Ainda nos tempos atuais Mafalda faz pensar…

Por Escritos

Apesar de seus 53 anos de idade, as críticas inteligentes, humoradas e sarcásticas da questionadora garotinha Mafalda e da sua turma são extremamente atuais e fazem pensar… Criada em 1962, pelo cartunista argentino Joaquim Salvador Lavado, o Quino, as tiras mostram com suas metáforas que as inquietações daquela época em relação aos problemas sociais e políticos ainda persistem…

Personagens_Mafalda

Cada personagem como a Burocracia, tartaruga de estimação, o Manolito, menino egoísta e truculento, preocupado apenas com os lucros do comércio de seu pai, a Susanita, menina fofoqueira que despreza os seus colegas, menosprezando a posição social deles, o que os seus pais ganham e o que têm em casa, assim como todos os outros personagens e suas diversas vozes que interagem, abordam temas e conceitos que tratam de atualidades pungentes nas nossas sociedades, tais como as frivolidades, a corrupção dos políticos, os maus governos, o não respeito aos direitos humanos, as dificuldades para a promoção da paz em um mundo que vive em guerra, dentre outras questões político sociais…

O blog da Escritos apresenta uma tira para provocar a reflexão sobre esse discurso no qual há uma mensagem de contestação e que clama por mudanças…

mundo

Em torno do livro de Gilson Lima. Ford, Fausto e Frankestein

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(Prefácio do livro “Nômades de pedra. Teoria da sociedade simbiogênica contada em prosas”, escrito por Gilson Lima)

Por Domenico De Masi

O que me fascina nos melhores ensaístas brasileiros é a capacidade de incorporar o pensamento europeu, americano, asiático, de metabolizá-lo, de reprocessá-lo e devolvê-lo completamente transformado, dotado de nova vida e de novo sentido. Lendo o livro de Gilson Lima, as referências feitas a Baudrillard, Bauman, Ítalo Calvino, Edgar Morin, Mac Luhan e outros, reencontra-se esta capacidade toda brasileira, toda pós-moderna de nos oferecer um todo que supera nitidamente a soma das partes que o compõem. Deste todo não é possível fazer-se uma apresentação global. Pode-se dele, assumir alguns pontos de partida para uma discussão cujo merecimento é totalmente de Gilson. Extraio alguns e raciocino sobre eles. O leitor é quem deverá julgar se as minhas considerações devem somar-se ou subtrair-se às de Gilson.

Da Masepotâmia à Mesopotâmia

O livro de Gilson Lima explora as interligações entre conhecimento científico e conhecimento humanista. Progresso científico e tecnológico organizacional, globalização, mass media e escolarização: por mais difícil que seja distinguir causas e efeitos em um processo inovador poderosos que produziu a passagem da sociedade industrial para a sociedade pós-industrial, estes cinco fatores, estritamente interligados, parecem-me, contudo, terem desempenhado um papel mais impulsionador do que impulsionado. Apesar de cada vez mais imperceptível, (e, segundo alguns, até já inexistente) o divisor de águas entre ciência e tecnologia, pode-se, contudo, ainda diferenciar, no âmbito tecnológico, alguns setores mais delimitados, como a energia, a eletrônica, a informática, a robótica, os novos materiais, as fibras óticas, as biotecnologias, os lasers, a farmacologia. Seria longo demais nos determos em cada um desses fatores e, portanto, nos limitaremos a observar o estado da arte e as prováveis perspectivas no desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação. Para construir este cenário, não considerando apenas o meu ponto de vista, mas através de uma perspectiva mais interdisciplinar, apresentarei alguns resultados de duas recentes pesquisas de simulação realizadas pela minha escola S3-Studium de Roma, com a participação de renomados especialistas italianos em economia, sociologia, engenharia, tecnologia, inteligência artificial, transporte telemático, psicologia e teologia.
Se observarem qualquer enciclopédia de ciência ou tecnologia na qual os autores e os temas são tratados em ordem cronológica, logo perceberão que toda a história, desde as origens até o século XVI, preenche, no máximo, um décimo dos volumes; o mesmo acontece com a história do século XVII e do XVIII. Os séculos XIX e XX absorvem o resto: os outros oito décimos do todo.

Hoje a ciência e a técnica se desenvolvem seguindo um ritmo mais do que acelerado, mas não foi sempre assim. As carroças, com as quais viajavam nossos bisavôs, tinham uma velocidade mais ou menos semelhante àquela dos carros assírios ou das bigas romanas. Os automóveis, no entanto, dobraram a sua velocidade no arco de setenta anos. Os microprocessadores, fiéis a lei de Moore, dobram a sua potência a cada dezoito meses. As fibras óticas a cada nove meses.

Não sabemos até quando ocorrerá esta progressão geométrica, tampouco há unanimidade sobre a data que marcou o seu início: alguns indicam o ano de 1971, quando foi aperfeiçoado o primeiro microprocessador; outros preferem assinalar 1995, quando, pela primeira vez, nos Estados Unidos, o número de computadores vendidos ultrapassou o número de televisores e, o número de mensagens enviadas via Internet, ultrapassou o número de cartas remetidas através do correio; outros ainda indicam diferentes datas e acontecimentos.

A experiência milenar nos mostra que o progresso técnico-científico alternou fases de grande desenvolvimento em algumas épocas, caindo em uma espécie de profunda letargia em outras. Após a grande proeza da Mesopotâmia, onde em poucas décadas foram inventados o arado e a roda, a irrigação e a astronomia, a matemática, a cidade e a escola, foi necessário esperar até o século XII, após Cristo, para termos novamente um período tão fecundo, no qual se acumularam invenções como o relógio, os óculos, o moinho de água, a indumentária moderna dos cavalos, a bússola, a pólvora, a imprensa e o leme.

E, hoje, qual é o estado de progresso da relação entre homem, tecnologias, informação e conhecimento? Quais novas relações vão se estabelecendo entre a dimensão econômica, aquela tecnológica, a individual e aquela social?

Pela primeira vez na história do planeta, um único modelo de vida, produzido nas universidades, nos laboratórios, nas empresas americanas está colonizando o mundo, não através de imposição armada, mas através da comunicação de persuasão dos mass media e da Internet.

Pela primeira vez, após milhares de anos, o epicentro da produção cultural deslocou-se da Mesopotâmia à Europa e da Europa para os Estados Unidos (será este o motivo pelo qual Bush filho, obedecendo a um irresistível reflexo condicionado, uma ancestral coerção a repetir-se, insiste em voltar para o Iraque com os seus exércitos?).

Hoje, pela primeira vez, somos capazes de construir máquinas que subsistem, não apenas à força muscular do homem, mas também à sua força mental e até à sua criatividade. Pela primeira vez, as biotecnologias conseguem decifrar e modificar o nosso destino genético. Pela primeira vez, graças às tecnologias da informação e da comunicação, as relações entre homens e coisas, entre homens e homens podem ocorrer de forma totalmente virtual, prescindindo da contiguidade física e dos artefatos táteis.

As consequências são perturbadoras, Em três gerações a longevidade mais do que dobrou; desapareceram milhões de empregos físicos e foram criados milhões de atividades intelectuais; a maior parte da população ativa trabalha em setores terciários; o tempo livre aumentou para a maior parte da população rica e abastada; as emoções e os sentimentos recuperaram terreno em relação à pura racionalidade industrial, todos os ramos da vida feminizaram-se; o tempo e o espaço desestruturaram-se; a qualidade da existência tornou-se objetivo prioritário para todo o Primeiro Mundo.

O digital inteligente

O livro de Gilson Lima explora a interligação entre setores maduros e setores dinâmicos. Nos Estados Unidos, no Japão, na Europa os governos tendem a apoiar a pesquisa fundamental nas universidades e a incentivá-las nas empresas, favorecendo férteis interações interdisciplinares entre academia e indústria.

É bastante provável que, nos próximos anos, a supremacia dos Estados Unidos em relação a outros países avançados continue, na maior parte dos setores de ponta da produção tecnológica, a orientar-se predominantemente em direção a duas áreas complexas: aquela da microeletrônica-informática-telecomunicações e aquela das biotecnologias.

De todas as formas, os sistemas voltados à pesquisa, à educação e à formação evoluirão em todo o mundo de modo sinérgico, cada vez mais enriquecidos por intercâmbios, pois o acesso à rede irá garantir uma distribuição cada vez eficaz das informações.

No futuro, cada vez mais presente, os setores mais dinâmicos serão aqueles das biotecnologias, das telecomunicações, da informática, dos novos materiais, dos serviços em rede. Os maiores esforços da pesquisa tecnológica irão se concentrar no âmbito da microeletrônica, dos aplicativos, inclusive os projetos system on chip e nas técnicas de computação da transmissão de dados via rádio e via novos sistemas de armazenamento de energia. As inovações e os progressos mais importantes estarão relacionados à difusão das tecnologias de comunicação digital, à criação dos sistemas para e-commerce, à realização dos primeiros objetos inteligentes, capazes de dialogar entre eles. Será, também, estimulada a inovação das tecnologias da virtualidade, dos sistemas de geração e uso do conhecimento, da formação, da instrução.

O aperfeiçoamento técnico-científico irá abraçar desde a eletrônica até a informática, das telecomunicações à energia e a mobilização em favor do meio ambiente: interações de redes móveis, palm-top computer/phone/tv; telas super finas, adequadas para a leitura prolongada de livros e documentos eletrônicos; novas centrais de cogeração limpas, eficientes e distribuídas, veículos com emissões próximas a zero; protótipo de edifícios do tipo energy building. No âmbito desta evolução complexa, desenvolver-se-ão novos sistemas de estágio à distância, editoração eletrônica e virtual, pay per view novos serviços sociais baseados na comunicação à distância; teletrabalho. Small, smart, self.

O marco que caracteriza o livro de Gilson Lima é o advento das Tecnologias de Informação e Comunicação (ICT). A ponta mais dinâmica da onda inovadora continuará a ser identificável nas tecnologias da informação e da comunicação, que constituem a categoria tecnológica mais relevante para difusão transversal. O rápido crescimento do uso de computadores e da Internet favorecerá a sua expansão para várias atividades, desde os serviços financeiros até o comércio à distância, do setor do jogo e do lazer até a formação, da comunicação até a gestão dos negócios. As políticas públicas, voltadas a favorecer a difusão do computador, darão a sua contribuição.

No âmbito das Tecnologias de Informação e Comunicação (ICT), os esforços se concentrarão predominantemente nos sistemas de arquivamento e memorização. Irá difundir-se também o ubiquitous computing, caracterizado pela multiplicidade de acesso e pela penetração e difusão dos sistemas de cálculo, os computadores, portanto, não serão mais identificáveis como objetos “visíveis”. Graças à interação cada vez mais estreita entre informática e multimedialidade, será usado o teleputer, que somará as funções de televisor, de telefone e de PC. Geralmente, terão maior sucesso as invenções para poupar tempo e para fazer as coisas de modo mais simplificado e cômodo.

A evolução das telecomunicações se fundamentará na passagem da atual conjunção dos sistemas óticos e eletrônicos à fotônica. Isto determinará a origem de importantes consequências em termos de capacidade de transmissão e de recaídas ambientais (a transmissão ótica total, por exemplo, evitará a contaminação eletromagnética). De modo geral, irá se confirmar a tendência de tudo o que é small, smart e self. No componente self será primordial a possibilidade das tecnologias informáticas de re-produzirem-se, re-ordenarem-se e, portanto, re-manterem-se.

Paralela à difusão dos computadores pessoais, recorrer-se-á mais aos supercomputadores que permitirão resolver difíceis problemas de cálculo. Na microeletrônica, em especial, continuará a valer a lei de Moore, segundo a qual a potência dos microprocessadores dobra a cada 18 meses. Continuar-se-á a trabalhar na simplificação de uso dos PC e na criação de novos softwares user fiendly, que permitirão uma difusão mais capilar do meio informático junto ao grande público.

Os novos produtos no setor da informática serão principalmente os componentes e materiais para processadores: tanto aqueles identificáveis como tal, como os encontrados em todos os objetos de uso quotidiano.

No âmbito dos componentes criar-se-ão, simultaneamente, tecnologias ligadas aos materiais, à produção de nanotecnologias, aos componentes baseados em micro e nanoestruturas, às fibras óticas e, quanto à alimentação, à baterias com baixíssimo consumo do tipo lítio-polímero ou baterias nucleares.

Na área dos microprocessadores consolida-se o uso do cobre para as interconexões internas e aprimora-se o atual padrão de resolução fotolitográfica.

Enquanto se unificarão em sentido multimedial todos os terminais hoje disponíveis, a capacidade cada vez maior de processamento e transmissão das informações, via rádio e ótica, dará vida a instrumentações cada vez mais poderosas para a transformação de sons e imagens. Além do que, inúmeros sistemas (desde a máquina de lavar até o forno, o freezer, o automóvel) incorporarão progressivamente o chip e os processadores aptos a dialogar entre eles e com suprassistemas em rede. Estes últimos irão governar o tráfego de informações e de bens em função dos parâmetros de otimização do sistema como um todo.

Como já ocorre, a capacidade de memorização nos dispositivos eletromagnéticos de acesso direto, dobrará a cada ano permitindo armazenar enormes quantidades de informações digitais em dispositivos como máquinas fotográficas e telefones celulares. Os mesmos avanços acontecerão também em suportes de memória de faixa alta, necessários às diversas organizações socioeconômicas para memorizar e acessar instantaneamente o crescente número de informações.

Os avanços nas nanotecnologias permitirão construir memórias eletromagnéticas de acesso direto, capazes de conter milhões e milhões de caracteres processáveis a altas velocidades. Aparecerão novos sistemas de comunicação, inclusive vocais, com os objetos que nos rodeiam.

Velocidade imóvel

O livro de Gilson Lima insiste na relação entre lentidão e velocidade. No futuro próximo, as criações no setor das telecomunicações serão paralelas àquelas da informática e profundamente condicionadas por esta. A convergência entre microeletrônica, telecomunicação, informática e rede, oferecerá resultados possíveis de serem diferenciados apenas em nível terminal.

No setor das ICT, os progressos mais evidentes se manifestarão no âmbito da incidência sobre os novos produtos-serviços. A integração entre microeletrônica, digitalização, telecomunicação e rede, levará à criação de terminais inteligentes que integrarão imagem, som e informação, tendendo a assumir dimensões e funcionalidades específicas em relação às proporções de dimensão física e à potência técnica desejável dos três componentes constituídos por televisão, computador e telefone.

Já se encontram no mercado celulares que navegam na Internet Wap, notebook integrados por cabo Wap, telefones fixos que navegam na Internet, TV utilizável como um centro doméstico de comunicação e entretenimento global. Mais adiante, o progresso no campo das Tecnologias de Informação e Comunicação (ICT), graças, sobretudo, ao desenvolvimento dos sistemas satelitares, poderá atender outros requisitos de mobilidade com acesso à rede mesmo para “analfabetos informacionais”, homogeneidade do meio com unificação dos sistemas.

Mais de um bilhão de pessoas podem usufruir da Internet, valendo-se tanto de modalidades cada vez mais rápidas e simples de acesso, como da difusão de comunicações Intranet e Extranet, dentro de empresas individuais ou agrupadas.

Já estão sendo desenvolvidas novas funções telemáticas, caracterizando-se por baixos custos, altas velocidades e maior facilidade de uso, com notável vantagem, sobretudo para os serviços utilizáveis diretamente na rede, sem deslocamentos físicos. Em médio prazo, o desenvolvimento das redes, cada vez mais complexas e interligadas, determinará um metassistema constituído por uma rede de redes, cuja principal tecnologia será referente à conexão, à interface e ao controle.

A Internet conseguirá incorporar uma quantidade cada vez maior de inovações tecnológicas. Sobretudo, graças aos canais de banda larga e ao software de compressão de sinais será possível uma maior circulação de informações, maior capacidade de comunicação bidirecional para cada tipo de informação, inclusive imagens, filmes e sons, maior capacidade de comunicação em conexão contínua com modalidades de análise das informações enviadas e recebidas, maior transferência de grandes volumes de dados com custos de geração decrescentes e com a eliminação de custos de duplicação.

A velocidade de transmissão continuará a aumentar e a rede Internet de banda larga verá novos artefatos e conectores de rede, totalmente diferentes dos atuais PCs. Aparecerão, de fato, agentes de software para pesquisas de conteúdos específicos em grandes bancos de dados, para a compressão, filtragem e síntese das informações. Tais instrumentos permitirão também a percepção espacial das imagens.

Graças aos avanços da rede, no setor informático realizar-se-ão progressos no cálculo paralelo baseado no uso coordenado de computadores remotos. O uso da rede para operações computacionais difundidas pedirá velocidades cada vez maiores, mas também, uma estratificação dos diversos tipos de usuários. Graças a resolução dos problemas ligados à propriedade intelectual e aos custos, a Internet e a rede se enriquecerão de informações de qualidade. A Internet se adequará às exigências de maior “significado” do conteúdo, enquanto que a informação será organizada de modo eficaz, facilitando a sua consulta. Ademais, no mundo da Internet, será melhorado o desempenho dos motores de pesquisa, será alcançada uma maior velocidade de acesso aos dados e de processamento das informações. Seremos cada vez mais rápidos permanecendo imóveis.

Redes e clones

O livro de Gilson Lima compara Ford e Frankestein, as vantagens do passado e aquelas do futuro.

Quase todas as novas tecnologias serão inseridas com naturalidade em nossa vida, adquirindo cada vez mais uma dimensão humana e terão um efeito de penetração à medida que os usuários delas se apropriarem. Em longo prazo, a evolução tecnológica, e, sobretudo, a digitalização da informação, terão efeitos revolucionários na qualidade da vida e do trabalho, no meio ambiente, na sociedade, na economia, no próximo avanço tecnológico, na política. Mudarão substancialmente as maneiras de educar-se, de trabalhar, de comunicar, de usar o tempo livre. Enfim, de viver.

Os contínuos avanços no campo das Tecnologias de Informação e Comunicação e das biotecnologias permitirão ao homem um contínuo confronto consigo mesmo, com os próprios desejos, com os seus medos, com os anseios de liberdade.

O mercado que nos espera é o das classes secularizadas, aptas a mover-se agilmente entre sistemas informáticos e computadores. Prevalecerá a cultura dos “menus”, dos teclados, da Internet, das decisões diretas e pessoais lá onde antes tinham grande êxito os consultores e os economistas.

Multiplicar-se-ão os mecanismos que nos acompanham no decorrer do dia, e aumentará a informação disponível a todo o instante, influenciando profundamente a esfera emocional e aquela dos valores.

As transformações tecnológicas permitirão participar em tempo real, dos acontecimentos no mundo, mas oferecerão tal abundância de informações que deverão aumentar o stress, comprometendo a capacidade crítica. Correr-se-á, desta forma, o risco de perder os pontos de referência e a exata avaliação do que podemos efetivamente fazer, aumentando a ”síndrome do espectador passivo” que atua sem agir corretamente.

A redundância de informações implicará em dificuldades para processá-las e dominá-las. Aumentando, assim, o número dos “intérpretes” que trabalharão para transmitir a informação depois de recenseada e resumida, com grande perigo de equívocos interpretativos. Paralelamente, aumentará a desconfiança em relação aos donos do novo conhecimento.

Por mais que a tecnologia possa melhorar a vida humana, haverá contudo, reações de rejeição determinadas, acima de tudo, pelo medo latente do desconhecido. Aguçada pela pobreza de cultura geral e pelo excesso de notícias.

Entre todos os fatores das mudanças, a biologia e as tecnologias da rede terão impacto maior na opinião pública. Frente às grandes transformações, as próprias palavras “redes” e “clones”, uma evocando a esfera social e a outra a esfera individual, incutirão mais medo do que confiança, mais isolamento do que solidariedade.

A rede será sinônimo, para alguns, de esperança de um Mundo Grande, para outros isolamento e controle exercido já não mais por um Grande Irmão, mas por uma miríade de pequenos irmãos, internos e externos a nós mesmos, que nos reduzirão a números e a perfis de consumo.

Ultrapassados Taylor e Ford, voltarão, insistentemente, Fausto e Frankestein: metáforas inquietantes da relação entre o homem e a tecnologia.

O telefone celular, a televisão e a Internet já redefiniram a nossa relação com o espaço e com o tempo, determinando um sentido de ubiquidade.

O aumento constante da potência dos computadores mudou a nossa percepção do mundo. É muito provável que a adoção de tecnologias cada vez mais novas, comporte uma maior dependência ao consumo, uma maior tolerância em relação à diversidade, feedback mais rápido e intenso, rápidas mudanças de opinião, aparecimentos de novos lobby sociais e novos grupos de pressão, desagregação das comunidades tradicionais baseadas na contiguidade espacial, reestruturação de novas comunidades fundamentais no compartilhamento de gostos, interesses e crenças, busca de soluções “sob medida”, tanto para bens como para serviços.

O bem-estar dos nômades sedentários

O livro de Gilson Lima nos guia através das vantagens e das desvantagens da pós-modernidade. Nos países ricos, se acentuará a busca do bem-estar no trabalho, no lazer, no turismo, no estudo, na comunicação, na saúde, na estética, no comportamento e nas interações.

A necessidade de um bem-estar cada vez maior irá determinar um impulso para a invenção de tecnologias adequadas, capazes de oferecer um novo e complexo produto: a qualidade da vida e os novos luxos como a disponibilidade de tempo, espaço, autonomia, segurança, beleza, simplicidade.

As tecnologias informacionais serão utilizadas para melhorar a gestão do meio ambiente e para introduzir simplicidade na complexidade, permitindo gerir situações que seriam de outra forma insustentáveis e tornando compatível o progresso econômico com o desenvolvimento. Como o telescópio no século XVII, permitiu examinar o infinitamente pequeno, assim o computador permitirá examinar o infinitamente complexo. As tecnologias da informação e da comunicação permitem que se estabeleça relação de distância planetária, sem dar um passo.

Podemos ser, ao mesmo tempo, globais e locais, homologados e idênticos, ubíquos e isolados, nômades e sedentários. A rede permite adotar modelos novos de comportamento, que permitem estabelecer física das partes.

Junto às novas oportunidades de intercâmbio, conhecimento, integração e diversão, a sociedade da informação irá criar, também, mais solidão, permitindo realizar muitas coisas em isolamento, sem as formas tradicionais de convívio. Poderão, contudo, surgir novas formas de socialização, que oferecerão, sobretudo aos jovens, espaço para expressar-se no maior tempo livre. É, porém, provável, que prevalecerão microcomportamentos egocêntricos e alienados. Se a tudo isto acrescentarmos o stress da vida urbana, não é difícil prever um aumento de patologias psíquicas e psicossomáticas. Especialmente nas cidades grandes, os indivíduos terão dificuldade de gerir a dinâmica da própria personalidade e das próprias relações com os outros, sofrerão de solidão e de isolamento, viverão mal as próprias experiências.

Excluídos e integrados

O livro de Gilson Lima indica as novas formas de exclusão. As oportunidades em virtude do aumento das informações disponíveis serão captadas em diferentes medidas, segundo as capacidades socioeconômicas, culturais, críticas, de filtragem e de seleção de cada indivíduo.

Em longo prazo, a adoção de novas tecnologias implicará numa forte divaricação entre o mundo dos excluídos e dos integrados, dos conscientes e dos inconscientes. As pessoas envolvidas na adoção de novas tecnologias privilegiarão valores e modelos de comportamento, aptos à obtenção de riqueza e de sucesso, assim como a opinião pública comemorará os sucessos do empreendimento triunfante.

Os excluídos conscientes sofrerão grandes frustrações, pois terão a percepção de ter errado o local, a família, os estudos e o trabalho. Os excluídos inconscientes viverão à margem do sistema social, longe dos centros nevrálgicos sentidos, sobretudo, através da televisão e da Internet.

A rede difundir-se-á especialmente nos países avançados, entre grupos sociais mais instruídos e em algumas ilhas dinâmicas de áreas subdesenvolvidas, enquanto caminhará mais lentamente lá onde haverá maior necessidade. Grande parte do tráfego da Internet continuará a concentrar-se em sites idealizados no Primeiro Mundo, que funcionarão como difusores do modelo cultural dominante.

A possibilidade de navegar em rede pressupõe a alfabetização informática, o domínio de idiomas, uma boa cultura geral. Trata-se, portanto, de mais uma vantagem reservada aos já favorecidos: pessoas de maior nível escolar e conhecedores de línguas, propensas ao uso da tecnologia, competitivas, ricas a ponto de poder adquirir hardware e software sofisticados, poderosos e atualizados, pessoas inovadoras, estudantes e professores, religiosos, operadores do mundo financeiro, da mídia e do entretenimento.

Portanto, todo o indivíduo e todo o grupo, com base no próprio sistema de valores e no próprio modelo cultural, será mais ou menos capaz de compreender as vantagens da informática, de motivar-se a usá-la e dela rapidamente apoderar-se. Mas depois, será o nível cultural que determinará o seu sucesso profissional, o seu grau de satisfação, a sua aceitação ou a sua rejeição às inovações. Por sua vez, a cultura necessária inclui conhecimentos específicos, curiosidade intelectual, flexibilidade, abertura para o diferente, capacidade de introduzir novidades tecnológicas dentro de projetos globais, dar sentido aos conhecimentos e às habilidades, às opiniões, às atitudes, às emoções e aos sentimentos.

A identidade contaminada

O livro de Gilson Lima nos faz entender quanta identidade cultural é destruída pela homologação, quanto localismo é destruído pela globalização.

Um dos maiores riscos será a perda da identidade, em virtude da contaminação provocada pelas inovações cada vez mais frequentes em nível internacional. Para enfrentar a homologação, poderá aguçar-se a reivindicação das identidades coletivas nos nacionalismos e nas etnias.

No in-group, contudo, poderá também se manifestar a perda das raízes e dos valores com o consequente “canibalismo” social que impulsionará para a procura da afirmação pessoal, mesmo em prejuízo dos outros. A desestruturação social, ou melhor, a falta de órgãos designados a intermediar entre o interesse individual e aquele coletivo, favorecerá por sua vez um aumento do individualismo. O individualismo, por outro lado, não significará originalidade e subjetividade dos comportamentos. Haverá, aliás, um achatamento nos modos de vida, nos ideais e na cultura. Portanto, não obstante um aumento da eficiência em todas as manifestações da vida econômica e social, o conteúdo da própria vida poderá empobrecer-se mais, sem que se desencadeie uma reação contra esta deprimente tendência.

Ética, estética, neurose

O livro de Gilson Lima nos coloca frente às exigências e aos custos da sociedade pós-industrial. A estética estará ligada à evolução tecnológica e aplicar-se-á cada vez mais aos seus instrumentos. Serão, sobretudo, as cidades a serem envolvidas em uma transformação do gosto e a acolher a instância estética, tornando-se mais funcionais ao uso das tecnologias da informação e, ao mesmo tempo, mais belas.

Nas cidades digitais e tecnológicas, dar-se-á especial atenção à qualidade da vida, ao meio ambiente, à bioarquitetura. Novos instrumentos de imensas potencialidades permitirão simulações de impacto ambiental que poderão ser utilizadas toda vez que se desejar inserir novos elementos no âmbito paisagístico.

A dimensão estética não será reduzida a um excesso ornamental e não funcionará apenas como invólucro das inovações, mas tornando-se por si só substância, terá o seu papel acentuado nos produtos, na comunicação, nos cuidados com o corpo.

A questão da ética ligada à privacidade será cada vez mais importante, porque serão cada vez maiores as possibilidades tecnológicas de violá-la. Um objetivo fundamental a ser alcançado será o equilíbrio entre a proteção dos dados individuais e a sua livre difusão na rede.

As inovações poderão provocar o que é definido como short attention, atenção parcial, mas também transversal em várias atividades: o indivíduo, submetido a uma série de impulsos simultâneos, irá dirigir o automóvel, escutará o celular, o rádio, a criança que fala com ele, olhará para as placas de trânsito. E assim em todos os momentos do dia. Tudo isto nos tornará mais neuróticos, menos reflexivos, mas também mais reativos e em prontidão. Sobretudo os jovens assumirão esta atitude de concisão, movidos pelo contexto tecnológico para ser pulsante, estarem em prontidão, serem transversais e dispersivos.

Privação e tensão

O livro de Gilson Lima coloca no centro os problemas da comunicação e da linguagem. A difusão das novas tecnologias aumentará a mobilidade social, muito mais do que ocorreu no passado. A progressiva substituição dos guichês físicos pelos sites eletrônicos melhorará as relações com o Estado e transformará o cidadão de simples consumidor de serviços para gerador de informações.

Ao mesmo tempo, criar-se-ão novas formas de exclusão, novas classes de desfavorecidos e novas pobrezas. O acesso à rede e à informação não garantirá nem a igualdade, tampouco a equidade. Agravando-se, assim, por exemplo, o gap geracional e, tornando-se ainda mais gritante, a distância entre os jovens e os idosos, justamente quando há um aumento na duração média de vida e a melhora da saúde possibilitaria o emprego socialmente útil dos idosos. Aumentarão, portanto, o mal-estar social e as tensões entre quem conseguir entrar na nova dimensão técnico-econômica e quem ficar fora dela.
O uso das novas tecnologias determinará novos modelos de linguagem, tanto escrita como verbal. A gramática e a sintaxe serão simplificadas. Será acentuada a passagem de uma cultura, principalmente baseada na escrita e na imprensa, a uma centralizada, principalmente nas imagens. A rede irá também, impor a sua linguagem para a mídia tradicional. Neste panorama, os grupos editoriais e de comunicação tenderão a tornar-se cada vez mais integrados, através de acordos e fusões para realizar e oferecer toda a informação e não apenas uma parte dela.

A informação será cada vez mais interativa, on demand: atenderá, desta forma, a interesses e necessidades subjetivas, até momentâneas. Transformará os produtores de informação em fornecedores de menu, de listas de assuntos dentro dos quais cada um escolherá o que lhe interessa, segundo exigências próprias e a própria disponibilidade de tempo. Afirmar-se-ão, então, os serviços de informação e comunicação personalizados.

O sistema fundamentado na participação democrática poderá se enfraquecer em todo o mundo ocidental, mesmo porque a tecnologia continuará a impelir para um modelo de consumo exacerbado. O desinteresse em relação ao mundo da política, aos valores civis e sociais aumentará o risco da autocracia, do golpe de mão, de novos autoritarismos. Por seu lado, a Internet, não conseguirá, sozinha, alimentar um debate entre os cidadãos. Contudo, a adoção das tecnologias da informação favorecerá uma democracia direta, real time, renunciando à delegação e à representação. Poderão nascer consequências desastrosas para a vida democrática com a formação de maiorias ocasionais e vulneráveis.

A participação social e política aumentarão somente onde houver fortes contraposições ideológicas do tipo religioso, como, por exemplo, aquelas provocadas pelo fundamentalismo islâmico e pela religião católica em relação às biotecnologias.

Tal desinteresse não acarretará sérios problemas enquanto a economia estiver indo de vento em popa, em caso de recessão: o desprezo dos cidadãos em relação à política e dos seus representantes, poderá provocar um nível de alerta. Na prática, não apenas a economia irá se sobrepor à política, não apenas as finanças irão se sobrepor à economia, mas a política funcionará como bode expiatório em relação a ambas.

As tensões sociais se intensificarão e coagular-se-ão em formas de oposição que expressam, de um lado, a necessidade de revisão do welfare states; do outro, a exigência de maior peso à dimensão social e à solidariedade.

O conhecimento se concentrará cada vez mais onde houver altos investimentos econômicos com retorno imediato, estruturas escolares eficientes, elevada consciência social. Enquanto os conhecimentos ligados à pesquisa científica e ao modelo operacional da ciência estarão mais concentrados, os conhecimentos ligados à rede e aos novos modelos de comunicação e estarão mais distribuídos. Isto permitirá uma formação mais ampla e mais superficial, que tornará os jovens menos aptos para a análise, aprofundamento, crítica e debate em relação às gerações anteriores.

Aumentará a distância, que já se denota, entre a fraca difusão da cultura técnica e humanista e a forte penetração da cultura de massa, posto avançado da mercantilização. O conhecimento técnico inovador prevalecerá sobre aquele humanista, com o risco de uma perda da capacidade de síntese e dos instrumentos culturais, necessários para expressar a própria identidade e os próprios conhecimentos. Por outro lado, o uso das tecnologias irá requerer justamente pela velocidade da mudança, aquela flexibilidade e bioarquitetura que apenas a cultura humanista pode dar.

A formação de base, se organizada adequadamente, poderá ser enriquecida pelo contato on-line dos docentes, orientadores e testemunhas renomadas. Os docentes deverão também, adequar as metodologias didáticas às mudanças trazidas pelas novas tecnologias e haverá novos mecanismos de feedback interativos para permitir o controle dos resultados da aprendizagem.

New e Net

O livro de Gilson Lima examina as relações entre interconexões e economia. O desenvolvimento das tecnologias informáticas influenciará a economia, impelindo-a em direção às estruturas cada vez mais adequadas ao fornecimento de produtos-serviços específicos e especializados, orientados para os chamados “micromercados de massa”. Ao mesmo tempo, o processo de globalização econômica implicará na concorrência em todos os mercados, na busca dos grandes números, numa forte tensão em relação aos serviços para a pessoa e aos bens de consumo.

As novas tecnologias permitirão alcançar instantaneamente, em nível global, empresas e cada indivíduo, eliminando as mediações e transformando os incrementos quantitativos em mudanças qualitativas.

O cidadão será cortejado com o objetivo de conhecê-lo e depois contatá-lo com ofertas orientadas de bens e serviços que ele próprio contribuirá para melhorar e aperfeiçoar. As interações com os clientes se tornarão muito mais frequentes e personalizadas, fornecendo a base para relações espontâneas, a customer intimacy de longa duração.

Em curto prazo, a velocidade e a interligação das transformações dependerá, sobretudo, da net-economy, baseada na intangibilidade das entidades econômicas permutadas. A net-economy, ou seja, o conjunto de empresas que operam nos business da Internet, das telecomunicações e da mídia, introduzirá profundas modificações nos mercados, onde se aguçará o desafio entre empresas tradicionais e empresas inovadoras, dotadas, sobretudo, de um patrimônio de informações.
Na old economy, será líder quem se organizar globalmente, oferecendo novos modos de trabalhar aos próprios colaboradores, novos modos de comprar aos próprios clientes, novos produtos ao mercado. Mas, de modo geral, a net e a new economy estimularão a superação das usuais diferenciações de setor, dimensão e localização das empresas.

A difusão das tecnologias da informação e da comunicação influenciará tanto o modo de produzir como os conteúdos da produção.

A informática, as telecomunicações, os métodos de planejamento e de produção assistidos pelo computador tornará possível deslocar onde for mais conveniente, atividades produtivas até muito elaboradas e complexas, com base na demanda do mercado. As empresas deverão, portanto, adaptar-se prontamente a esta nova situação, sob pena de serem marginalizadas da competição global.

Quanto aos grupos socioeconômicos, assistirão a uma dupla tendência: de um lado, continuará a forte concentração do sistema industrial e produtivo, de outro, acontecerá o desenvolvimento simultâneo de mini e microempresa.

As oportunidades de trabalho deslocar-se-ão novamente dos setores manufatureiros às atividades de serviços para as empresas. Esta tendência será facilitada tanto pelo desenvolvimento de atividades em rede, como pela evolução tecnológica dos distritos industriais, e cada vez menos ligados a um território limitado e cada vez mais envolvidos no uso das tecnologias da informação e da comunicação.

A economia virtual tenderá a desenvolver-se cada vez mais e, as relações econômicas virtuais, aumentarão em comparação às relações econômicas tangíveis. Como consequência, toda a economia direcionada a atender as exigências destas relações virtuais se beneficiará em relação ao resto da economia, ampliando desta forma o desequilíbrio entre serviços fornecidos pela infraestrutura física e serviços fornecidos pela infraestrutura de telecomunicações, entre o intercâmbio de átomos e o de bit.

A infância perpétua

O livro de Gilson Lima nos coloca frente aos perigos que a economia traz à democracia. As transformações epocais que abordamos são apenas hipóteses, mas com alta probabilidade de realizarem-se. Elas não se originam de uma pesquisa endógena e simultânea de todos os povos do planeta. Alguns países foram conquistando o monopólio da produção de ideias e de patentes, apostaram nos laboratórios científicos, nas universidades, nos bancos de dados, nas editoras, nas produtoras cinematográficas, na hegemonia no campo da informação e da comunicação, foram despejando noutros lugares as produções materiais, fatigantes, poluidoras, pouco rentáveis. Outros países viram chegar em seus territórios estas fábricas manufatureiras do Primeiro Mundo e viram a eles conferido o papel de países emergentes, produtores de bens materiais. Outros ainda permaneceram estagnados na condição de Terceiro Mundo e, para consumir os retalhos dos países mais favorecidos, tiveram que fornecer a própria mão de obra a baixo preço, aceitar a subordinação política, emprestar as próprias bases militares.

Conforme vimos, segundo as pesquisas de simulação, parece bastante provável que, pelo menos no futuro próximo os ricos, os cultos, os competitivos serão cada vez mais ricos, cultos e competitivos, os pobres ficarão cada vez mais pobres, ignorantes e indefesos, pois as áreas do mundo que conseguirão apropriar-se das maiores vantagens das inovações científicas e tecnológicas serão, em síntese, aquelas já desenvolvidas.

Aumentarão os desequilíbrios demográficos; as faixas desfavorecidas serão sempre as menos protegidas; a contraposição prevalecerá sobre a cooperação; o equilíbrio do ecossistema será cada vez mais ameaçado por um uso desastroso dos recursos energéticos. A menos que uma nova ordem social seja pretendida e obtida pelos povos prejudicados atualmente. Estamos, portanto, em uma trágica encruzilhada: se crescer a consciência e a indignação dos “Condenados da Terra”, os conflitos se tornarão ingovernáveis, mas poderão levar a uma redistribuição, finalmente, justa da riqueza, do trabalho, do conhecimento e do poder. Se prevalecerem a inconsciência e o descomprometimento, o peso do gênero humano no ecossistema superará a capacidade que a natureza possa absorver.

As novas ameaças à democracia nascerão, justamente através das tecnologias que, se usadas de forma correta, poderiam incrementá-las. O seu impacto poderá acelerar as sequelas brilhantemente temidas quase dois séculos atrás por Alexis de Tocqueville, um dos pais do pensamento liberal, quando, no segundo livro da Democracia na América, explicava as possíveis causas tanto do aumento das diferenças como da total homologação. Quanto ao primeiro perigo, escrevia: “Politicamente, nada me preocupa mais do que estes novos sistemas industriais… Enquanto o operário limita cada vez mais a sua mente estudando um único particular, o patrão expande-se, a cada dia, nos mais amplos horizontes. Logo mais, ao primeiro bastará apenas a força física sem inteligência, enquanto que para o segundo será necessária muita ciência e assim como genialidade para alcançar o sucesso. Um se assemelhará cada vez mais ao administrador de um vasto império e o outro cada vez mais a um animal… é desta porta que a democracia deve temer um retorno à aristocracia e à desigualdade social”.

Se o termo “operário” for substituído pelo de “habitante do Terceiro Mundo” e o termo “patrão” for substituído pelo de “habitante do Primeiro Mundo”, a análise de Tocqueville adquire uma extraordinária atualidade.

Quanto à possível homologação originária do maquinismo e das sociedades industriais, Tocqueville escrevia: “Se procuro imaginar o despotismo moderno, vejo uma multidão desmedida de seres semelhantes e iguais que giram ao redor deles próprios para conseguirem pequenos e mesquinhos prazeres dos quais se nutre a sua alma. Cada um deles, tomado em separado, torna-se um estrangeiro diante dos outros. Os seus filhos e os seus amigos constituem para ele toda a humanidade. O resto dos cidadãos está ali, ao seu lado, mas não o vê; vive só para si e em si. Se ainda existe a família, não há mais a pátria. Acima desta multidão vejo erguer-se um imenso poder tutelar, que se dedica sozinho a garantir o bem-estar aos seus súditos e a velar pela sua sorte. É absoluto, minucioso, até clemente. Assemelhar-se-ia ao poder paterno se tivesse o objetivo, como aquele, de preparar os homens à virilidade. Mas, ao contrário, procura apenas mantê-los numa infância perpétua”.

Enfim, o progresso tecnológico, separado do desenvolvimento humanista, permitirá produzir mais riqueza e mais cultura, mas não saberá distribuí-las de modo equânime. O risco, contra o qual teremos que lutar com todas as nossas forças é que, embora haja um crescimento exponencial da eficiência em todas as manifestações da esfera técnica e econômica, o conteúdo e o significado da própria vida empobreçam cada vez mais e o incremento da riqueza ocorra em detrimento de necessidades radicais como a reflexão interior, a amizade, o amor, o jogo, o convívio.

Mais uma vez, a salvação do gênero humano está entregue à humana criatividade.

Roma, janeiro 2005.

Dez curiosidades sobre Gonçalo Tavares

Por Escritos

Gonçalo M. Tavares é um escritor biologicamente jovem, 45 anos, e maduro em termos da literatura – já recebeu vários prêmios importantes: Prêmio LER/MillenniumBCP 2004, Prêmio José Sara­m­ago 2005, Prêmio Por­tu­gal Tele­com 2007, Prêmio Inter­nazionale Tri­este 2008 e Prêmio do Mel­hor Livro Estrangeiro (França) 2010, entre outros. Considerado um dos melhores escritores portugueses contemporâneos, tem mais de trinta livros publicados, sendo muitos deles traduzidos em trinta e cinco países.

gtavaresIniciou lendo na biblioteca de seu pai, depois foi construindo a sua própria. Para o escritor a biblioteca lida, que cada um constrói, é como se fosse o seu próprio percurso.

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Fotografia e arte…

Por Escritos

Aqui se trata de refletir sobre a fotografia (photós – luz / graphía – escrita = escrita da luz) como arte no vasto campo da arte e dos artistas. A arte, independente de quem a cria e de quem a contempla, mobiliza devires e sensações. É uma transgressão capaz de produzir o diálogo entre o estabelecido, sua ruptura e o novo. Livre do estilo, do olhar, do tempo… a arte é atemporal. Ela é comunhão, partilha… O diálogo entre as obras de todas as épocas e de todos os lugares alimenta a criação.

A maneira de ver e de fazer, o olhar do artista, o que ele mostra com a sua arte, determinam a sensação de quem contempla. A imagem fotográfica pode revelar, com a mesma intensidade da pintura, a alma do autor, seus sentimentos, a busca infinita de si mesmo… O jogo de claro e escuro, de luz e sombra joga o contemplador nos confins do humano. Não é qualquer imagem fotográfica que pode ser considerada arte. Fotografias existem muitas e existem muitos fotógrafos com habilidades técnicas excepcionais.

Foto de Cartier Bresson .
Foto de Cartier Bresson .

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