafísico, a chave para a ação produtiva da cultura como reinvenção de laços entre seres humanos e natureza, entre o abismo do ser e o amor ao que existe. É a filosofia do corpo aparecendo para manchar o pensamento e repropor o trabalho negativo do conceito rumo à salvação do corpo e das imagens que o revelam.

Kai (Maria Tomaselli)

Kai não é apenas um livro de memórias, mas uma trama socioantropológica na qual jogam diferentes tempos e espaços, culturas e classes sociais, éticas e estéticas, que ora se estranham e ora se acolhem dentro de novas concepções de mundo – escancarando a experiência humana do ponto de vista de seu sentido ou significado. Esse mundo se oferece à experiência dos atores graças à capacidade do diálogo permanente mediado pela lógica sensorial e sentimental, em boa parte com alguns conflitos, inquietações e mudanças. A leitura do Kai comove, suas histórias se misturam às do leitor. Trata-se de um exercício de alteridade no qual se aprende o jeito de os outros serem. Aí reside outra dimensão de sua originalidade.

Livro do Travesseiro (Sei Shônagon)

Requintada e instigante obra clássica da literatura japonesa. A autora narra os costumes da corte, o cotidiano vivido, as cerimônias religiosas, os festivais, os códigos e as regras de sexualidade, os exuberantes quimonos com os quais se ornam os homens e as mulheres no Japão do século XI. A obra mostra a voluptuosidade como um dos traços significativos do espírito japonês, em uma época marcada pelo culto do belo, em razão das tendências hedonistas, que explicam a delicadeza levada ao extremo, e o excessivo refinamento que afetava a aristocracia.

Mateus e Mateusa (Qorpo Santo)

Qorpo Santo (pseudônimo literário de José Joaquim de Campos Leão) é precursor do surrealismo e do teatro do absurdo, antecipando Jarry e Ionesco. Nesta peça escrita em 12 de maio de 1866, o autor narra uma estranha história de amor com certo tom de tragédia entre um casal de velhos, levando o leitor ao cômico sentido das relações familiares. O canto dá à obra um tom lírico contrastando com o farsesco que caracteriza o conflito familiar vivido. A densa obra revela o olhar crítico e vanguardista do autor, mostrando situações inusitadas da realidade, muitas vezes sem soluções, convidando à ampla reflexão acerca das relações humanas.

Senhor Henri (Gonçalo Tavares)

Muitas vezes premiado e traduzido em várias línguas, Gonçalo Tavares oferta um novo paradigma da literatura. Neste livro o autor português traz, de modo criativo, humorado e sarcástico, pontos significativos da inquietação humana. O personagem do livro, o Sr. Henri, tem como teoria sobre o mundo – o absinto. É, também, o absinto o seu sistema de pensamento. Assim calcado na bebida esverdeada que toma em quantidades exageradas, ele transita em diferentes campos, ofertando ao leitor imagens cotidianas, óbvias, mas, por isso mesmo, imagens absolutamente impensadas.

Tempo e magia (José Alberto Baldissera e Thiago Bruinelli)

Muitos educadores ilustram as aulas de história com filmes. Este pode ser um guia poderoso para a preparação e análise de cada momento histórico através do cinema. Antiguidade é o primeiro livro desta quatrilogia, abrangendo o Antigo Egito, os povos hebreus, gregos e romanos. Contrapondo os tempos da filmagem com o retratado, os autores examinam as intenções e motivações das produções grandiosas, filmes que integram a lista dos grandes clássicos do cinema. Após introdução a cada época e filme os autores tomam algumas cenas devidamente identificadas como foco de análise. E ainda brindam os autores com notas curiosas sobre as filmagens.

Admissão ao ginásio

Por Carlos Urbim*

urbimQuem estava no quinto ano primário tinha que fazer o exame de admissão ao ginásio. Por volta dos 11 anos, os estudantes deixavam o grupo escolar e iam para um novo colégio, quase sempre maior. Antes, porém, o suplício das provas de Redação, Gramática, Matemática, Geografia e História, com duas notas cada: a da prova escrita e a oral. Os professores chamavam os alunos para, depois da parte escrita, sortear perguntas que deviam ser respondidas na hora. Que sufoco! Quem passou por isso está marcado pera o resto da vida.

Na redação, a gente descrevia uma gravura exposta na frente de todos os que queriam ser admitidos no ginásio. Na prova oral de Português, as perguntas eram sobre regras gramaticais. Morríamos de medo das questões sobre análise sintática e crase.

Quando a gente era aprovado, ultrapassando também o terror das perguntas escritas e orais de Matemática, acidentes geográficos e datas históricas, começava a deixar de ser criança. Havia tanta coisa para se fazer no ginásio que as brincadeiras na praça, os gibis e os álbuns de figurinhas foram ficando distantes de nós. E, com a invenção da cola plástica branca, nunca mais usamos goma arábica.

zoravia

* Este texto foi escrito por Carlos Urbim para a apresentação de seu divertido e delicado livro Admissão ao ginásio, com ilustrações da artista plástica Zoravia Bettiol.

Breves notas sobre a identidade nacional brasileira

Por Escritos

brasilO sete de setembro, comemorativo da Independência do Brasil, impõe muitos questionamentos: entre outros, o que é ser brasileiro? Existe no Brasil uma identidade nacional? Pode se considerar a Nação brasileira apenas apontando as perspectivas geográficas, jurídicas ou diplomáticas? Neste caso, como se definiria a identidade nacional?

A identidade nacional implica um consenso a respeito de certos valores e também alguma diferença entre eles e outros consensos. Claro está que existe muitas dúvidas que se colocam, sobretudo, em razão de três pontos fundamentais:

Pode haver consenso em um país como o Brasil com sua enorme desigualdade econômica (que gera outras desigualdades)? Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a renda anual média do 1% mais rico é aproximadamente R$ 575 mil – o que significa mais de R$ 40.000,00 por mês. Todavia esses 1% ainda não são a elite. Os super-ricos do Brasil ganham acima de 160 salários mínimos por mês. São 0,05% da população economicamente ativa.

Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$1,2 trilhão. Ou seja, 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Na verdade, fazem parte de um grupo de 71.440 pessoas com renda anual média de R$ 4,17 milhões, em torno de R$ 350 mil por mês. Eles tiveram em 2013, ainda segundo o Ipea, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões. A expectativa é que em 2015 tornem-se ainda mais ricos do que em 2014 e muito mais ricos do que em 2013.

Enquanto os brasileiros mais pobres – 36.981.114 pessoas, recebem apenas até dois salários mínimos.

Além da desigualdade econômica o Brasil enfrenta desigualdades sociais, culturais e políticas, entre classes, etnias e regiões.

Como pensar em uma identidade nacional quando se observa o aparecimento de identidades locais? E ainda quando essas identidades escapam à regulação e arbitragem do Estado Nacional – visto como uma instância coercitiva.

Finalmente, como pode a identidade nacional se consolidar mediante a globalização e as dissimetrias e desigualdades que a acompanham? Processo, diga-se de passagem, em que o Brasil não se encontra entre os países hegemônicos.

Para alguns teóricos, embora reconheçam traços etnoculturais comuns à maioria dos brasileiros definindo uma brasilidade, a identidade nacional brasileira desapareceu (se algum dia existiu de fato) ou tende a desaparecer. Outros teóricos discordam da inexistência da identidade nacional brasileira, argumentando que há nos discursos correntes uma substancialização da nação brasileira o que indica um sentimento de identidade nacional.

Considerar o Brasil como nação tem algumas implicações na medida em que sugere a negação da existência da luta de classes, entre outras questões significativas. O que está por traz dos discursos é uma certa ideologia que deve ser considerada, porquanto o discurso do nacional, por um lado, se distancia dos anseios das camadas populares (só teria sentido o conceito de nacional-popular, mas no Brasil o que é nacional não é popular e vice-versa), por outro, as elites brasileiras se consideram supranacionais e atuam como tal.

A questão da identidade nacional é bastante complexa. Seja como for, se pode dizer que há mais de uma identidade nacional brasileira. Não há no Brasil um mesmo espírito, nem tolerância mútua no campo sociocultural e nem no político.

Para auxiliar essa reflexão a Escritos publicou vários livros:

Democracia e participação. Dimensões do neoliberalismo e da globalização. Maria Salete Amorim (organizadora)

Transformações. Ensaios sobre as culturas e sociabilidades. Silvio Antonio Colognese (organizador)

Cidadania italiana. Motivações e expectativas. Silvio Antonio Colognese

Controle e disciplinamento da força de trabalho. Estratégias e resistências. Lorena Holzmann

Tique-taque o tremor das pequenas coisas

Por Leandro Selister*

tt_02cNos últimos anos defini como campo de atuação para o meu trabalho com fotografia os limites da minha casa. Uma flor que cresce, o movimento das nuvens, o amanhecer, o anoitecer, cenas do dia a dia que na maioria das vezes não temos tempo de observar. Aguardo o tempo passar, a vida acontecer. Esse mundo, que antes parecia limitado, aparece agora cheio de surpresas, com infinitas possibilidades de exploração.

Nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2003, acompanhei um casal de sabiás na construção de seu ninho e sua árdua tarefa de dar continuidade à vida.

Essa história teve início a partir do convite que recebi de uma amiga para ver o que estava acontecendo em sua casa. A curiosidade me fez visitá-la imediatamente. O que presenciei foi um casal de passarinhos, chamados sebinhos, instalados num pequeno ninho que haviam construído numa árvore da sala. O ninho foi construído não apenas com folhas e galhos, mas também com cabelos da cabeça de uma boneca, um prejuízo em nome da natureza.

Por que aqueles passarinhos teriam escolhido uma árvore num apartamento quando poderiam fazer o ninho ao ar livre em algum parque da cidade? Surpreso, pensei no quanto gostaria de poder acompanhar uma situação dessas em minha casa, afinal de contas, há dois anos minha atenção estava exclusivamente para acontecimentos assim.

Passados três dias, ainda com a imagem dos passarinhos na cabeça, não acreditei no que começava há acontecer há apenas alguns metros da janela de minha sala…

* Artista plástico, autor do Livro Tique-taque o tremor das pequenas coisas publicado pela Escritos.