Queijo de ralar

Por Pedro Câncio *

pedro

Porque era baixo, retaco de forte e roliço chamavam-lhe de Mulita. Tipo simpático e afável. Nunca contendia com ninguém. Ainda que fosse provocado. Evitava meter-se em certas complicações. Resolvia qualquer desafeto com naturalidade. Vivia no bairro do porto desde sempre, embora nascesse lá perto
do matadouro público. Não tinha ofício certo. Quando perguntado sobre suas ocupações de trabalho, solícito respondia:

– Eu vivo de changas.

Na realidade entenda-se changas por contrabandos. Mulita era contrabandista. Dessa atividade resultava o ganha-pão diário. Assim era conhecido e considerado. Amigo dos amigos. Homem de coragem e hábil nadador. Por isso naquela manhã, quando transitou pelas ruas do bairro do Porto, tinha-se a certeza de que à noite haveria contrabando. Mulita possuía um grande elenco de
companheiros às tarefas noturnas. Então quando cruzava ruas, em geral estava à procura de changadores para um servicinho. Agenciava homens e estabelecia condições com os donos das cargas a serem contrabandeadas. Avaliava peso e quantidade para precisar preços e volume, porque disso dependia o tamanho e tipo da embarcação apropriada à carga, bem como o número de parceiros. Por isso naquela manhã, ele se deslocava à procura do proprietário da Santana, chalana escolhida para a travessia de dois mil quilos de queijo de ralar.

Quando a Usina Elétrica deu o apito da uma da tarde, hora que convocava os funcionários ao trabalho a ser reiniciado meia hora depois, o agenciador Mulita estava com os planos traçados para essa noite. A chalana Santana alugada e os dois companheiros escolhidos a dedo, contratados. Pão Doce e Mergulhão. O nome de Pão Doce o exímio remador trouxe de casa. Assim o chamavam desde pequeno. Mergulhão, o próprio nome explica o motivo. Apelativo conquistado pela grande capacidade de manter-se escondido nas águas, quando era necessário. Caía aqui e aparecia a muitos metros adiante.

Tudo pronto. Deste lado do Rio Uruguai, Mulita, Pão Doce e Mergulhão, acomodados na chalana, aguardavam que a noite  chegasse. Do outro lado, lá nas costas argentinas, a situação era com os de lá, que, ao anoitecer, depositariam as peças de queijo dentro do mato, próximo à barranca que serviria de porto. Os
tripulantes da Santana deveriam transportá-las até a chalana e pronto. O mais era remar. Remar forte. Santana com dois mil quilos ficaria muito pesada. Seria preciso muita força nos remos para abrir as águas do rio. Mas eram dois remadores experientes, além de Mulita que, se necessário, também pegaria no pesado. Portanto eram três homens fortes e decididos, prontos a qualquer necessidade. Com Mulita, no comando, acomodado ao banco de popa, administrava a aventura, na condição de prático das águas e também da atividade. Ele carregava naquele momento em seus ombros todas as responsabilidades do mundo. Com a sua eram três vidas em jogo de vida e morte. Mais um perigo, entre tantos.

Enfim a noite chegou e com ela a incerteza dos participantes desapareceu, pois durante à tarde Pão Doce e Mergulhão foram tomados de certa ansiedade. Já acomodados na Santana, ouviram de Mulita:

– Seja o que Deus quiser! Tá na hora, embora!

Daí em diante a vida estava fora do controle. Nenhum daqueles homens tinha mais poder sobre si, ou sobre a situaçãoque os envolvia. Estava sacramentado o inquestionável poder de Deus. Viver era uma ilusão. Morrer um ato fugaz.

Tudo escuridão. Ao redor e dentro da Santana. O silêncio do diálogo contagiante permitia a compreensão dos limites de suas audácias. E Mulita, Pão Doce e Mergulhão avançaram em direção à costa de Paso de los Libres. Naquele momento uma brisa leve levantada das águas temperava as sombras da noite onde aqueles três filhos da natureza tinham sido jogados à própria sorte.

Sim! Mulita, Pão Doce e Mergulhão achavam-se integrados na natureza, portanto, eles eram natureza também.

Santana atracou no lugar combinado entre o dono da carga e seus agenciadores, o de lá e o de cá. Tudo corria de maravilha. Após o reconhecimento da carga, dedicaram-se a transportar as peças de queijo até a margem do rio, de onde colocariam depois na chalana. Foi quando um estranho ruído cortou o silêncio sepulcral que envolvia o ambiente. Atentos à direção de onde vinha o inesperado perceberam já próximos homens da guarda costeira que agachados, tentando evitar de serem vistos, avançavam com as armas em punho como se participassem de uma guerra. Mais perto uma voz aos brados, se manifestou:

– ¡Quietos! ¡Parados ahí dónde están!

Pão Doce jogou-se na água e silencioso foi se afastando da chalana em direção à costa brasileira. Mergulhão depois de vários metros percorridos, escondido nas águas, veio à tona e também nadou silencioso. Mulita que, dentro da chalana, ajeitava as peças de queijo já carregadas até a margem recebeu no peito, do lado esquerdo, um tiro de arma de fogo disparado a distância de menos de dez metros. Ali mesmo caiu, produzindo na queda um golpe surdo quando encontrou resistência no fundo da Santana. Caiu como se fosse um queijo de ralar, daqueles queijos revestidos de tinta negra, como se vestisse de luto.

Dois dias depois, com extrema dificuldade conseguiram liberar o corpo morto de Mulita para depositarem-no em sua derradeira morada. Em presença da família, e de amigos, e de companheiros de tantas changas, encontravam-se Pão Doce e Mergulhão, que compareceram ao ato, solidários. O silêncio só foi quebrado pelo sussurro dos mais chegados que abafavam a marca sentimental de suas dores.

Mas entre os changadores, havia aqueles que se preocupavam com outra questão:

– Quem é que vai substituir o Mulita e contratar novas changas pra nós?

* Professor aposentado do Instituto de Letras / UFRGS

provisorio

Narrativas de contrab

Porque era baixo, retaco de forte e roliço chamavam-lhe de Mulita. Tipo simpático e afável. Nunca contendia com ninguém.

Ainda que fosse provocado. Evitava meter-se em certas

complicações. Resolvia qualquer desafeto com naturalidade.

Vivia no bairro do porto desde sempre, embora nascesse lá perto

do matadouro público. Não tinha ofício certo. Quando perguntado

sobre suas ocupações de trabalho, solícito respondia:

– Eu vivo de changas.

Na realidade entenda-se changas por contrabandos. Mulita

era contrabandista. Dessa atividade resultava o ganha-pão diário.

Assim era conhecido e considerado. Amigo dos amigos. Homem

de coragem e hábil nadador. Por isso naquela manhã, quando

transitou pelas ruas do bairro do Porto, tinha-se a certeza de que à

noite haveria contrabando. Mulita possuía um grande elenco de

companheiros às tarefas noturnas. Então quando cruzava ruas, em

geral estava à procura de changadores para um servicinho.

Agenciava homens e estabelecia condições com os donos das

cargas a serem contrabandeadas. Avaliava peso e quantidade para

precisar preços e volume, porque disso dependia o tamanho e tipo

da embarcação apropriada à carga, bem como o número de

parceiros. Por isso naquela manhã, ele se deslocava à procura do

proprietário da Santana, chalana escolhida para a travessia de dois

mil quilos de queijo de ralar.

Quando a Usina Elétrica deu o apito da uma da tarde, hora

que convocava os funcionários ao trabalho a ser reiniciado meia

hora depois, o agenciador Mulita estava com os planos traçados

para essa noite. A chalana Santana alugada e os dois

companheiros escolhidos a dedo, contratados. Pão Doce e

Mergulhão. O nome de Pão Doce o exímio remador trouxe de

casa. Assim o chamavam desde pequeno. Mergulhão, o próprio

nome explica o motivo. Apelativo conquistado pela grande

capacidade de manter-se escondido nas águas, quando era

necessário. Caía aqui e aparecia a muitos metros adiante.

Tudo pronto. Deste lado do Rio Uruguai, Mulita, Pão Doce

e Mergulhão, acomodados na chalana, aguardavam que a noite

chegasse. Do outro lado, lá nas costas argentinas, a situação era

com os de lá, que, ao anoitecer, depositariam as peças de queijo

dentro do mato, próximo à barranca que serviria de porto. Os

tripulantes da Santana deveriam transportá-las até a chalana e

pronto. O mais era remar. Remar forte. Santana com dois mil

quilos ficaria muito pesada. Seria preciso muita força nos remos

para abrir as águas do rio. Mas eram dois remadores experientes,

além de Mulita que, se necessário, também pegaria no pesado.

Portanto eram três homens fortes e decididos, prontos a qualquer

necessidade. Com Mulita, no comando, acomodado ao banco de

popa, administrava a aventura, na condição de prático das águas e

também da atividade. Ele carregava naquele momento em seus

ombros todas as responsabilidades do mundo. Com a sua eram

três vidas em jogo de vida e morte. Mais um perigo, entre tantos.

Enfim a noite chegou e com ela a incerteza dos participantes

desapareceu, pois durante à tarde Pão Doce e Mergulhão foram

tomados de certa ansiedade. Já acomodados na Santana, ouviram

de Mulita:

– Seja o que Deus quiser! Tá na hora, embora!

Daí em diante a vida estava fora do controle. Nenhum

daqueles homens tinha mais poder sobre si, ou sobre a situação

que os envolvia. Estava sacramentado o inquestionável poder de

Deus. Viver era uma ilusão. Morrer um ato fugaz.

Tudo escuridão. Ao redor e dentro da Santana. O silêncio do

diálogo contagiante permitia a compreensão dos limites de suas

audácias. E Mulita, Pão Doce e Mergulhão avançaram em direção

à costa de Paso de los Libres. Naquele momento uma brisa leve

levantada das águas temperava as sombras da noite onde aqueles

três filhos da natureza tinham sido jogados à própria sorte.

Sim! Mulita, Pão Doce e Mergulhão achavam-se integrados

na natureza, portanto, eles eram natureza também.

Santana atracou no lugar combinado entre o dono da carga e

seus agenciadores, o de lá e o de cá. Tudo corria de maravilha.

Após o reconhecimento da carga, dedicaram-se a transportar as

peças de queijo até a margem do rio, de onde colocariam depois

na chalana. Foi quando um estranho ruído cortou o silêncio

sepulcral que envolvia o ambiente. Atentos à direção de onde

vinha o inesperado perceberam já próximos homens da guarda

costeira que agachados, tentando evitar de serem vistos,

avançavam com as armas em punho como se participassem de

uma guerra. Mais perto uma voz aos brados, se manifestou:

– ¡Quietos! ¡Parados ahí dónde están!

Pão Doce jogou-se na água e silencioso foi se afastando da

chalana em direção à costa brasileira. Mergulhão depois de vários

metros percorridos, escondido nas águas, veio à tona e também

nadou silencioso. Mulita que, dentro da chalana, ajeitava as peças

de queijo já carregadas até a margem recebeu no peito, do lado

esquerdo, um tiro de arma de fogo disparado a distância de menos

de dez metros. Ali mesmo caiu, produzindo na queda um golpe

surdo quando encontrou resistência no fundo da Santana. Caiu

como se fosse um queijo de ralar, daqueles queijos revestidos de

tinta negra, como se vestisse de luto.

Dois dias depois, com extrema dificuldade conseguiram

liberar o corpo morto de Mulita para depositarem-no em sua

derradeira morada. Em presença da família, e de amigos, e de

companheiros de tantas changas, encontravam-se Pão Doce e

Mergulhão, que compareceram ao ato, solidários. O silêncio só

foi quebrado pelo sussurro dos mais chegados que abafavam a

marca sentimental de suas dores.

Mas entre os changadores, havia aqueles que se

preocupavam com outra questão:

– Quem é que vai substituir o Mulita e contratar novas

changas pra nós?

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o Prof. Dr. Carlos Roberto Velho Cirne Lima explicou as correções que faz ao sistema de Hegel e que o tornaram referência entre os estudiosos do pensador. Uma dessas correções reside no uso incorreto da palavra contradição, que Cirne Lima substitui por contrariedade: assim, quando o filósofo alemão “fala em contradição, entenda-se contrariedade”. Refletindo sobre o conceito de autonomia baseado em Hegel, o pesquisador compreende que o eu não pode ser entendido apenas como singular, mas como um “eu expandido”, e por isso comprometido com todo o universo, pois é autônomo o sujeito que dá a si mesmo as suas leis e as cumpre. Questionado sobre a repercussão que a formalização da Ciência da lógica, realizada em parceria com o lógico Carlos Soares, Cirne Lima manifestou seu estranhamento com o silêncio que seguiu a publicação dos dois artigos que a divulgaram: “Nenhum lógico lê nosso trabalho porque ele trata de Hegel, e nenhum hegeliano o lê porque é lógica”.

O senhor poderia explicar em que consistem suas duas correções ao sistema hegeliano?
Quando falo em correção no sistema de Hegel, estou pressupondo erros que ele cometeu e que devam ser corrigidos. Esses erros foram apontados por Schelling no tempo em que Hegel lecionava em Berlim. Schelling lecionava na Universidade de Munique. Companheiro de estudos de Hegel, Schelling, depois de certo período, seguiu outros caminhos. A amizade deles, inclusive, parece que diminuiu. Schelling era, naquela época, uma das pessoas que melhor entendiam o que Hegel queria e o que havia feito. Dois ou três anos antes de Hegel morrer, Schelling ofereceu um semestre inteiro de aulas em Munique com o título Preleções sobre a filosofia contemporânea. Nessa oportunidade ele fez uma coisa inédita, porque cada capítulo é destinado a um grande pensador: Descartes, Christian Wollf , Spinoza, Leibniz, Kant, Fichte. Só que depois de Fichte vem o próprio Schelling, e ele fala dele mesmo. Depois de falar sobre ele mesmo, fala sobre Hegel. A seguir, no último capítulo, ele fala sobre si próprio novamente como o Schelling da velhice. Então, há dois capítulos sobre Schelling, e no meio deles um capítulo sobre Hegel. Nesse capítulo, Schelling critica Hegel, apontando algumas críticas corretas e com fundamento.

A primeira dessas críticas é a mais séria de todas: que Hegel nunca deu o devido valor e importância para a contingência ou, em outras palavras, a facticidade das coisas nesse mundo e, portanto, da história. Aquilo que hoje Habermas  chama de facticidade (o termo técnico é contingência), é aquilo que pode ser e pode não ser, mas de fato é. Hegel tem a tendência muito forte de dizer que tudo que é a rigor tinha que ser. Ele nunca escreve isso com essa força, com esse descaramento. Ele não é bobo… Inclusive no começo da Filosofia do direito, Hegel pressupõe claramente o mundo contingente em que podemos e devemos fazer os mais variados contratos. Esse é um lugar em que Hegel respeitou a contingência do mundo. Mas, em muitos outros lugares, ele parece negar mais e mais a contingência do mundo. Num texto importante, que tem como título A razão na história, que é a introdução à Filosofia da história de Hegel, ele escreve “para entender a história é preciso afastar a contingência”. E a objeção que Schelling faz, e depois repetida por muitos outros contemporâneos que trabalham sobre Hegel, é que, embora ele tenha e fale sobre a contingência em vários lugares e tenha certa importância, nas grandes linhas do sistema, ela é negligenciada. Ela não recebe a importância que deveria ter, de sorte que a história já em Hegel adquire um caráter necessitário, o que vai provocar o grande erro de Marx de que a história é inexorável e que, portanto, a revolução comunista é um momento inexorável da história, que necessariamente vai acontecer. Esse é o primeiro grande erro de Hegel. Ele não foi suficientemente claro em dar ênfase para a facticidade da história.

O segundo erro de Hegel
O segundo grande erro de Hegel é mais um problema de terminologia combinado com certa ambiguidade. O filósofo fala constantemente da contradição como motor do sistema. Só que todos os lógicos a partir de Aristóteles até hoje dizem que quem não respeita o princípio da não-contradição perde o uso da razão e “fica reduzido ao estado de planta” . E Hegel diz que a contradição é o motor do sistema… Essa é uma objeção que os lógicos e a filosofia analítica fazem contra Hegel e que os hegelianos não conseguem responder. Se contradição é algo tão ruim, se ela nos tira o uso da razão, como é que em Hegel a razão funciona e se movimenta mediante a contradição? A resposta que eu dou, e nesse ponto eu estou quase sozinho, acompanhado apenas por Eduardo Luft, que foi meu aluno, e por Klaus Düssing, na Alemanha, é que quando Hegel fala em contradição, ele deveria estar falando em contrariedade. Junto comigo, Düsing não apenas aceita, mas defende essa teoria. Em lógica, contradição é diferente de contrariedade. Na contradição, se um pólo é verdadeiro, o outro é falso, e é impossível que ambos sejam falsos. Ora, em Hegel, tese e antíteses são falsas, e isso é possível na contrariedade, mas não é possível na contradição. Daí então se coloca a minha correção em Hegel e dizer que quando ele fala em contradição, entenda-se contrariedade.

E a que o senhor atribui essa incompreensão do termo contradição?
Acredito que entre os contemporâneos é um problema de fé. Há poucos dias recebi um livro muito bem escrito do colega José Henrique Santos  sobre a Fenomenologia do espírito: O trabalho do negativo: ensaios sobre a Fenomenologia do Espírito (São Paulo: Loyola, 2007). Nessa obra, ele tem um capítulo inteiro em que expõe minha teoria sobre a contrariedade mas, depois, volta atrás e diz que não é contrariedade, mas sim contradição. Contudo, aí ele precisa admitir que a lógica de Hegel não tem nada a ver com a lógica contemporânea, ou seja, é outra coisa. Mas ele não consegue explicar que outra coisa essa lógica hegeliana seria. Os outros autores também são assim, ao passo que na Alemanha, em Colônia, meu colega Düsing tem a mesma teoria que eu, e chegou a ela independentemente de mim, e eu independentemente dele. A explicação é simples. Até os advogados confundem contradição e contrariedade e usam uma quando deveriam usar a outra. A mesma coisa acontece com os políticos. As palavras contradição e contrariedade, no decorrer dos séculos, ficaram com conteúdo muitas vezes flutuante e, às vezes, eram vistas como sinônimos. Já se um lógico ouve falar em contradição, ele diz que isso está errado. E se o sistema de Hegel fala em contradição, então está tudo errado. Essa é a posição de um lógico e da filosofia analítica contemporânea. Por isso é que Hegel nesse campo analítico é um absurdo. Minha teoria é de que a lógica está correta e o que Hegel quer dizer realmente é contrariedade. O que acontece é que, já no tempo dele, nem todos distinguiam corretamente contradição e contrariedade.

Professor, e após essas duas correções que o senhor sugere, como se poderia chegar a um conceito complexo de identidade e no que ele implica em termos de uma ponte com o conceito de complexidade, Teoria da Evolução, Caos e Sistemas?
Carlos Roberto Cirne Lima – No meu último livro, Depois de Hegel, toda a parte final trata sobre a Teoria de Sistemas, Evolução e Complexidade. A partir do sistema de Hegel, com as duas correções que indiquei, além de mais uma que outra modificação, eu desemboco na Teoria da Evolução e de Sistemas, que é a Teoria da Complexidade. Isso, em Hegel, vem do conceito de identidade, pois ela mesma é complexa. Então, x = x vale apenas para um lógico. Quando Hegel diz que x é idêntico a x, ele não está dizendo apenas que x = x. É por isso que no meu livro está escrito que na fórmula x = x há identidade dialética de x e de x. A lógica implica nisso. A identidade dialética é diferente do x = x, pois ela contém a oposição. Na identidade simples, o pai é o pai, e tu podes esquecer completamente o filho. Na identidade dialética se está falando sempre do pai e do filho ao mesmo tempo, portanto da filiação. Nessa identidade, existem sempre dois pólos que numa primeira etapa são separados e se opõem, e numa segunda etapa se unem, se conciliam, formando a síntese.

Identidade dialética
A identidade lógica é vazia de conteúdo, enquanto que a identidade dialética tem, dentro de si, uma oposição. Na vida real, nem eu nem você podemos dizer que somos x = x. Somos xt1, xt2, xt3, porque o tempo está passado. Agora estou sentado, depois estarei de pé. Cada vez que há um movimento, tu já não és mais apenas o x. Então tu tens que fazer uma teoria (algo que ninguém consegue fazer direito), da identidade do x sentado, do x de pé, do x neste momento, do x em outro lugar, porque em lógica contemporânea o x significa apenas aquele exato momento naquela configuração. Já a identidade dialética inclui o que eu sou e o que eu quero ser, aquilo que fui no passado. As pessoas são uma identidade dialética: elas estão no tempo e têm passado, presente e futuro. Esse é o mundo no qual vivemos realmente. A identidade lógica só vale para a matemática; não vale nem mesmo para a física, na qual já temos uma transição para a identidade dialética. A vida é um sistema dinâmico em funcionamento. Essa é a conclusão a que chego no final desse meu livro. Isso não é mais Hegel, mas uma continuação do sistema hegeliano.

IHU On-Line – O senhor poderia nos dar mais detalhes sobre a acusação de necessitarismo que o sistema de Hegel sofreu e os entraves que, a partir disso, se colocam em relação ética e à liberdade?
Carlos Roberto Cirne Lima – Se dissermos que o sistema de Hegel é necessitário, por conseqüência não há ética e nem liberdade. O necessitarismo não dá chances de escolher entre alternativas. É preciso seguir o caminho “necessário”. Marx tem uma frase que expressa isso muito bem, falando que, quando alguém entra no rio da história, não se deve tentar nadar contra a correnteza porque não adianta nada. O certo é entrar no rio e se deixar levar pela correnteza. Essa correnteza do rio é a necessidade, o necessitarismo do sistema de Marx e que se encontra pré-figurado em Hegel, pois embora tenha alguns textos contra, grosso modo, tende mais para o necessitarismo do que para uma teoria libertária.

IHU On-Line – Em uma entrevista que o senhor nos concedeu, especificamente no número 166 da IHU On-Line, o senhor diz que o panenteísmo  “nos levará a uma compreensão da unidade do Universo”, aproximando diferentes religiões. Em que medida o conceito de Absoluto hegeliano apóia essa perspectiva?
Carlos Roberto Cirne Lima – O conceito de Absoluto apóia completamente essa teoria, algo que estou formulando com palavras um pouco diferentes. O sistema hegeliano é panenteísta, não há a menor dúvida. E quando um sistema é panenteísta, há mais facilidade de diálogo com outras religiões. Vamos tomar o exemplo do maior teólogo católico do século XXI, Karl Rahner. Agora vamos pensar sobre o índio brasileiro, que nunca teve contato com os brancos e que levou uma vida muito decente, muito boa, mas nunca batizou-se ou ouviu falar de Jesus Cristo. Se esse índio morre, ele vai para o céu? Para Rahner, sim. Esse é o cristão anônimo, teoria que ele formulou e levou ao Concílio Vaticano II . Lá Rahner foi derrotado com essa idéia. Se expandirmos essa teoria, teremos, então, uma teoria ecumênica. O problema é que tanto islâmicos quanto protestantes estão caminhando a passos largos para um extremismo religioso. No Islamismo isso fica bem claro através de todas essas guerras que vemos hoje. A forma como os islâmicos tratam a mulher, o uso da burka, a introdução da lei duríssima da Charia essa tendência para o rigorismo é totalmente contra o espírito ecumênico. Uma teoria panenteísta, que há meio século teria efeitos melhores, hoje esbarra no fanatismo religioso, que não é só de uma religião, mas de várias: judeus ortodoxos, árabes e até os protestantes americanos. A Guerra do Iraque tem uma base religiosa protestante. O fanatismo religioso é o maior inimigo de uma posição ecumênica em todos os credos, inclusive no católico.

IHU On-Line – Quais foram as maiores dificuldades no projeto que o senhor e seu colega Carlos Soares , da UCS, tiveram ao formalizar a Ciência da lógica de Hegel? Como foi a recepção desse estudo pela academia?
Carlos Roberto Cirne Lima – Hegel dizia que sua filosofia não poderia ser formalizada. Só que ele estava falando da lógica do seu tempo. Entretanto, os seus argumentos atingem as lógicas contemporâneas. Assim, o Soares, que é o melhor lógico do Rio Grande do Sul, a meu convite, se debruçou sobre o assunto e tentamos fazer a exposição da primeira parte da Lógica de Hegel em lógica simbólica. O que causa estranhamento é que nenhum lógico lê nosso trabalho porque ele trata de Hegel, e nenhum hegeliano o lê porque é lógica. Então, nós fizemos algo que foi publicado numa revista de circulação ampla e não recebemos nenhuma única manifestação, quer positiva ou negativa. Em seguida, publiquei Depois de Hegel, e nele, após cada capítulo, faço uma formalização. No trabalho sobre a Ciência da lógica, fizemos a primeira parte. Agora fiz as três partes numa lógica mais simples, acessível, que todos aprendem no primeiro ou segundo semestre da Filosofia. Do ponto de vista lógico, esse trabalho é muito menos “bonito”, “perfeito”, mas em compensação, mais fácil de ler para um lógico. O texto de Depois de Hegel está muito claro, fácil de ler. Espero, num futuro próximo, que haja uma reação maior do que aquela que tivemos quando da formalização da Ciência da lógica através dos dois artigos .

IHU On-Line – E por que o senhor deu ao seu livro o nome de Depois de Hegel?
Carlos Roberto Cirne Lima – Coloquei esse nome porque se eu colocasse apenas Hegel, as pessoas perguntariam com que direito eu estou corrigindo Hegel. O livro não tem a intenção de expor o filósofo ao pé da letra, não sendo uma obra de história da Filosofia. Corrijo Hegel, mudo palavras dele, e assim a obra está baseada no pensador. Não é um livro de um comentador de Hegel. É um livro de alguém que estudou Hegel e que está escrevendo sobre ele. A culpa e a responsabilidade pelos erros e acertos são minhas. O leitor atento perceberá que nesse estudo me alicercei em erros e acertos de Hegel.

IHU On-Line – Antecipando o tema que o IHU tratará no Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma Sociedade de indivíduos?, como o senhor conectaria o “dever-ser” de Hegel com a busca e construção da autonomia do sujeito contemporâneo?
Carlos Roberto Cirne Lima – O problema da autonomia é que o eu no sentido singular é algo que não existe. Essa é uma idéia de Hegel e que vem desde Platão, passando pelos neoplatônicos como Plotino , Nicolaus Cusanus , chega a Schelling e Hegel e que eu abraço totalmente. Eu não sou apenas um eu singular. Sou nós dois que estamos conversando. Sou nós que estamos lendo esse trabalho. Sou nós que somos Unisinos. Sou nós que somos gaúchos, brasileiros, humanidade, Terra, Universo. Então o eu singular é, ao mesmo tempo, o eu universal. É por isso que eu tenho obrigações com o outro eu, que está próximo de mim, e também com o eu que está bem longe, no outro lado do planeta. Tenho obrigações com a natureza, com a ecologia. O meu eu atinge o universo inteiro. O eu verdadeiro só é verdadeiro quando é universal, o que eu chamo de autonomia, pois é o universo que dá as leis a si mesmo. E eu, enquanto universo, dou as leis a mim mesmo. Bem concretamente, se eu tomar a decisão de fazer algo, essa é uma atitude singular. Em termos estaduais, federais, por exemplo, é correto dizer que eu perdi a minha autonomia porque foram os deputados que fizeram as leis, e não eu? Não. Sou eu que estou simbolicamente na Assembléia fazendo as leis. E se eu não obedeço a alguém “estranho”, estou desobedecendo a mim mesmo. Quando eu obedeço à lei brasileira, obedeço àquele Congresso Nacional, não o singular que existe e que está cheio de ladrões, mas àquele Congresso que representa o meu eu ampliado. É por isso que, quando obedeço à lei brasileira, estou obedecendo algo que eu mesmo fiz. Isso mostra que o eu pode e deve ser expandido de tal maneira que ele abarque não só o município, estado, ou país, mas o universo inteiro. Esse é o sentido da autonomia.

IHU On-Line – Então seria correto afirmar que o conceito de autonomia hegeliano se apóia em Kant e, por isso, o indivíduo como um “nó no sistema do mundo” é aquele que age obedecendo como um eu expandido, categoricamente?
Carlos Roberto Cirne Lima – A diferença sobre a autonomia em Kant e em Hegel é que, para Kant, a autonomia diz respeito apenas ao homem, a quem ele chama de eu transcendental. Mas o eu transcendental de Kant abarca apenas os homens. Nesse sentido, uma ética kantiana é incapaz de fundamentar a ecologia. Então, de acordo com a autonomia de Kant eu posso destruir as florestas, exceto se vou prejudicar outro homem. No conceito de autonomia que eu estou defendendo, mesmo que eu não estivesse prejudicando o outro homem, a floresta tem a sua base moral, e não posso matar animais sem motivo, por exemplo. Não posso destruir uma floresta sem motivo. Posso, sim, comer um animal porque estou um elo acima na cadeia alimentar. Como a autonomia que defendo abrange o homem que se estende pela natureza e abarca o universo inteiro, esta é uma autonomia mais ampla. Kant é parecido com Hegel, porém mais estreito.

IHU On-Line – E o que a filosofia pós-moderna, de característica anti-sistema, pode aprender com Hegel? O senhor ainda acha que a Filosofia agoniza por conta dessa falta de sistema? Esse cenário continua e tende a continuar? Por quê?
Carlos Roberto Cirne Lima – Penso que o problema continua e tende a continuar. A partir da virada do século XIX para o XX, fomos destruindo a razão: prova disso são Nietzsche, Heidegger  e outros pensadores. Não há praticamente ninguém no horizonte da Filosofia que esteja tentando fazer uma visão globalizada do mundo, uma ciência universalíssima, nome usado antigamente. Os filósofos nos departamentos de Filosofia estão todos fazendo história da Filosofia, ou da Ciência. E quem está fazendo filosofia, na minha opinião, é um que outro físico e biólogo, que tem uma visão de conjunto. Acho que alguns físicos contemporâneos são muito mais filósofos do que os professores de Filosofia. Dou um exemplo: a Unisinos publicou o livro A vida no cosmos (São Leopoldo: Unisinos, 2004), do físico americano Lee Smolin. Acredito que Smolin é mais filósofo do que a maioria dos professores de Filosofia que andam pelo mundo. Por quê? Porque ele tem uma visão do mundo e quer procurar uma teoria do mundo. Essa é a idéia da Filosofia, e os filósofos a abandonaram. Não vejo nenhum filósofo dedicando-se a isso em país nenhum. Uma visão global está sendo dada fajutamente por psicanalistas e, de uma forma muito boa, por cientistas como Lee Smolin e alguns teóricos do sistema.

Como Capra, por exemplo?
Bem, cheguei a conhecer o Capra  pessoalmente. Gostamos bastante um do outro. Acho que o grande livro dele é Teia da vida (São Paulo: Cultrix, 1997), uma obra na qual ele tem uma visão global. Os outros livros dele eu não recomendo porque ele tenta uma visão global e não a atinge. A Teia da vida, contudo, é um livro que traria orgulho para um filósofo.

Qual é a importância da Fenomenologia e como o senhor percebe essa obra em relação às demais na Filosofia?
A Fenomenologia é um dos mais importantes livros da história da Filosofia. Penso, ainda, que há poucas obras para colocar em patamar de igualdade com ela. É um livro difícil de ler, mas de uma grandiosidade, de uma amplidão, de uma visão do mundo tão ampla e sábia que, dificilmente, alguém conseguirá escrever algo parecido. Há, entretanto, um erro no capítulo final, e correções precisam ser feitas. Isso porque esse capítulo desemboca em algo que pode ser interpretado de modo totalitário. Se tu me perguntasses qual é o capítulo mais belo, eu mencionaria a Vorrede (prefácio), pela sua concisão e pelo panorama que Hegel dá de cima dessa “montanha”.

Kai – a memória partilhada – e uma entrevista com a autora

Por Escritos Editora

Kai, escrito por Maria Tomaselli, filósofa e artista plástica, e que está sendo lançado pela Escritos Editora, é um livro de pura sensibilidade. Nele a autora mergulha em suas lembranças para partilhar com outras pessoas alguns fragmentos recolhidos de sua vida. Viver situações notáveis, grandes paixões, algo extraordinário, lembrar pedaços de referencialidades e contar em escrita a vida ordinária amplia a experiência de quem lê e a narrativa ganha um valor social. A vida vivida por Maria Tomaselli e por ela narrada no Kai testemunha um tempo que é coletivo.

A-artista

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Oficina Literatura Infantil com Chris Dias e Ana Berttini

Os livros infantis são fundamentais para o desenvolvimento da imaginação da criança, de seu senso crítico, além de auxiliar no aprendizado da linguagem. A leitura possibilita à criança viagens imaginárias onde ela vive mundos novos, sensações, sentimentos… e é afetada por eles. Ler é um divertimento. Ainda mais quando o texto está permeado por ilustrações. Para a criança a representação imagética desdobra o texto e se faz outro. A ilustração é um texto que se trama no texto da escrita. Ela potencializa a curiosidade e incentiva à leitura.

Todos podem ser autores de livros infantis…

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Curso Tempo e Magia no Santander Cultural

A Escritos Editora, o Santander Cultural, e a Prana Filmes oferecem o curso baseado no livro de mesmo nome produzido por José Baldissera e Tiago Bruinelli analisando filmes que focam o período da Antiguidade.

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