Apresentando Kai

Por Ana Maria Dischinger Marshall

Apresentar um texto como KAI é um desafio que mobiliza razões e emoções desenvolvidas ao longo do trabalho de revisão do mesmo, o qual se estendeu pelas 3as e 5as feiras à tarde, por mais de um ano, na residência do simpático casal de filósofos, Carlos Cirne Lima e Maria Tomaselli Cirne Lima.

Foi muito divertido conversarmos, divergirmos e chegarmos a conclusões sobre a ortografia, o conteúdo e a vida muito encantadora dessa escritora. A começar pela originalidade dos títulos, a variedade caleidoscópica dos temas e sua distribuição ao longo da narrativa, leremos a história de Maria, a austríaca que compreende, produz e convive em uma cultura um tanto diversa daquela onde viveu seus primeiros 20 anos Este período inicial de sua vida, nos traz, com clareza e profundidade, a riqueza das relações familiares, muito bem sintetizadas em frases como “Minhas duas avós jamais poderiam imaginar que uma de suas netas iria viver num país tropical com vegetação exuberante e comida farta.” Aqui estão implícitas as dificuldades que os europeus enfrentaram, atravessando duas guerras e sobrevivendo a elas sempre que possível. Com recursos provindos sabe-se lá de onde. Talvez da realidade biológica de que o homem é o ser que mais se adapta ao meio, e, portanto ás circunstâncias nele envolvidas.

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Fotos de família. A imagem que permanece

Por Escritos

Em geral, todos gostam de tirar fotografias, de criar e recriar imagens, mas poucos param para refletir sobre elas. Entretanto, a fotografia é uma linguagem, um fecundo meio de expressão. Ela não é espelho, analogon do real ou mimese da realidade. Como esclarece Dubois, culturalmente codificada, ela é um instrumento de transposição, de análise, de interpretação e até de transformação do real – um ato de investimento de sentido. Ela é uma forma de construir e comunicar relações familiares, experiências, enfim, um mundo.

Aniversário de 80 anos de Vô Cirne (Elias Cirne-Lima).

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Três perguntas sobre o corpo torturado

(Prefácio do livro “O corpo torturado”, organizado por Ivete Keil e Marcia Tiburi)

Por Maria Rita Kehl

 
1. O que é um corpo?

A leitura dos excelentes ensaios que compõem este livro despertou em mim a pergunta, aparentemente absurda. Quem não sabe o que é um corpo? Sede de vida, organismo capaz dos mais variados movimentos e uma infinidade de trocas com o meio circundante; conjunto de órgãos em funcionamento recoberto por um superfície elástica e sensível que delineia uma forma mais ou menos estável a partir da qual um indivíduo se reconhece e se representa para os outros.

Mesmo um corpo em mau funcionamento, doente, restrito em seus movimentos e em sua capacidade de trocas com o meio continua sendo um corpo. Um corpo deformado por doença ou acidente, em cuja imagem o indivíduo custa a se reconhecer e evita apresentar-se aos outros, ainda é seu corpo. Um corpo que se contorce no extremo da dor ainda é um corpo. Um corpo morto é um corpo: chamamos de corpo o cadáver que a vida já abandonou. Um corpo ferido, torturado, esquartejado, virado do avesso, rompida a superfície lisa e sensível da pele, expostos os órgãos que deveriam estar bem abrigados – ainda assim isso que nos aproxima do horror e nos remete ao limite do Real continua sendo um corpo.

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Kai – a memória partilhada – e uma entrevista com a autora

Por Escritos Editora

Kai, escrito por Maria Tomaselli, filósofa e artista plástica, e que está sendo lançado pela Escritos Editora, é um livro de pura sensibilidade. Nele a autora mergulha em suas lembranças para partilhar com outras pessoas alguns fragmentos recolhidos de sua vida. Viver situações notáveis, grandes paixões, algo extraordinário, lembrar pedaços de referencialidades e contar em escrita a vida ordinária amplia a experiência de quem lê e a narrativa ganha um valor social. A vida vivida por Maria Tomaselli e por ela narrada no Kai testemunha um tempo que é coletivo.

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Teatro do absurdo. Poucas notas

Por Escritos Editora

O Teatro do absurdo escancara o despropósito da busca humana pelo sentido objetivo da existência. Busca esta humanamente impossível. Para os seus autores, o preenchimento do sentido da vida só é possível por um ato de ilusão. O herói do Absurdo é um atormentado pela angústia metafísica decorrente da condição humana, absolutamente absurda, e um condenado ao sem sentido. A visão trágica e o desamparo do humano abandonado em um mundo vazio revela o niilismo aí presente.

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Imagem de encenação da peça “Esperando Godot” de Samuel Beckett.

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