Dos direitos humanos

Foto de Sebastião Salgado
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Por Escritos

Os direitos humanos constituem o discurso oficial do Ocidente contemporâneo e, muitas vezes, um substituto da religião (depurada de seu conteúdo dogmático, mas perpetuada como referência transcendente legitimamente organizada em nome de um sujeito universal e superior). Eles são convocados, ao mesmo tempo, como recurso jurídico, como referência moral e como uma política. Implicando em direitos, como anunciam, mas também em deveres e, evidentemente, em força coercitiva. Dito de outro modo, o direito de um é assegurado pela obrigação de um outro e pela pressão de sanções.

Neste sentido, direitos humanos e Estado vivem um paradoxo, porquanto, por um lado, o Estado tem a obrigação de defender os direitos do cidadão e, por outro, ele tem o poder de obrigar tal cidadão a certos comportamentos e atitudes que podem ser por ele indesejados. O que se afirma aqui é que muitas vezes os direitos humanos são direitos contra o Estado e que muitas vezes o Estado interfere no exercício dos direitos do cidadão. Ou seja, o Estado é condição para o exercício dos direitos humanos. Convém remarcar que há direitos que não são rigorosamente exercidos porque o próprio Estado, por alguma razão, não oferece as condições necessárias para tanto.

Sendo o Estado condição para o exercício dos direitos humanos a sua ideologia será determinante. Um Estado liberal e um Estado socialista enfatizarão de modos distintos os direitos humanos, e selecionarão diferentemente em quais deles deverão investir etc. Eles terão forças dessemelhantes para defender os direitos dos cidadãos. Além disso, nem sempre há no Estado o aparato necessário (serviços públicos) para o exercício e defesa dos direitos do cidadão. Neste sentido, haverá uma inconsistência segundo o modelo de Estado.

Quando os direitos humanos não são plenamente exercidos, infelizmente, eles não passam de uma declaração de intenções, de um ideal generoso, de uma ficção teórica legitimada. Quando plenamente exercidos, portanto com a garantia do Estado, eles representam a incorporação do bem na forma da lei para uma existência desejável, para um viver-junto pacificamente. Com efeito, nesse caso, os direitos humanos tecem uma nova maneira de estar-junto, muito mais fraterna – na qual o cidadão pode sair de si próprio para se ligar aos outros tanto pela palavra, como pela escrita ou pelo pensamento. Ou seja, a partir e com eles os cidadãos podem viver uma experiência de luta e de justiça, condição de toda a democracia.

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Seja como for, os direitos humanos devem ser compreendidos como inerentes a todo o ser humano, independentemente de raça, sexo, religião, língua ou qualquer outra condição e incluem o direito à vida, à liberdade, ao trabalho, à educação, entre muitos outros. Todos têm direito a ter direitos, sem discriminação. Eles são garantidos pela lei dos direitos humanos, protegendo e defendendo indivíduos e grupos contra ações que interferem nas liberdades e na dignidade humana.

Estética

(Estética, junto com esclarecimento, excessos e limites, faz parte da introdução do livro Non Satis Est. Excessos e Teorias Estéticas no Esclarecimento de Silke Kapp publicado pela Escritos Editora)

silePor Silke Kapp*

A concepção mais difundida da relação entre esclarecimento e estética moderna foi sustentada primeiro por Ernest Cassirer em A Filosofia do Iluminismo, o qual parte do pressuposto de que o interesse que move as reflexões acerca do âmbito estético é fundamentalmente idêntico ao interesse teórico do iluminismo. Como vimos, esse interesse teórico visa a um conhecimento mais abrangente do que o da ciência natural moderna, mas estruturado a seu modo, isto é, num sistema unitário e logicamente composto em seus diversos ramos. Ele se apoia, por um lado, na análise capaz de discernir os fenômenos empíricos, e, por outro, na síntese capaz de reuni-los em fórmulas simples. Para Cassirer, tal pretensão sistemática foi estendida também ao estudo do belo, da sensibilidade e da arte. O surgimento da estética filosófica resultaria então da confluência da crítica da arte (sobretudo literária) para o pensamento analítico-sintético da ciência natural. Na verdade, os dois elementos, crítica e espírito sistemático, nada mais seriam do que facetas diversas de uma mesma energia intelectual, extraordinariamente acirrada naquele período. No âmbito da arte e de sua produção e recepção, o afã iluminista por um ordenamento claro e distinto de todo o conhecimento teria levado a tentativas contínuas de reunir de forma lógica o imenso material gerado por observações dispersas acerca das artes particulares. De fato, no início do século XVIII, abundam especulações sobre poesia, pintura ou arquitetura, mas não há nenhuma teoria que reúna esses fenômenos numa perspectiva sistemática. Cassirer interpreta essa situação como uma carência que tanto a crítica de arte quanto a filosofia teriam procurado combater. A tal combate ainda se somaria a tarefa de fundamentar e legitimar os conteúdos artísticos frente aos filósofos, definindo similitudes e diferenças entre ciência e poesia, e determinando os limites entre razão e imaginação, regularidade e genialidade, conhecimento e intuição. Na opinião do autor, esse problema de delimitação incita a discussão estética durante todo o século XVIII, sendo finalmente solucionado na filosofia crítica de Kant: a filosofia dos limites por excelência. Quanto às teorias estéticas anteriores à Crítica da Faculdade do juízo, Cassirer compreende-as como “etapas preliminares” dessa forma final kantiana de integração do belo, do sublime e de suas instâncias próximas a um sistema racionalmente legitimado.

Uma interpretação diferente e manos difundida do nexo entre esclarecimento e teoria estética foi proposta por Alfred Baeumler, ainda antes da Filosofia do Iluminismo de Cassirer. Para Baeumler, a constituição da estética como disciplina filosófica especializada não é senão um efeito colateral ou uma primeira manifestação sedimentada de uma das transformações mais importantes na consciência ocidental: o surgimento do que ele denomina individualismo, isto é, da difícil reflexão filosófica acerca do indivíduo concreto e particular, que “é algo sem palavras, sem conceitos, sem lógica”. Baeumler admite que a experiência do homem como ser produtivo e criador, tal como se expressa no conceito de gênio, teve início no Renascimento, e que cabe situar ali o advento da individualidade moderna. Porém, ainda que o Renascimento tenha experimentado essa individualidade, ele não a teria refletido como tal; em linguagem hegeliana, ele seria individualidade em si, não para si. Segundo Baeumler, a experiência renascentista foi problematizada apenas na época do esclarecimento, porque a individualidade que pôde desenvolver-se sob a guarda de uma autoridade religiosa viu-se então obrigada a uma legitimação mediante a razão. “O que em 1500 era apenas um fato, depois de 1700 torna-se um problema’. Baeumler compreende o conceito de gosto como fruto desse problema: com ele, a ideia do sujeito estético produtivo – ou do artista genial – é suplementada pela ideia de um sujeito estético receptivo; sujeito esse que, pela primeira vez, pode expressar um juízo fundamentado em seu sentimento, sem a necessidade de recorrer à autoridade da tradição ou da regra para justificá-lo. Para Baeumler, o conceito de gosto distingue as estáticas do século XVIII de todas as teorias anteriores por abordar algo que foge ao escopo de qualquer metafísica do belo ou de preceitos técnicos para a produção de obras de arte. O gosto estaria diretamente ligado a uma concepção de sujeito que pressupõe o sujeito cartesiano pensante, mas também difere dele pela inclusão de uma particularidade que antes dificilmente comparecia na reflexão filosófica.

… apenas na esfera estética o homem é reconhecido enquanto homem; e por isso a individualidade viva só pôde tornar-se um objeto do pensamento na época do gosto. Enquanto sujeito de religião, o homem está atado a uma realidade objetiva e escapa a qualquer conhecimento conceitual. Enquanto sujeito da ciência, ele já não é homem vivo e concreto, mas somente um ser teórico. Enquanto criatura natural, ele está subjugado às leis universais do mundo material (…). Somente a ética parece respeitar o homem em toda a sua concreção – mas justamente a ética sempre corre o perigo de pôr uma norma aniquiladora da individualidade em primeiro plano e perder a representação do homem concreto diante da representação de uma lei incondicional ou de um sujeito social. Em contrapartida, o gênio e o observador estético põem-se diante de nós como sujeitos individuais, concretos.

Baeumler defende que a estética surgida no período do esclarecimento, mais do que reduzir a arte e o gosto a um sistema, quer expandir o conhecimento a um terreno não assegurado por nenhuma autoridade última, nem mesmo pela autoridade da razão. A tentativa da estética de pensar o indivíduo particular equivaleria à tentativa de pensar o não-racional por meio da razão. Nas palavras do autor, “não o racionalismo, mas o problema do irracional visto a partir do fundamento do racionalismo é o que caracteriza a perspectiva filosófica do século XVIII. Assim como Cassirer, Baeumler faz o problema da estética culminar em Kant. No entanto, a sua leitura enfatiza que não se tratou apenas de uma absorção dos âmbitos do belo, da arte e do gosto pelo projeto iluminista, e sim de um movimento recíproco. O próprio criticismo kantiano e a ultrapassagem do racionalismo que ele representa seriam impensáveis sem a precedência da “época do gosto”. Isto é, sem a abertura do pensamento em direção ao concreto e particular.

Uma terceira interpretação possível do liame entre esclarecimento e estética moderna acentua algumas motivações práticas pouco consideradas por Cassirer e Baeumler. Rolf Grimminger sintetizou esse aspecto com a expressão “utopia do prazer razoável”. Segundo Grimminger, a mesma individualidade concreta e particular que constitui o problema teórico na origem da nova estética também teria sido um obstáculo prático para a implementação dos novos modos de produção promovidos pela burguesia. Embora o ideário iluminista se apoiasse inteiramente na concepção do sujeito moderno, senhor de suas faculdades e capaz de elucidar o mundo a partir delas, também compreendia a subjetividade, com suas paixões, inclinações e desejos, como um obstáculo ao uso dessas faculdades e um perturbador de decisões e atitudes regradas. De acordo com a tese de Grimminger, a solução desse problema da subjetividade “é transferida quase que exclusivamente à arte, ao gosto e à sensibilidade esteticamente refinada”. A reflexão teórica acerca do âmbito estético visaria então a transformar o prazer estético num entretenimento inofensivo, num modo de regeneração dos indivíduos condizente com um comportamento regrado. Para Grimminger, as teorias estéticas do esclarecimento veem na “bela arte”, assim como na “bela alma” ou na “bela sociedade”, a superação do conflito entre razão e afetos, lei universal e indivíduo particular, unidade do sistema e variedade de seus elementos. Assim, a nova estética seria uma parte do programa prático do esclarecimento, que procura instituir um “prazer razoável” e pôr ao lado do domínio técnico da natureza externa e do domínio moral da natureza interna a esperança de uma pacificação do homem sujeito a todas essas imposições. Mas Grimminger entende que tal reconciliação entre racionalidade e sensibilidade teria corrido quase sempre às custas dessa última. As teorias estéticas teriam acatado a sensibilidade somente quando domesticada a ponto de tornar-se, ela mesma, razoável. A Crítica da Faculdade do Juízo não estabelece rigorosamente os limites entre poesia e conhecimento, razão e imaginação – enfatizadas por Cassirer -, mas contém igualmente conotações práticas que fazem do belo um “símbolo da moralidade”, põem a razão à frente do gosto quando se trata de julgar objetos de “beleza aderente’ (que são a grande maioria) e excluem da contemplação estética tanto o prazer fisiológico dos sentidos quanto afetos e comoções.

mascaraGrimminger e Cassirer compartilham da premissa de que o interesse crescente pelo estudo dos fenômenos estéticos no século XVIII coincidiria fundamentalmente com os interesses do próprio projeto do esclarecimento; embora, à diferença de Cassirer, Grimminger avalie essa coincidência criticamente e acentue o interesse prático que ela envolve. Nesse aspecto, ambos são contraditos por Gerhard Schröder, para quem as teorias estéticas constituem um “contra-discurso” do racionalismo já a partir do século XVI. Apoiando-se em Baeumler, Schröder constata que a formação do conceito de objetividade do saber pela ciência empírico-analítica faz surgir também o seu oposto negativo: o âmbito da subjetividade que escapa ao conceito cientifico de verdade. O indivíduo tem lugar no racionalismo como sujeito cognitivo e enquanto sujeito da ação, mas não como sujeito empírico, em sua particularidade concreta; particularidade essa outrora absorvida e regulada pelos ritos e dogmas cristãos. Schröder procura demonstrar como a esfera estética forma-se nessa vazio e aloja tudo o que não tem lugar no saber racionalista. Isso explica a abrangência das reflexões estéticas no início da Idade Moderna: além das artes, elas incluíam também princípios éticos, questões ligadas à subjetividade e conselhos acerca da conduta individual.

Na reflexão estética desse período (séculos XVI e XVII) está em jogo a reflexão do sensível-concreto, do particular, do fenômeno da forma individual, daquilo que é marginalizado pelo discurso racionalista. Ela tem sua própria razão: uma razão que procura fazer jus ao singular.

A leitura de Schröder assemelha-se à de Grimminger na ideia de uma constituição da teoria estética como receptáculo de tudo aquilo que não cabe no racionalismo. Porém há uma diferença fundamental nas metas práticas que supostamente guiam essa teoria. Enquanto Grimminger entende que, ao menos até o Sturm und Drang e o Romantismo, a estética teria auxiliado o projeto do esclarecimento, domesticando a sensibilidade a fim de torna-la razoável, Schröder vê essa mesma estética, já desde o século XVI, como discurso crítico do racionalismo, que quer preservar modos não científicos de interação do homem com o mundo e consigo mesmo. No século XVIII, a estética ganharia terreno exatamente por se tratar de uma época em que o próprio racionalismo perde a sua força. Schröder não faz de Kant o apogeu dessa reflexão.

Reuni, pois, quatro interpretações da relação entre esclarecimento e as teorias estéticas que lhe foram concomitantes: as teorias estéticas podem ter surgido como frutos de uma sede generalizada de conhecimento sistemático (Cassirer); como tentativas de compreensão e legitimação do particular pela razão (Baeumler); como remédios contra a insensatez da sensibilidade Grimminger); ou como críticas do racionalismo (Schröder). Embora todas essas leituras sejam parciais – como qualquer leitura guiada por alguma intenção -, nenhuma delas é infundada ou deixa de encontrar respaldo nos textos dos séculos XVII e XVIII. Isso mostra a ambiguidade das estéticas iluministas, mas também a sua amplitude. Mais do que a metafísica ou o estatuto técnico do belo, ocupa-as um terreno estranho ao conceito de razão surgido com a ciência moderna e sistematizado pela primeira vez na epistemologia de Descartes. A reflexão estética desse período é uma reflexão acerca do particular estranho à universalidade, da conduta individual estranha ao imperativo categórico, dos delírios da imaginação, dos prazeres, moções e afetos, da sensibilidade descomedida. Seja com o intuito de sistematizar, compreender, domesticar ou defende-lo, as teorias estéticas lidam com algo que excede a ideia de um mundo estruturado ao modo da ciência natural – elas lidam, enfim, com excessos.

Quando iniciei a presente pesquisa, parto cum grano salis da premissa de Cassirer: o interesse crescente pelo estudo filosófico da contemplação e da produção de fenômenos que dizem respeito à sensibilidade mas ultrapassam-na em significado coincidiria com os interesses do projeto do esclarecimento. Perdida a evidência da tradicional tríade bem-belo-verdadeiro, teriam surgido tentativas de restaurá-la no interior de um sistema filosófico totalizador. Assim, a tarefa principal das novas reflexões estéticas parecia de fato consistir na redefinição do belo sob fundamentos diversos dos religiosos, porém ainda condizentes com as ideias da verdade e do bem. Entretanto, no decorrer do trabalho, ou mais precisamente diante de um comentário de Samuel Monk acerca da recepção do tratado Peri Hypsous de Longino, me dei conta de que aquelas novas reflexões envolviam também outros intuitos. Monk explica que, na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, Longino havia sido traduzido e publicado diversas vezes, sem que recebesse especial atenção; já por volta de 1730, a sua fama era tamanha que a devoção de certos críticos e pseudo-críticos chegava a ser satirizada. Eis um dos motivos que Monk aponta para essa transformação:

… pode-se dizer que Longino não era necessário no século XVII e que ele teve uma função muito definida a cumprir nos primeiros anos do século XVIII. Uma época que produziu poetas tão diferentes quanto Ben Jonson e Donne, Herrick e Crashaw, Carew e Hebert, Milton e Cowley, certamente não tinha necessidade de uma defesa teórica do individualismo na arte. Mas quando, logo depois da restauração, começa a reação contra a decadente tradição de Donne, e quando, depois de sua experiência de liberdade política, a Inglaterra acomoda-se para desfrutar um esclarecimento confortável e urbano sob uma monarquia constitucional, a tendência era subjugar o gosto e a arte da poesia às regras que buscavam o controle no interesse do neoclassicismo.

A constelação inglesa descrita por Monk tem paralelos no continente: basta lembrar o exagerado controle cultural do reinado Luís XIV – ao qual o classicismo francês está vinculado – ou as tentativas de Gottsched para regulamentar o teatro alemão. Com efeito, o mesmo espírito do esclarecimento que Cassirer faz resplandecer em toda a sua potência intelectual quer também, desde muito cedo, submeter a apreciação e a produção estéticas a estatutos tidos como claros e distintos, subtraindo-lhes tudo o que se via como arbitrariedade e obscuridade.

Curiosamente, os primeiros textos formulados com essa intenção não são estéticas ou proto-estéticas, mas constituídos por instruções técnicas e censuras no interior das artes particulares, por batalhas acadêmicas e pelos escritos que todo gentleman ou honnête homme se julgava no direito de cometer. Mesmo quando extensos e detalhados, esses textos transpõem preceitos racionalistas para a arte de um modo pouco refletido e mais dedicado à aplicação imediata de certas regras do que a qualquer espécie de fundamentação. Não obstante as diferenças que têm entre si, obras como La pratique du théâtre (1657) de D’Aubignac, L’art poétique (1674) de Boileau, Parallèles das anciens et des modernes (1688-1697) de Charles Perrault ou Versub einer Critischen Dichtkunst für die Deutschen (1730) de Gottsched, exemplificam essa situação inicial.

Em contrapartida, muitas das primeiras reflexões mais propriamente filosóficas acerca do âmbito estético no esclarecimento opõem-se com veemência à sua aferição por regras gerais. Tais reflexões também surgem, grosso modo, a partir da crítica de arte – e não da chamada grande filosofia -, mas ultrapassam em muito as prescrições de princípios e o julgamento de obras particulares. Como que reagindo às consequências desastrosas da empreitada de regulamentação das artes, alguns autores se dedicam à busca teórica cuidadosa de argumentos e legitimações do estético frente à nova filosofia, porém não no interesse dessa, mas, antes, no das qualidades ameaçadas por seus princípios. Mais do que controlar, procura-se aí socorrer a arte e certas experiências de sensibilidade num contexto tendente a negar-lhes a validade e, por vezes, até o direito de existência. Como exemplos dessas reflexões críticas podemos citar o Traité du sublime (1674) e as Réflexions critiques (1710) também de Boileau, The grounds of criticismo in poetry (1704) de John Dennis, Essays on the pleasures of the imagination (1712) de Addison, Réflexions critiques sur la poésie et la pinture (1719) de Dubos, e, em certa medida, A philosophical enquiry into the orign. Of our ideas of the sublime and the beautiful (1757) de Burke e diversos textos de Lessing e Mendelssohn.

Já a situação apontada por Cassirer – de uma abordagem do âmbito estético diretamente derivada da filosofia e com a meta da sistematização – é mais característica para um terceiro grupo de escritos, em geral posteriores aos acima mencionadas. Characteristics of men, manners, opinions and times (1711) de Shaftesbury, Les beaux arts réduits à um même príncipe (1746) de Batteux ou a Aesthetica (1750) de Baumgarten pertencem a essa categoria, e a Kritik der urteilskraft (1790) de Kant de fato conclui a tarefa aí iniciada.

Certamente não se deve tentar encaixilhar todas as teorias estéticas do esclarecimento nessas situações ou derivar delas uma ordem cronológica e casual imediata. Há defasagens enormes entre os diferentes contextos culturais em que as teorias são formuladas, assim como há coexistências das três situações num mesmo contexto e por vezes até num mesmo autor. Mas, ainda assim, é possível observar um encadeamento recorrente das discussões: as tentativas de regulamentação do âmbito estético despertam uma reflexão crítica nova a seu respeito e não necessariamente condizente com os pressupostos filosóficos do esclarecimento (seja em sua vertente racionalista ou empirista); o que, por sua vez, incita à abordagem dos temas da estética no interior das grandes filosofias e em concordância com os princípios cognitivos e morais ali estabelecidos. Visto desse modo, poder-se-ia distinguir entre teorias prescritivas, teorias críticas e teorias sistemáticas.

Há uma autonomia peculiar do pensamento estético na situação acima descrita como intermediária, isto é, situação da reflexão crítica ou das teorias críticas. Constituem-na teorias que se aprofundam em concepções filosóficas novas, mas não se guiam pela meta de enquadrar a estética numa construção filosófica integral. São elas as teorias que se pretende examinar aqui.

Se for admitida a hipótese de três situações ou interesses diferentes das teorias estéticas do esclarecimento (prescrição, reflexão crítica, sistematização), é fácil depreender também o quanto uma leitura retrospectiva a partir de Kant tende a projetar a situaçãoo do interesse sistemático sobre todo o período, reduzindo os outros dois momentos a uma coleção de exercícios mais ou menos frustrados. Eis, a meu ver, o caso de Filosofia do iluminismo de Cassirer. É verdade que existem teorias da arte e do belo com pretensões sistemáticas anteriores à Crítica da faculdade do juízo, como a do já citado Charles Batteux, o qual procura reduzir as artes particulares ao princípio da imitação da natureza, ou o trabalho de Baumgarten, que cunha o termo estética. Mas, por outro lado, grande parte dos autores do mesmo período não aspiram a uma estrutura lógico-científica do saber, e sim à elucidação de algo excluído dessa estrutura – daí também o caráter muitas vezes fragmentário ou ensaístico dos textos. Isso faz deles meros exercícios mal sucedidos? Provavelmente, interpretá-los desse modo seja ignorar os seus propósitos e o seu potencial explosivo. A estética sistemática, incorporada à grande filosofia, não é, como quer Cassirer, apenas um resultado como que natural da curiosidade intelectual do esclarecimento, ela é também uma reação a reflexões que examinam a contrapelo os pressupostos do próprio esclarecimento.

A leitura de Baeumler é igualmente guiada pela solução kantiana do problema estético, mas tem o cuidado de preservar certas peculiaridades de teorias anteriores, enfatizando o seu papel no pensamento de Kant. O problema da estética resolveu a filosofia e não somente se lhe agregou. Com uma dialética nos moldes hegelianos, Baeumler faz da Crítica da faculdade de julgar a síntese e a suprassunção das teses do racionalismo e das antíteses da estética. Apenas não seguiremos esse modelo interpretativo pela suspeita de que tal suprassunção implicou também o soterramento de algumas ideias valiosas.

Já a tese de Grimminger – segundo a qual a estética surge para domesticar a sensibilidade e cultivar a “utopia do prazer razoável” – parece-me superestimar a unidade ideológica do esclarecimento. No âmbito das teorias alemãs, especialmente quando se começa a análise por Gottsched e a sua vontade de fazer do teatro o principal lugar de instrução e moralização do povo, pode ser pertinente a ideia de que a estética moderna tenha nascido como tentativa de cerceamento da arte em prol de princípios lógico-morais, tornando-se crítica em relação a esses princípios lógico-morais, tornando-se crítica em relação a esses princípios apenas mais tarde, com Herder e o romantismo. Porém essa ideia não pode ser generalizada. O que considero realmente preciosos na interpretação de Grimminger é o fato de ela pôr a perspectiva prática em evidência. A discussão acerca do estético nos séculos XVII e XVIII inclui questões essenciais de conduta individual e social. Mas cabe ressaltar que nem sempre essas questões foram decididas em favor dos ideais de moralidade do projeto burguês do esclarecimento.

Finalmente, a interpretação de Schröder – em muitos sentidos inspiradora das hipóteses acima esboçadas – merece, a meu ver, uma especificação. Schröder aborda sobretudo as poéticas dos séculos XVI e XVII, para mostrar de que maneira elas absorvem paulatinamente tudo aquilo que o novo discurso cientifico repele. Porém as teorias estéticas e científicas sobrevivem lado a lado, sem uma reflexão acerca do seu caráter contraditório, até o momento em que as premissas cientificas começam a adentrar o terreno da estética com a pretensão de regra-lo (pretensão essa que Descartes, por exemplo, nunca teve). O alastramento dos princípios da razão cientifica distingue a época do esclarecimento do tempo da Revolução Científica que a antecede; ele atinge as artes e o belo natural do mesmo modo que os ideias sociais, econômicos, políticos e morais, as técnicas de produção, a natureza interna dos indivíduos, suas condutas cotidianas e suas almas. Por isso Baeumler pode dizer que “o que em 1500 era apenas um fato, depois de 1700 torna-se um problema”, e Monk pode constatar a necessidade da autoridade de Longino para defender a arte contra a sua regulamentação. A leitura de Schröder não chega a pôr em relevo essa nova constelação. Talvez mais do que contra-discursos do racionalismo em geral, as teorias estéticas de fins do século XVII até meados do século XVIII tenham sido contra-discursos da extensão de uma lógica científica para além da ciência.

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* Arquiteta, com mestrado e doutorado em Filosofia (UFMG, 1994 e 1999). Atualmente é professora associada da Escola de Arquitetura da UFMG e líder do Grupo de Pesquisa MOM (Morar de Outras Maneiras). Tem experiência na área de Arquitetura, Urbanismo e Planejamento, atuando principalmente nos seguintes temas: teoria crítica da arquitetura e da cidade, habitação, produção do espaço cotidiano, interfaces para a autonomia, metodologia da pesquisa sócio-espacial.

As ilustrações da Coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

Por Escritos

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Ler é uma questão de cidadania e ter acesso a livros também. O livro transmite e preserva conhecimentos, culturas de povos e a história da humanidade. É ele fundamental para o desenvolvimento qualificado das sociedades e para o desenvolvimento da inteligência e da imaginação do leitor. Em se tratando de criança leitora, o livro, sobretudo de literatura, permite que ela experimente uma vivência simbólica através da viagem imaginária suscitada pelo texto escrito e pelas ilustrações.

Para a criança a leitura de um livro, por ela mesma ou mediada por um adulto, lhe confere espaços de inter-relação com o mundo, imediato e distante, através de histórias realistas ou imaginárias. O projeto gráfico do livro é, neste sentido, extremamente importante, porquanto através das ilustrações a criança dispõe de novas e múltiplas perspectivas. As diversas significações que as ilustrações apresentam despertam a curiosidade da criança estimulando o seu interesse pela leitura e pela literatura.

Na verdade, as ilustrações em um livro infantil desempenham várias funções: tornar mais claro o conteúdo do texto escrito, passando por substituir, ampliar, adicionar novas informações a ele, até produzir uma nova possibilidade de leitura. Claro, além de sua função estética que outorga ao livro um caráter mais fantástico, mais encantado. Como afirma Lins, a imagem complementa e enriquece a história, podendo cada parte de uma imagem gerar outras histórias, além das apresentadas no texto escrito – a imagem comunica algo para a criança.

As ilustrações de livros infantis têm uma história que foi iniciada como simples ornamento de livros religiosos, cartilhas escolares, entre outros. Eram imagens eminentemente pedagógicas. Com os contos de fadas de Perrault, em 1697, as imagens mudaram o seu curso e passaram a se apresentar com uma enorme riqueza de detalhes. Além disso, elas começaram a ser assinadas como não era feito anteriormente. Neste caso pelo ilustrador Gustave Doré. Em 1812, os irmãos Grimm publicaram Kinder und Hausmärchen (Contos populares) com ilustrações de George Cruikshank. Analisando numa perspectiva comparativa as ilustrações do  primeiro com as do segundo livro observa-se uma evolução importante. No segundo livro as imagens são muito mais divertidas e apresentam um ritmo próprio.

Entretanto, foi somente no século XX, nas reedições dos contos dos irmãos Grimm, que os ilustradores (Arthur Rendak, Edmund Dulac e Key Nielsen) começaram a se preocupar com as viagens imaginárias elaboradas pelas crianças através das imagens. Para alguns, essa preocupação acompanhou uma linha crescente a ponto de serem produzidos livros apenas com imagens – a história contada através das imagens (Cântico dos Cânticos e Outra vez, de Ângela Lago; Noite de cão, de Graça Lima; entre outros). Observa-se, pois, que no início as ilustrações apenas reproduziam o texto escrito para, posteriormente, derivar em sentidos mais complexos.

As ilustrações qualificadas de livros infantis são puro ato de criação dos ilustradores, de sua concepção de arte, do seu domínio do código visual e, também, de sua sensibilidade em relação ao que de fato faz sentido ao imaginário da criança e à ideia do seu acolhimento pelo trabalho do ilustrador.

As ilustrações que estão sendo elaboradas por Thiago da Silva Luz para a segunda edição da Coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo, revisada pelo autor Cristiano Refosco, levam em consideração todas essas questões. A preocupação de Thiago é que as ilustrações revelem para a criança sentimentos e emoções que estão no fio de toda a narrativa, isto é, o amor, o acolhimento da diferença, a inclusão. Neste sentido, são sólidas as suas imagens, porquanto se conectam de modo a contribuir e ampliar as possibilidades do texto escrito, ao mesmo tempo, que possibilitam maior literariedade da obra e desenvolvimento do senso estético da criança.

Com grande habilidade gráfica e coerência com o tema, Thiago está desenhando manualmente cada ilustração, fazendo o seu contorno a nanquim para, finalmente, torná-las coloridas.

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Dicas para o Dia dos Pais 2015

Por Escritos

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A Escritos convidou Ana Marshall, Carlos Cirne Lima e Maria Tomaselli para indicarem um livro para o Dia dos Pais, que será comemorado no próximo domingo. Conheça os escolhidos:

Ana Marshall escolheu o Kai

Carlos Cirne Lima também escolheu o Kai

Maria Tomaselli escolheu o Dialética para principiantes e Depois de Hegel

Ótimas dicas!

O Kai foi recentemente lançado pela Escritos e está tendo um grande sucesso. São fantásticos os comentários dos seus leitores: “comecei a ler e não consegui parar”, “é uma verdadeira aula de antropologia, sociologia, filosofia e arte, além de ser uma delícia como literatura”, “com o Kai nasce uma excelente escritora”…

O livro é um romance autobiográfico para o qual a expectativa do leitor está para além dos acontecimentos, de sua atitude de escuta para o que crê ser real, porquanto também espera dele algo da ordem do imaginário. O Kai faz imaginar… Nele jogam diferentes tempos e espaços, culturas e classes sociais, éticas e estéticas, que ora se estranham e ora se acolhem dentro de novas concepções de mundo – escancarando a experiência humana do ponto de vista de seu sentido e de seu significado.

Cabe lembrar que o romance autobiográfico e a autobiografia se aproximam no que diz respeito à narrativa de uma experiência vivida, mas o pacto que se estabelece entre escritor e leitor é bastante distinto orientando este último para um ou outro modo de ler.

Há uma forte tendência contemporânea para o autobiográfico sendo a narrativa centrada na experiência vivida pelo escritor ou pelo menos com a mescla de elementos de sua vida – uma mistura de ficção e realidade. Para alguns teóricos essa guinada subjetiva (Beatriz Sarlo), ou modelo confessional (Peter Brooks), está relacionada com certo condicionamento para confessar, em tudo dizer, originário do Concílio de Latrão e sua imposição das regras da confissão (1215) ao mundo Ocidental. Essa obrigação significou um duro exercício de autorreflexão, modificando a vida religiosa e psicológica de todos, ao mesmo tempo, em que aprofundou e expandiu a valorização da ideia de indivíduo.

Cabe afirmar também que essa tendência se naturaliza a partir da Segunda Guerra Mundial, talvez pelo desejo de voltar à trágica cena, retroceder para continuar vivendo apesar de toda a carga material e simbólica do fato. Ou seja, narrar onde a humanidade foi capaz de chegar, como uma espécie de confissão da sua constituição contraditória e incerta, na tentativa de expurgar o mal e tentar um recomeço.

A segunda escolha: Dialética para principiantes e Depois de Hegel, também publicado pela Escritos, é um livro de filosofia escrito de modo a ser compreendido por todos. Através dele o leitor poderá compreender o que é Filosofia, o que é Dialética, quais são as principais questões filosóficas, quais são as principais teorias filosóficas e muito mais – de modo simples sem, entretanto, perder de vista a complexidade, o detalhamento e a profundidade que o tema exige. Além do que o leitor encontrará neste livro a construção do pensamento de um grande filósofo. Carlos Cirne Lima propõe um sistema neoplatônico e neo-hegeliano com pretensões de verdade e de universalidade. Um sistema com base na dialética composta pelos princípios da Identidade, da Diferença e da Coerência. O livro é um clássico.

Por que ler filosofia? Ora, a filosofia explica as grandes questões da humanidade e dá sentido à vida. No mais, hoje a filosofia é fundamental, porquanto ela ensina a melhor pensar na medida em que fortalece e revigora habilidades do pensamento necessárias à consolidação da capacidade de pensar criticamente – não apenas os diferentes campos do conhecimento, mas também os saberes da vida de todos os dias, seus dilemas, aflições e encantos. Com efeito, é extremamente relevante a capacidade de questionar, de refletir e de rejeitar como verdade incontestável a evidência imediata sem submetê-la a novas indagações.

Aos que ofertarem livros no Dia dos Pais juntam num só momento a emoção do que significa ser pai e a beleza da leitura.

Jennifer_Khoshbin0