Sobre o Kai

Por Elisabete Peiruque *

elisabete

A leitura de Kai de Maria Tomaselli remete para a afirmativa conhecida de que em literatura vale mais o modo de narrar do que o tema narrado. Como diz Isabel Allende “sobram histórias neste mundo” e todas as vidas constituem possibilidades de se tornarem literatura, mesmo as vidas apagadas. Porque, afinal, a ausência de brilho de tantas vidas também pode ser tema para quem quer e sabe criar estas mentiras que falam verdades, para usar das palavras de Vargas Llosa.

Autobiografia entremeada por reflexões sobre a Arte, Kai fica na fronteira do romance pelo uso que a autora faz de alguns recursos próprios do gênero romanesco, tais como a alinearidade e a criação de pelo menos um personagem fictício. Esse, o Artista, é o porta-voz da visão pessoal de Maria Tomaselli sobre a Arte.

O envolvimento a que o leitor é levado pela escrita da autora sugere aquele que é suscitado pela narrativa de ficção. Bons romances despertam o interesse ao criarem, pela via da palavra literária e da imaginação, uma expectativa pelo desenrolar do tema narrado. Kai alcança esse clima ao oferecer ao leitor uma leitura que flui agradavelmente em busca do que virá a seguir.

Maria Tomaselli, austríaca radicada no Brasil há meio século, constrói um discurso que tem como pretexto para o texto uma viagem – real ou imaginada? – com sua galerista. Jogando com a recordação de um passado real – ainda que possivelmente alterado pela memória – e com um presente – talvez semifictício -, a autora conduz a nós, leitores, pelos caminhos da vida que a trouxeram ao Brasil bem como ao conhecimento do que foi seu processo de amadurecimento no terreno da Arte.

Ao ler Kai como narrativa próxima do romance pela presença de seus elementos básicos – um fato acontecido com alguém num tempo e espaço e contado por uma voz narradora – o leitor poderá indagar qual é o fato. A resposta é Maria Tomaselli.

* Professora de literatura portuguesa / UFRGS, aposentada

Apresentando Kai

Por Ana Maria Dischinger Marshall

Apresentar um texto como KAI é um desafio que mobiliza razões e emoções desenvolvidas ao longo do trabalho de revisão do mesmo, o qual se estendeu pelas 3as e 5as feiras à tarde, por mais de um ano, na residência do simpático casal de filósofos, Carlos Cirne Lima e Maria Tomaselli Cirne Lima.

Foi muito divertido conversarmos, divergirmos e chegarmos a conclusões sobre a ortografia, o conteúdo e a vida muito encantadora dessa escritora. A começar pela originalidade dos títulos, a variedade caleidoscópica dos temas e sua distribuição ao longo da narrativa, leremos a história de Maria, a austríaca que compreende, produz e convive em uma cultura um tanto diversa daquela onde viveu seus primeiros 20 anos Este período inicial de sua vida, nos traz, com clareza e profundidade, a riqueza das relações familiares, muito bem sintetizadas em frases como “Minhas duas avós jamais poderiam imaginar que uma de suas netas iria viver num país tropical com vegetação exuberante e comida farta.” Aqui estão implícitas as dificuldades que os europeus enfrentaram, atravessando duas guerras e sobrevivendo a elas sempre que possível. Com recursos provindos sabe-se lá de onde. Talvez da realidade biológica de que o homem é o ser que mais se adapta ao meio, e, portanto ás circunstâncias nele envolvidas.

Continuar lendo Apresentando Kai

Fotos de família. A imagem que permanece

Por Escritos

Em geral, todos gostam de tirar fotografias, de criar e recriar imagens, mas poucos param para refletir sobre elas. Entretanto, a fotografia é uma linguagem, um fecundo meio de expressão. Ela não é espelho, analogon do real ou mimese da realidade. Como esclarece Dubois, culturalmente codificada, ela é um instrumento de transposição, de análise, de interpretação e até de transformação do real – um ato de investimento de sentido. Ela é uma forma de construir e comunicar relações familiares, experiências, enfim, um mundo.

Aniversário de 80 anos de Vô Cirne (Elias Cirne-Lima).

Continuar lendo Fotos de família. A imagem que permanece

Era uma vez um conto de Fadas Inclusivo e uma entrevista com o autor

Por Escritos Editora

Em se tratando da educação infantil, os contos de fadas apresentam-se como recurso pedagógico privilegiado. Primeiro, porque levam as crianças a um mundo mágico, mas também porque seu eixo gerador trata de problemáticas existenciais, isto é, os contos de fadas têm como núcleo problemático a realização essencial da personagem principal, da sua condição humana. Para o que aqui interessa, cada conto da Coleção Era uma vez um conto de fadas inclusivo trata da problemática da exclusão e da diferença.

refosco1

Continuar lendo Era uma vez um conto de Fadas Inclusivo e uma entrevista com o autor

Tempo e Magia – A história vista pelo cinema

Livro de José Alberto Baldissera e Tiago de Oliveira Bruinelli

Por Nilton Mullet Pereira*

Tempo e Magia: A história vista pelo cinema envolve o leitor numa trama dramática que mistura história, cinema e pensamento: a história como o significante que serve de elemento dramático para a criação cinematográfica; o cinema que busca reconstituir o passado em imagens e nos dá uma ilusão de realidade e de movimento; o pensamento como a atividade que os autores realizam ao se aventurarem nessa conturbada e fabulosa relação entre o cinema e a história. Desde Marc Ferro, o cinema passou a ter uma posição de destaque nos debates sobre a criação em História, mas muito depois de Marc Ferro, o cinema passou a ser uma fonte histórica de destacada importância.

still-of-brad-pitt-in-troy-(2004)-large-picture

Continuar lendo Tempo e Magia – A história vista pelo cinema

Tique-taque tremor das pequenas coisas

Por Teresa Poester*

 Segurar um passarinho na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivéssemos os instantes trêmulos na mão.

Clarice Lispector

A paisagem acompanha Leandro Selister em suas diferentes formas de expressão. Assim como os primeiros fotógrafos, que vieram quase todos da pintura, transportaram para o novo meio o mesmo olhar, este artista trás também da pintura o tratamento que confere às suas fotografias. Não há, nos seus trabalhos recentes, uma preocupação com o apuro técnico nem com os recursos expressivos da linguagem fotográfica. A câmara converte-se num instrumento narrativo. As imagens contam historias, compõe pequenos poemas. A delicadeza está na escolha e no tratamento das novas paisagens, cantos de intimidade, esconderijos onde pousa e repousa o olhar.

imagens_tique_taque

Continuar lendo Tique-taque tremor das pequenas coisas