A Feira do Livro – a poesia em qualquer canto

Por Escritos
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Em Porto Alegre não são apenas as flores que animam a primavera, mas também a Feira do Livro. A Feira é transitória, aparece anualmente como um refúgio ao caótico urbano, tecendo uma narrativa no contexto do encontro entre leitores, escritores, amantes da escrita e da leitura e flanêurs. Flanêurs em busca de experimentações urbanas – do transitório na cidade, captando aparições casuais… Seja como for, ela traz sentimentos agradáveis ou não.

Apesar do seu objetivo maior ser em torno do livro, ela também transforma o urbanismo, a arquitetura e a cidade… acentuando a sensibilidade – tudo isso torna a cidade mais humana no período da Feira, potencializando a liberdade ou, pelo menos, o sentimento dela.

A Feira é inspiradora e transforma a praça numa moradia.

O outro lado de uma cidade

Por Patrícia Belmonte*

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Andando pelas ruas da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, infelizmente não sou acolhida somente pelas suas belezas, paisagens e ruas arborizadas. Existe um contraste impiedoso que chama muito a atenção e que causa grande transtorno aos moradores desta, diante da falta de priorização a estes problemas. Um lado devastado, triste e que tem exigido da população uma incessante batalha em busca de resoluções perante aos órgãos responsáveis pela cidade.

Atualmente um dos principais problemas que encontramos é a expansão do sistema viário que vem provocando a remoção de muitas espécies vegetais de porte, que fazem parte do nosso rico patrimônio ambiental. Isso é consequência do grande aumento da frota de veículos, que têm seguido o ritmo das grandes metrópoles, diante ao número limitado de vias. São muitas obras em andamento que se estendem por um prazo longo afetando a mobilidade urbana e transformando a cidade em um verdadeiro caos, principalmente nos horários que conhecemos como “horário de pico”, onde o fluxo é muito maior, aumentando assim, consideravelmente, a poluição e o stress.

Uma das alternativas viáveis seria a construção de mais ciclovias. O uso das ciclovias é uma questão cultural, usada primordialmente em países mais desenvolvidos. Essa é uma resolução que depende muito da vontade pública e da postura de seus gestores diante ao ganho social que estas trariam a população.

Outro grande problema que nos deparamos é o da iluminação pública, enfrentei há pouco tempo à dificuldade de manutenção de algumas lâmpadas queimadas nos postes da minha rua, na zona sul de Porto Alegre, deixando-nos em um grande breu quando anoitecia. Ligamos, eu e outros moradores, incansáveis vezes ao departamento responsável pela iluminação pública que nos prometia resolução da questão, mas apesar da nossa insistência por um direito que é nosso e ao qual pagamos, só obtivemos o problema sanado depois de vários meses, sendo que dentro deste período ocorreram números ainda maiores de assaltos e roubos que eram facilitados pela escuridão.

Já falando sobre segurança, este é um assunto que nos preocupa imensamente. O que nos deparamos é com um gradual e acelerado crescimento da violência e não vemos nenhum plano nem projeto de Segurança Pública para enfrentar essa criminalidade. Percebemos uma grande inversão de valores onde os trabalhadores, os cidadãos de bem que pagam seus impostos e lutam por uma igualdade social têm pagado um preço alto demais.

O importante é que seja entendido pelos governantes que a Segurança Pública e a Saúde lidam com vidas e quanto a isso é inquestionável a priorização de soluções imediatas dos problemas. É urgente a necessidade de uma grande mudança por parte dos responsáveis.

Poderia seguir relatando diversos problemas mais que enfrentamos na nossa Porto Alegre, diante disso tudo, nem tão Alegre assim. Atualmente, entendo que os problemas se expandem nacionalmente, na questão da violência, até mesmo mundialmente perante esses ataques que temos visto com frequência pelo mundo, mas acredito que a mudança começa do pequeno até alcançar o grande.

Se cada cidade, estado, país e principalmente as pessoas como seres humanos, buscarem uma compreensão maior dos nossos problemas, das causas e possíveis resoluções, e também passarem a compreender que esse não é um problema individual e sim coletivo, onde precisamos pensar na massa e não apenas somente em si já estaremos abrindo um novo caminho.

O conhecimento e a união são forças imprescindíveis a resolução dos problemas.

* Estudou Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, Letras, Língua Portuguesa e Literatura

No final do dia o professor está arrasado

A educação escolar deve integrar e não separar – não pode ser vista como instrumento de distinção de classe, de pertencimento a um meio, a uma classe social. Aquele que vai para a escola vai para descobrir, conhecer, amar. Entretanto, em um país como o Brasil onde a cidadania passa pelo consumo, onde ter vale mais do que ser, a escola pública e privada – em geral – preocupada em manter o status quo, não produz uma cultura que considera a fecundidade dos seus estudantes e nem a importância dos seus professores. Tudo se passa como se tais categorias não fossem parte de um mesmo processo de aprender e ensinar, do processo de construção de uma inteligência crítica, do processo de desenvolvimento do poder interrogativo de suas subjetividades, com efeitos políticos concretos.

O efeito induzido pela escola brasileira contemporânea nega a sua própria função de ensinar conhecimentos e a transforma em um campo minado no qual professores e estudantes, em trincheiras opostas, se protegem um dos outros. São ambos vítimas do próprio sistema que os faz esquecer que a liberdade é o bem supremo, que a liberdade não é o usufruto de plenos poderes e nem incentiva a competição entre classes sociais ou categorias sociais tais como estudantes e professores.

Difícil ser professor na escola brasileira contemporânea – como muito bem mostra o texto que a Escritos Editora recebeu de um dos seus leitores.  A Escritos é grata por ele e o coloca no blog para que todos que o lerem possam refletir…
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No final do dia o professor está arrasado

Por José Mário Carvalho *

O dia 23 de março de 2009 marcou a carreira da professora Glaucia Terezinha Souza da Silva. De acordo com o delegado Christian Nedel, titular da 1º Delegacia da Criança e do Adolescente de Porto Alegre, a professora recebeu chutes e socos de uma adolescente após uma advertência nas dependências da Escola Estadual de Ensino Fundamental Bahia, localizada na Zona Norte da capital gaúcha. De acordo com o delegado, em entrevista ao jornal Zero Hora, a professora havia sido jogada no chão e perdido a consciência por alguns minutos. Ao ser socorrida no Hospital de Pronto Socorro foi constatado o traumatismo craniano, após exames realizados pela equipe de pronto atendimento.

Fatos como esse permeiam a realidade da educação brasileira, onde a busca por soluções figuram como miragens num plano distante. O jornalista Marcelo Gonzatto, inspirado no caso da professora Glaucia Souza, inicia um série de reportagens no jornal Zero Hora, oito meses após o ocorrido. Sob o sugestivo título Escolas Conflagradas, a reportagem reúne relatos de profissionais sobre o público atendido, remuneração, saúde, perspectiva de vida e carreiras. A reportagem ilustra de maneira pontual a infraestrutura do sistema de ensino gaucho onde a qualidade no serviço prestado é no mínimo questionável ou duvidosa.

Fatos…

Pesquisa divulgada em 13 de outubro de 2015 pela Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta o Brasil na 60º posição no ranking internacional de Educação num total de 76 países participantes.

A constrangedora posição do país demonstra a precariedade histórica do ensino nacional que atrasa e dificulta todas as iniciativas de elaboração de um projeto contundente de desenvolvimento. A realidade é ainda mais grave quando as analises permeiam o cotidiano da sala de aula e todos os expoentes envolvidos.

Tragédias como as da professora Glaucia Terezinha não se configuram como problemas a serem solucionados e superados. Ao contrário: o crescente descaso com o processo de alfabetização do indivíduo é nítido e crescente agravando ainda mais a situação instável da jovem democracia brasileira.

Experiência única…

O ensino privado convive há décadas com arbitrariedades que já se tornaram “institucionalizadas” pelo corpo diretivo e pela sociedade civil, que transfere para a escola a função de “educar” o aluno. Trata-se de uma lógica inversa, na medida em que o papel histórico dos estabelecimentos de ensino consiste em alfabetizar o indivíduo e estimular o pensamento criativo e autônomo cabendo as organizações familiares o papel de “educar”.

Estar atento para os valores éticos e morais do indivíduo é condição básica para um processo de formação. A família deve zelar pelo bem estar e confiar que a escola desempenhe seu real papel.

Questionar a metodologia da instituição bem como do corpo docente, é um direito legítimo de todo cidadão que procura o melhor para seu filho. A busca por informações é válida e auxilia no momento da escolha. Indicar sugestões para o aprimoramento ou melhorias da instituição é um ato de cidadania e real preocupação com o processo de formação do estudante.

No entanto, a realidade escolar brasileira obedece à lógica do ranking elaborado pela OCDE. A mercantilização do ensino não segue os critérios de qualidade e satisfação do cliente. Atualmente, o ensino é um substrato secundário da realidade nacional onde a sociedade civil não se identifica e projeta decepções ou sentimentos similares.

Encontros envolvendo a comunidade escolar geralmente não resultam em melhorias significativas. Questionamentos pautados em “notas” e acusações são comuns e ocorrem com frequência desgastando ainda mais a imagem da escola e do profissional de ensino.

Em dezesseis anos de profissão, vivenciei e participei de inúmeros encontros escolares. Divulguei notas, aprovei e reprovei alunos baseado nas normas das instituições. Elaborei e participei de projetos extracurriculares e sempre mantive uma posição de austeridade nos encontros diários. No entanto, devo reconhecer que ser acusado de maneira leviana de “apoiador do regime militar” foi o adjetivo mais inusitado de toda a minha carreira.

Particularmente, não consigo me identificar com qualquer forma de autoritarismo político e pessoal, tampouco uma ditadura organizada por militares. A livre iniciativa, o empreendedorismo, o Estado eficiente e o respeito as instituições democráticas sempre foram valores que procurei passar a jovens e adolescentes. A busca por um país onde a corrupção seja combatida dentro do espírito democrático é uma constante nos encontros de Sociologia e História.

Faço uma analogia com o caso da professora Glaucia. Ambos estavam desempenhando seu papel e buscando o melhor dentro de uma sociedade onde normas e leis são facilmente negligenciadas. Ambos estavam zelando pelo direito legítimo e constitucional dos estudantes. Independente da classe social, todo cidadão brasileiro possui o direito de frequentar o circulo escolar. E ambos foram agredidos no cumprimento do dever. Ambos tiveram seus casos minimizados pelas instituições e pela sociedade civil e ambos tiveram que lidar com o fato de que pais desinformados e alunos sem perspectiva fazem parte do tecido social brasileiro. Autoritarismo e Ditadura são chagas superadas na realidade política atual. Amadurecemos como país e como sociedade. A imprensa livre e o fortalecimento dos Poderes pavimentam o caminho do nosso futuro. No entanto, apesar dos inegáveis avanços das últimas décadas, ainda temos desafios urgentes a serem enfrentados e superados. No final do dia… “No final do dia o professor NÃO deveria estar arrasado”.

 

 

* Licenciado em História
Pós-Graduado em Sociologia

O medo, a esperança e a política do tempo presente

Bernardo Corrêa *

received_547700908742585O filósofo e professor Vladimir Safatle escreveu recentemente que a política é a arte de afetar os corpos e levá-los a impulsionar determinadas ações. O medo e a esperança são afetos mobilizadores na política, como podemos notar no mundo e no Brasil atuais.

Podemos dizer que há, pelo menos na interpretação da atividade política, um pêndulo que oscila entre Hobbes, quando o Estado faz com que as leis sejam respeitadas por meio do medo que impõe aos súditos, e Spinoza quando “a esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida”. Mas assim como o Estado não pode operar o tempo todo por meio da coerção, não há como existir esperança sem medo ou medo sem esperança, são dois afetos ligados a uma mesma temporalidade, distante do presente. Se esperamos algo é porque tememos que outra coisa possa vir a ocorrer e vice-versa.

A crise atual do capitalismo e da democracia liberal reserva aos sujeitos individualizados uma impotência de duplo sentido. A precariedade da vida social produz esvaziamento das esperanças e nossa crescente incapacidade de projetar um futuro distinto, cabendo então à política converter-se em uma gestão social do medo. Por outro lado, a crise do socialismo como paradigma de transformação incide diretamente sobre a esperança. Então, medrosos e esperançosos lançam as expectativas de mudança da realidade para uma temporalidade exterior ao tempo presente e convertem a dúvida sobre o passado e o futuro em alienação da ação política, sem ver que o velho que morre ainda não deixou o novo nascer em sua plenitude. A atividade teórica passa então a mera especulação sobre o real ou resignação a ele. Retomar as rédeas da ação política como parte de nosso cotidiano é, de verdade, a única forma de evitar que a dúvida nos paralise e deixemos de lutar pelo que é necessário histórica e individualmente.

Nesses tempos, nos quais a política aparece para milhões como uma atividade corrupta, desprovida de conexão entre a ação do indivíduo e o bem comum, há uma sensação generalizada (e correta) de desamparo. Para combatê-la é preciso prestar atenção e apostar nas potencialidades do novo que surge agora mesmo. Novos movimentos, novos protagonistas da história, novos costumes e concepções às quais devemos estar abertos. Como disse certa vez Lacan, “viver sem esperança é também viver sem medo”. Faz-se urgente recolocar na ação presente a fonte alternativa para pensar novos circuitos de afetos que não passem nem pelo medo nem pela esperança. Os futuros possíveis dependem da análise concreta, da ação política consciente e inscrevem-se precisamente no presente.

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BIBLIOGRAFIA

RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. In: WEFFORT, Francisco (Org). Os clássicos da política, vol. I, Ed. Ática, 1995.

SAFATLE, Vladimir. O afeto como utopia. Disponível em: < http://www.mutacoes.com.br/sinopses/o-afeto-como-utopia/>

SPINOZA, Benedito. Ética III, definição dos afetos.

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* Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, militante do PSOL, autor do livro Revitalização sindical em tempos de terceirização.

Do amor ao ódio petista

Por André Portella *

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Cada um de nós tem sua história. Somos lutadores sociais, sindicalistas, ativistas do movimento popular ou estudantil, do campo e da cidade. Tantos sonharam e militaram pela revolução e pelo socialismo, e o fazem até hoje, outros já não mais.

O Partido dos Trabalhadores, nunca se definiu como um partido revolucionário. Nasceu como a antítese do “socialismo real’ stalinista e transformou-se no polo agregador dessas diferentes matizes e tendências. Ex guerrilheiros, trotskitas, católicos, sindicalistas e intelectuais independentes uniram-se sob a liderança do metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva para construir um partido que representasse a classe trabalhadora, que havia crescido em importância, mas carecia de representação política genuína. A partir dessas articulações o PT tornou-se o mais importante partido de esquerda da América Latina.

Dentro de um contexto de lutas e desarranjos na política brasileira, Lula chegou à presidência do Brasil em 2003, onde acordou a conhecida “carta aos brasileiros”, um pacto com as elites nacionais e internacionais, comprometendo-se a manter os interesses do grande capital; bem como articular o presidencialismo de coalizão com diversos partidos, inclusive os de direita.

Logicamente os fatores econômicos, em seus dois mandatos, contribuíram para o silêncio da burguesia pois o grande capital rentista acumulava ganhos jamais alcançados na história do Brasil. Dentro desse contexto não podemos nos abster de lembrar que os ganhos sociais foram os maiores já constatados, nenhum outro governo trouxe tamanha prosperidade quanto o governo Lula.

Lamentavelmente, o primeiro governo de sua sucessora e o atual, a presidente Dilma, não seguiu a maré de prosperidade, aliás, o Brasil encontra-se neste momento em uma grave crise política/econômica, mais política, pelo fato de os mesmos rentistas oportunistas, mencionados anteriormente, potencializarem fatores para o caos. De fato, o amor aos primeiros governos petistas, virou ódio por parte dos brasileiros. Graves problemas de corrupção, algo repreendido pelo PT, quando oposição, e hoje imerso em denúncias e processos, onde dirigentes importantes da República, estão presos ou respondendo a processos. Portanto, é chegado o momento de refletirmos e pensarmos um Brasil sem corrupção, não só na política, mas em seu tecido social, onde as vantagens indevidas, ou jeitinho brasileiro, não seja conhecida como malandragem.

Cabe salientar que a população, no seu âmbito geral, não percebe que as manipulações midiáticas, esta efetuada por uma mídia conservadora, cujo principal objetivo é forjar um inimigo principal da atual corrupção, hoje direcionada ao PT, o qual não pode ser responsabilizado como progenitor corrupto do sistema. Em um estado democrático de direito devemos nos pautar por justiça não seletiva, cabendo ao poder judiciário investigar “todos” independentemente de partido político ou afinidades ideológicas. Fica a grande pergunta: neste momento a justiça é seletiva?

* Professor, mestre em Engenharia e pós-graduado em Ciências Sociais

E chegou a segunda edição!

Por Cristiano Refosco *

testaDepois de meses de muito trabalho, temos a honra de apresentar para nossos pequenos e grandes leitores a segunda edição da coleção “Era uma vez um conto de fadas inclusivo”. A princípio, quando esgotaram os exemplares da primeira edição, pensamos em fazer apenas uma reimpressão dos livros, o que seria bastante rápido e mais fácil. Porém, o desejo de aprimorar um trabalho que já é reconhecido no Brasil todo convenceu-nos de que podíamos  mais.

Lançar a primeira edição dos contos inclusivos em 2012 foi uma aventura da qual me orgulho profundamente. Nunca vou esquecer o dia em que levei os originais das minhas primeiras ilustrações até o designer e amigo Leandro Selister. Após folhear os desenhos, Leandro chorou. Foi então que eu pensei: “Para ele ter chorado, ou está muito bom ou está muito ruim”.  A próxima frase dita pelo meu amigo designer foi um veredicto de que tudo ia dar certo:

“Cris, coloco meu escritório à disposição para fazermos esses livros, e acho importante que você os ilustre”.

De imediato, a ideia de eu mesmo ilustrar os meus livros pareceu-me absurda, visto que não sou ilustrador, mas acabei convencido pelo talento e pela sensibilidade de Leandro Selister e iniciei uma verdadeira odisseia pessoal. Imagine alguém que nunca havia desenhado nada a não ser rabiscos no caderno, durante as aulas de antropologia, fazer em 4 meses mais de 170 ilustrações. Mas valeu a pena.

Findado todo o processo de captação de patrocinadores e após a  parceria com a editora Escritos, lançamos para o mundo de forma ousada e original 11 livros (sim, 11 livros de uma única vez!) que viriam a contribuir para a reflexão de muitos professores e alunos de todo o país acerca de assuntos ainda tão pouco discutidos em salas de aula como deficiência, inclusão e acessibilidade.

Chapeuzinho cadeirante caindo com sua cadeira de rodas num buraco, Cinderela sem pé perdendo a prótese durante a fuga do baile, João sem braços subindo pelo pé de feijão usando a boca… Cada um dos principais contos de fadas ganhou uma deficiência e as histórias passaram a ter outros enfoques, sempre primando pela ideia da importância do respeito às diferenças.

Para a segunda edição queríamos mais. Se é preciso ter coragem para criar algo autêntico, também é preciso coragem para reconhecer que tudo sempre pode ser aprimorado. Logo, decidimos que a segunda edição manteria a originalidade da primeira, mas que seria um novo produto. Foi então que a Escritos apresentou-me o Thiago Luz, o nosso jovem e talentoso ilustrador. Especialmente para mim, que havia desenhado toda a primeira edição, ver meus personagens com outras caras e traços foi uma experiência engrandecedora. Reconhecer na “nova Chapeuzinho da cadeirinha de rodas” ilustrada pelo Thiago a mesma energia da minha Chapeuzinho da primeira edição, certificou-me de que esses personagens já existem, independente das formas que eles venham a ter. Além de demonstrar todo o conhecimento técnico que buscávamos para as ilustrações, Thiago Luz conseguiu manter o espírito de alegria que os personagens dos meus livros possuem. Deficiência não é sinônimo de tristeza. Deficiência é somente deficiência e assim é que tinha que continuar sendo nos contos de fadas inclusivos.

Da mesma forma, chegou a hora de revisar os textos dos livros. Acredito que para qualquer escritor esta seja uma situação única. Alguém de fora do seu universo, com outros olhos e impressões, vir e sugerir que você mude aqui ou ali, que repense uma frase ou um parágrafo é um verdadeiro exercício de desapego, mas uma ótima oportunidade de aprender e de crescer ainda mais.

Coleção ilustrada e revisada, optamos por condensar as histórias em 3 volumes, o que facilitaria o acesso aos contos de quem não tivesse condições de comprar os 11 livros de uma só vez. Não adianta nada lançar uma coleção muito bacana sobre inclusão e acessibilidade se ela não puder ser acessível na sua aquisição.

Sendo assim, é com profunda alegria e com o coração repleto de agradecimento ao carinho dispensado pela Escritos para com os contos de fadas inclusivos, que convido a todos os leitores, grandes e pequenos, novos e antigos a mergulharem nesta segunda edição.

Uma ótima leitura a todos e que consigamos educar nossas crianças em prol do respeito às diferenças, bem como – num futuro próximo – povoar o mundo de adultos mais tolerantes e livres de preconceitos.

 * Autor da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo e fisioterapeuta.

Poema de ano novo

Por Vinicius de Moraes *

viniciusÉ preciso que nos encontremos diante do amor como as árvores fêmeas cuja raiz é a mesma e se perde na terra profana
É preciso… a tristeza está no fundo de todos os sentimentos como a lágrima no fundo de todos os olhos
Sejamos graves e prodigiosos, ó minha amada, e sejamos também irmãos e amigos.
É preciso que levemos diante de nós o retrato das nossas almas como se fôssemos a um tempo a Verônica e o Crucificado
Eu sou o eterno homem e hoje que a dor fecunda o tempo eu sinto mais que nunca a vontade de fechar os braços sobre a minha miséria.
Fiquemos como duas crianças pensativas sentadas numa escada – todos serão os peregrinos e apenas nós os contemplados.

* Poeta, diplomata, compositor, jornalista e dramaturgo.

Organiza o Natal

Por Carlos Drummond de Andrade *

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Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagui ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semiarmadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

* Poeta , contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Drummond foi um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro.

** Texto extraído do livro Cadeira de balanço

Algumas dicas para pais e cuidadores para utilização dos contos da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

Por Cristiano Refosco *

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A coleção “Era uma vez um conto de fadas inclusivo” é uma ferramenta que pode ser utilizada para aproximar o universo infantil do universo das diferenças tanto em casa, como na sala de aula. Pensando nisso, neste post elaboramos algumas dicas para pais e cuidadores de como usar a coleção.

Dicas para os pais:

– abordar as histórias com naturalidade;

– aproveitar os contos inclusivos para falar sobre temas como respeito às diferenças, acessibilidade e inclusão com as crianças;

– no final do livro existe uma espécie de glossário, onde são mostradas as nomenclaturas utilizadas atualmente para se referir às pessoas com deficiência. Termos como “portador de deficiência”, “deficiente”, “pessoa normal” e “criança especial” não são mais utilizados;

– os personagens não são mostrados nem como coitadinhos e nem como super-heróis. São apenas personagens com deficiências que vão viver as suas histórias com algum tipo de limitação. O mesmo acontece na vida real.

fonte: http://www.centauroalado.blogspot.com.br/

* Autor da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

Algumas dicas para professores para utilização dos contos da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo

Por Cristiano Refosco *

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A coleção “Era uma vez um conto de fadas inclusivo” é uma ferramenta que pode ser utilizada para aproximar o universo infantil do universo das diferenças tanto em casa, como na sala de aula. Pensando nisso, neste post elaboramos algumas dicas para professores de como usar a coleção.

Dicas para os professores:

– associar as histórias dos livros com situações do dia a dia; mostrando que pessoas com deficiência existem em todos os locais e que têm os mesmos direitos do que as pessoas sem deficiência;

– propor para as crianças experiências práticas em relação aos livros, como por exemplo, atividades que busquem identificar se a sua escola e bairro têm acessibilidade;

– além da aproximação entre o universo infantil e o universo das diferenças, a temática dos contos inclusivos pode ser utilizada para explorar o uso de outros sentidos do aluno: em algumas turmas de sala de aula, os professores vendam os olhos das crianças após a leitura de Branca Cega de Neve para propiciar o uso do olfato e do tato, por exemplo.

– alguns dos personagens carregam nos seus nomes as deficiências que possuem, como o João sem braços, por exemplo. É importante os professores observarem que estamos falando de nomes de personagens, assim como o Capitão Gancho, a Mula sem cabeça ou a menina do nariz arrebitado, e que em momento algum isso constitui um estímulo para que os alunos se apontem pelas suas diferenças. A ideia é valorizar a deficiência enquanto característica e não como demérito.

Fonte: http://www.centauroalado.blogspot.com.br/

* Autor da coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo