A Feira do Livro – a poesia em qualquer canto

Por Escritos
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Em Porto Alegre não são apenas as flores que animam a primavera, mas também a Feira do Livro. A Feira é transitória, aparece anualmente como um refúgio ao caótico urbano, tecendo uma narrativa no contexto do encontro entre leitores, escritores, amantes da escrita e da leitura e flanêurs. Flanêurs em busca de experimentações urbanas – do transitório na cidade, captando aparições casuais… Seja como for, ela traz sentimentos agradáveis ou não.

Apesar do seu objetivo maior ser em torno do livro, ela também transforma o urbanismo, a arquitetura e a cidade… acentuando a sensibilidade – tudo isso torna a cidade mais humana no período da Feira, potencializando a liberdade ou, pelo menos, o sentimento dela.

A Feira é inspiradora e transforma a praça numa moradia.

Re-inventar a cidade

Itinerários, caminhos, percursos, andanças pela cidade, se deixar levar, flanar, pura experiência sensível e, ao mesmo tempo, experiência racional do corpo e do pensamento. As marcas visíveis que se mostram na arquitetura, nas esculturas, nos monumentos, nos prédios, no traçado das ruas, nos grafites, nos personagens, nas socialidades… revelam ao espectador atento, ao turista da cidade, no primeiro plano, a cidade de pedra, mas, sobretudo, lhe revelam toda a multiplicidade conectável com marcas subterrâneas – que há muito estão a sua espera. Como um encontro marcado entre outros, de gerações precedentes, e ele.

O passado, que lhe é contemporâneo, o cuidado do presente e o imaginário se fundem num turbilhão onírico. O turista da cidade, o verdadeiramente iniciado, é aquele que, ao dirigir o seu olhar para uma janela, para um mosaico, para um vitral, vê e sonha e produz uma estética e com ela des-cobre, re-inventa o espírito do lugar. Isto é, a materialidade da pedra suscita a sensibilidade do turista da cidade e o que se produz é um texto imagético fecundo de fluxos, dobras, grandezas, combinações – uma trama. O turista da cidade é um tecelão. Ele tece com os fios da história, mas sabe que a história humana tem um quarto de realidade e, ao menos, três quartos de imaginação. Quanto mais conexões o tecelão arranjar, com os seus fios, mais rica será a sua tessitura. Uma tessitura a ser sempre recomeçada: cada vez que o turista da cidade observa uma marca, uma marca da cidade já antes observada por ele, uma nova imagem será produzida. Pois não há imitação nem semelhança, mas experimentação-estética e com ela uma explosão de imagens se encadeando, se revezando, se produzindo.

O tempo do turista da cidade é fonte de criação da qual ele recolhe as impressões que movimentam a viagem imaginária. A dança, por assim dizer, entre o mundo imaginal e a cidade de pedra é um vetor de comunhão que re-liga as gerações precedentes com o turista da cidade e seus coetâneos. O jogo de imagens progressivamente o contamina e ele ganha um novo estilo de existência, mais comunitário, mais habitado por emoções, pois o turista da cidade ao explorar o espaço urbano, seus detalhes, experimenta uma nova forma de sensibilidade. Estilo como princípio de unidade, laço, força de agregação. Em outras palavras, estilo como outra maneira de ver e sentir a cidade, que implica na passagem de uma estética da representação a uma estética da sensibilidade. Sentir a cidade, a perceber pela sensibilidade é abandonar o registro da representação.

O turista da cidade recolhe, relaciona, compara tudo o que vê e imagina o que teria se passado um dia…

Desse modo, ele funciona em dois planos: com o conhecimento do fato histórico, das relações que o produziram, o turista da cidade é capaz de montar uma versão do que foi, uma versão de algo que se aproxima do real, e conhecer o espírito da época, mas também, imerso na lógica do sensível é capaz de colocar em movimento a vida sem qualidade, as socialidades cotidianas, as situações mais ordinárias e dar sentido ao lugar. O devaneio coloca a todos em estado de alma nascente. Os dois planos com os quais funciona o turista da cidade se entrecruzam e dão à cidade uma alma, uma alma que descobre o seu mundo, o mundo onde o turista da cidade desejaria viver.

Multiplicação dos olhos. Os detalhes estão por toda a parte. Razão pela qual estar atento é uma condição. O turista da cidade olha e vê, sem estar bêbado de realismo, ele é tragado pela imagem e devaneia. Viaja pelo tempo…

O outro lado de uma cidade

Por Patrícia Belmonte*

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Andando pelas ruas da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, infelizmente não sou acolhida somente pelas suas belezas, paisagens e ruas arborizadas. Existe um contraste impiedoso que chama muito a atenção e que causa grande transtorno aos moradores desta, diante da falta de priorização a estes problemas. Um lado devastado, triste e que tem exigido da população uma incessante batalha em busca de resoluções perante aos órgãos responsáveis pela cidade.

Atualmente um dos principais problemas que encontramos é a expansão do sistema viário que vem provocando a remoção de muitas espécies vegetais de porte, que fazem parte do nosso rico patrimônio ambiental. Isso é consequência do grande aumento da frota de veículos, que têm seguido o ritmo das grandes metrópoles, diante ao número limitado de vias. São muitas obras em andamento que se estendem por um prazo longo afetando a mobilidade urbana e transformando a cidade em um verdadeiro caos, principalmente nos horários que conhecemos como “horário de pico”, onde o fluxo é muito maior, aumentando assim, consideravelmente, a poluição e o stress.

Uma das alternativas viáveis seria a construção de mais ciclovias. O uso das ciclovias é uma questão cultural, usada primordialmente em países mais desenvolvidos. Essa é uma resolução que depende muito da vontade pública e da postura de seus gestores diante ao ganho social que estas trariam a população.

Outro grande problema que nos deparamos é o da iluminação pública, enfrentei há pouco tempo à dificuldade de manutenção de algumas lâmpadas queimadas nos postes da minha rua, na zona sul de Porto Alegre, deixando-nos em um grande breu quando anoitecia. Ligamos, eu e outros moradores, incansáveis vezes ao departamento responsável pela iluminação pública que nos prometia resolução da questão, mas apesar da nossa insistência por um direito que é nosso e ao qual pagamos, só obtivemos o problema sanado depois de vários meses, sendo que dentro deste período ocorreram números ainda maiores de assaltos e roubos que eram facilitados pela escuridão.

Já falando sobre segurança, este é um assunto que nos preocupa imensamente. O que nos deparamos é com um gradual e acelerado crescimento da violência e não vemos nenhum plano nem projeto de Segurança Pública para enfrentar essa criminalidade. Percebemos uma grande inversão de valores onde os trabalhadores, os cidadãos de bem que pagam seus impostos e lutam por uma igualdade social têm pagado um preço alto demais.

O importante é que seja entendido pelos governantes que a Segurança Pública e a Saúde lidam com vidas e quanto a isso é inquestionável a priorização de soluções imediatas dos problemas. É urgente a necessidade de uma grande mudança por parte dos responsáveis.

Poderia seguir relatando diversos problemas mais que enfrentamos na nossa Porto Alegre, diante disso tudo, nem tão Alegre assim. Atualmente, entendo que os problemas se expandem nacionalmente, na questão da violência, até mesmo mundialmente perante esses ataques que temos visto com frequência pelo mundo, mas acredito que a mudança começa do pequeno até alcançar o grande.

Se cada cidade, estado, país e principalmente as pessoas como seres humanos, buscarem uma compreensão maior dos nossos problemas, das causas e possíveis resoluções, e também passarem a compreender que esse não é um problema individual e sim coletivo, onde precisamos pensar na massa e não apenas somente em si já estaremos abrindo um novo caminho.

O conhecimento e a união são forças imprescindíveis a resolução dos problemas.

* Estudou Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, Letras, Língua Portuguesa e Literatura

Minha visão poética de Porto Alegre

por Patrícia Belmonte *

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Porto Alegre é a capital do estado mais meridional do Brasil, o Rio Grande do Sul. Terra do Laçador, monumento que recepciona a todos na entrada da cidade. Também é conhecida por muitos pela beleza de um por do sol inigualável, que pode ser apreciado a beira do Lago Guaíba, popularmente conhecido como Rio Guaíba.
Detentora de muitos prêmios e títulos que a distinguem como uma das melhores capitais brasileiras para se viver.
Uma cidade de grande diversidade cultural e que preserva com muito orgulho suas tradições folclóricas e um considerável patrimônio histórico de construções centenárias, como a belíssima Casa de Cultura Mário Quintana, o antigo hotel Majestic, onde viveu o poeta.
É berço de grandes nomes difundidos pelo Brasil e exterior em várias áreas, da Literatura a Ciência.
Envolta na virtuosidade desta cidade na qual nasci me rendo às palavras para compor poemas, textos e citações.
Abaixo segue um de meus poemas escritos durante uma excursão pelas lembranças dos lugares em que encontro aconchego para apreciar as belezas que ainda nos restam e as quais nos cabem preservar.

O lugar em que habito é berço de muitas moradas
Abraça irmãos, calorosamente,
Que vem chegando desde os primórdios
Advindos de outras alvoradas.
O por do sol acolhedor
Que resplandece a beira do grande lago
Traz em si o opulento fascínio
De uma cidade encantada
Onde a coragem dos homens renasce esperançosa a cada passo de sua jornada.
Na devassidão do mundo
Preservamos a essência de um povo
Plantamos sementes pelos caminhos
Pintamos de verde a nossa estrada
E assim mantemos a beleza de uma cidade arborizada.
Somos o grandioso hotel do poeta
Moradia de palavras e sonhos
Onde o magnetismo da liberdade cultural nos enleva
Abrem-nos as portas da inspiração,
De um gaúcho espectral, idealista, romântico e teórico,
Que em poucas palavras nos ensinou que todos aqui passarão,
Mas que só a liberdade dos sonhos poderá nos fazer passarinhos.
Faço do meu porto mais alegre e convido todos a chegar
Pois é na roda de chimarrão que nós, gaúchos,
Preservamos nossa união.

* Estudou Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, Letras, Língua Portuguesa e Literatura

Fragmentos

De maneira irreverente, Fragmentos traz ao leitor uma reflexão crítica de situações do cotidiano – lugar onde tudo acontece, do individualismo, desse mundo globalizado regido que está pela hipocrisia dos mercados…, mostrando, ao mesmo tempo, a urgência de um olhar amoroso para o outro e o seu acolhimento. Na vida humana, as escolhas não são simples, é difícil discernir com clareza – quando se tem algumas possibilidades e poucas certezas. Fragmentos funciona como uma bússola ética que, sem perder de vista sua aplicação prática, questiona comportamentos contemporâneos.

 por André Portella *

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Julgamento oportunista

Elogiamos ou censuramos, a depender de qual nos dá mais oportunidade de fazer brilhar nosso julgamento. Oportunismo cabe aos vaidosos em sua maioria.

 Pensar ou subserviência

O pensamento liberta a alma, a ignorância e a subserviência. Imaginemos se a sociedade pensasse, o que seria do REI.

 Espadachim

Gosto dos valentes, mas não basta ser um espadachim: também é preciso saber a quem ferir. E, muitas vezes, abster-se demonstra mais bravura, reservando-se para um inimigo mais digno.

Monstros

Quem luta contra os monstros deve ter cuidado para não se transformar em um deles.

Compas

Preciso de companheiros, mas de companheiros vivos, não de cadáveres que eu tenha que levar nas costas por toda parte.

*Professor escritor
Pós graduado em Ciências Sociais
Mestre em  Engenharia Ambiental/Sanitário

No final do dia o professor está arrasado

A educação escolar deve integrar e não separar – não pode ser vista como instrumento de distinção de classe, de pertencimento a um meio, a uma classe social. Aquele que vai para a escola vai para descobrir, conhecer, amar. Entretanto, em um país como o Brasil onde a cidadania passa pelo consumo, onde ter vale mais do que ser, a escola pública e privada – em geral – preocupada em manter o status quo, não produz uma cultura que considera a fecundidade dos seus estudantes e nem a importância dos seus professores. Tudo se passa como se tais categorias não fossem parte de um mesmo processo de aprender e ensinar, do processo de construção de uma inteligência crítica, do processo de desenvolvimento do poder interrogativo de suas subjetividades, com efeitos políticos concretos.

O efeito induzido pela escola brasileira contemporânea nega a sua própria função de ensinar conhecimentos e a transforma em um campo minado no qual professores e estudantes, em trincheiras opostas, se protegem um dos outros. São ambos vítimas do próprio sistema que os faz esquecer que a liberdade é o bem supremo, que a liberdade não é o usufruto de plenos poderes e nem incentiva a competição entre classes sociais ou categorias sociais tais como estudantes e professores.

Difícil ser professor na escola brasileira contemporânea – como muito bem mostra o texto que a Escritos Editora recebeu de um dos seus leitores.  A Escritos é grata por ele e o coloca no blog para que todos que o lerem possam refletir…
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No final do dia o professor está arrasado

Por José Mário Carvalho *

O dia 23 de março de 2009 marcou a carreira da professora Glaucia Terezinha Souza da Silva. De acordo com o delegado Christian Nedel, titular da 1º Delegacia da Criança e do Adolescente de Porto Alegre, a professora recebeu chutes e socos de uma adolescente após uma advertência nas dependências da Escola Estadual de Ensino Fundamental Bahia, localizada na Zona Norte da capital gaúcha. De acordo com o delegado, em entrevista ao jornal Zero Hora, a professora havia sido jogada no chão e perdido a consciência por alguns minutos. Ao ser socorrida no Hospital de Pronto Socorro foi constatado o traumatismo craniano, após exames realizados pela equipe de pronto atendimento.

Fatos como esse permeiam a realidade da educação brasileira, onde a busca por soluções figuram como miragens num plano distante. O jornalista Marcelo Gonzatto, inspirado no caso da professora Glaucia Souza, inicia um série de reportagens no jornal Zero Hora, oito meses após o ocorrido. Sob o sugestivo título Escolas Conflagradas, a reportagem reúne relatos de profissionais sobre o público atendido, remuneração, saúde, perspectiva de vida e carreiras. A reportagem ilustra de maneira pontual a infraestrutura do sistema de ensino gaucho onde a qualidade no serviço prestado é no mínimo questionável ou duvidosa.

Fatos…

Pesquisa divulgada em 13 de outubro de 2015 pela Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta o Brasil na 60º posição no ranking internacional de Educação num total de 76 países participantes.

A constrangedora posição do país demonstra a precariedade histórica do ensino nacional que atrasa e dificulta todas as iniciativas de elaboração de um projeto contundente de desenvolvimento. A realidade é ainda mais grave quando as analises permeiam o cotidiano da sala de aula e todos os expoentes envolvidos.

Tragédias como as da professora Glaucia Terezinha não se configuram como problemas a serem solucionados e superados. Ao contrário: o crescente descaso com o processo de alfabetização do indivíduo é nítido e crescente agravando ainda mais a situação instável da jovem democracia brasileira.

Experiência única…

O ensino privado convive há décadas com arbitrariedades que já se tornaram “institucionalizadas” pelo corpo diretivo e pela sociedade civil, que transfere para a escola a função de “educar” o aluno. Trata-se de uma lógica inversa, na medida em que o papel histórico dos estabelecimentos de ensino consiste em alfabetizar o indivíduo e estimular o pensamento criativo e autônomo cabendo as organizações familiares o papel de “educar”.

Estar atento para os valores éticos e morais do indivíduo é condição básica para um processo de formação. A família deve zelar pelo bem estar e confiar que a escola desempenhe seu real papel.

Questionar a metodologia da instituição bem como do corpo docente, é um direito legítimo de todo cidadão que procura o melhor para seu filho. A busca por informações é válida e auxilia no momento da escolha. Indicar sugestões para o aprimoramento ou melhorias da instituição é um ato de cidadania e real preocupação com o processo de formação do estudante.

No entanto, a realidade escolar brasileira obedece à lógica do ranking elaborado pela OCDE. A mercantilização do ensino não segue os critérios de qualidade e satisfação do cliente. Atualmente, o ensino é um substrato secundário da realidade nacional onde a sociedade civil não se identifica e projeta decepções ou sentimentos similares.

Encontros envolvendo a comunidade escolar geralmente não resultam em melhorias significativas. Questionamentos pautados em “notas” e acusações são comuns e ocorrem com frequência desgastando ainda mais a imagem da escola e do profissional de ensino.

Em dezesseis anos de profissão, vivenciei e participei de inúmeros encontros escolares. Divulguei notas, aprovei e reprovei alunos baseado nas normas das instituições. Elaborei e participei de projetos extracurriculares e sempre mantive uma posição de austeridade nos encontros diários. No entanto, devo reconhecer que ser acusado de maneira leviana de “apoiador do regime militar” foi o adjetivo mais inusitado de toda a minha carreira.

Particularmente, não consigo me identificar com qualquer forma de autoritarismo político e pessoal, tampouco uma ditadura organizada por militares. A livre iniciativa, o empreendedorismo, o Estado eficiente e o respeito as instituições democráticas sempre foram valores que procurei passar a jovens e adolescentes. A busca por um país onde a corrupção seja combatida dentro do espírito democrático é uma constante nos encontros de Sociologia e História.

Faço uma analogia com o caso da professora Glaucia. Ambos estavam desempenhando seu papel e buscando o melhor dentro de uma sociedade onde normas e leis são facilmente negligenciadas. Ambos estavam zelando pelo direito legítimo e constitucional dos estudantes. Independente da classe social, todo cidadão brasileiro possui o direito de frequentar o circulo escolar. E ambos foram agredidos no cumprimento do dever. Ambos tiveram seus casos minimizados pelas instituições e pela sociedade civil e ambos tiveram que lidar com o fato de que pais desinformados e alunos sem perspectiva fazem parte do tecido social brasileiro. Autoritarismo e Ditadura são chagas superadas na realidade política atual. Amadurecemos como país e como sociedade. A imprensa livre e o fortalecimento dos Poderes pavimentam o caminho do nosso futuro. No entanto, apesar dos inegáveis avanços das últimas décadas, ainda temos desafios urgentes a serem enfrentados e superados. No final do dia… “No final do dia o professor NÃO deveria estar arrasado”.

 

 

* Licenciado em História
Pós-Graduado em Sociologia

Pluralidade econômica e democracia *

Isabelle Hillenkamp e Jean-Louis Laville

poliA nova Sociologia Econômica e a Escola das Convenções, ao se concentrarem nos microarranjos, podem subestimar as forças do mercado, enquanto as macrossínteses, tais como a Teoria da Regulação, podem superestimá-las, conferindo ao cosmos capitalista um caráter implacável. Por levar em conta as formas não mercantis de coordenação e a interação entre grandes áreas institucionais, a Sociologia Econômica francófona certamente aprofunda mais a análise das relações complexas entre economia e sociedade do que a nova Sociologia Econômica norte-americana, centrada na construção social dos mercados. Mas nenhuma delas, ao menos em seus desdobramentos principais, aborda de maneira aprofundada a questão crucial dos vínculos entre pluralidade econômica e política. Assim, por um lado, a insuficiente consideração das forças do mercado na nova Sociologia Econômica e na Escola das Convenções pode levar a ver apenas a extrema variabilidade dos mercados; por outro, a focalização nas forças do mercado operada pelas macrossínteses pode culminar em um horizonte limitado pelas formas institucionais do capitalismo. Todas essas abordagens, bem contrastadas, avalizam, finalmente, a centralidade do fato mercantil no fato econômico. Por razões opostas, as interrogações sobre a conciliação entre fato mercantil e ordem política, assim como aquelas sobre a compatibilidade entre capitalismo e democracia, são deixadas de lado, embora sejam essenciais para inúmeros autores de Filosofia Política. Jürgen Habermas (1981) destaca que “entre capitalismo e democracia, há uma relação de tensão insuperável”.

Portanto, convém reagir a uma visão estrita da neutralidade axiológica, que deixaria sem resposta essa problemática, reanimada pela crise atual. O cientificismo ofuscado pela purificação em relação a qualquer valor é epistemologicamente insustentável em um período em que toda a sociedade se preocupa com a relação com a economia. Numa orientação análoga àquela defendida por Philippe Chanial (2011), parece necessário optar por uma Sociologia Econômica associada a uma reflexão filosófica. Isso constitui a primeira característica deste livro, que começa por textos de Filosofia Política e prossegue com capítulos de Economia ou de Sociologia, postulando uma continuidade e uma contiguidade nas preocupações dos articuladores. Todos eles investigam as relações entre economia e sociedade sob o ângulo da preservação e do aprofundamento da democracia, a partir do suporte essencial da obra de Karl Polanyi, que trata dos laços entre pluralidade econômica e política.

Para além da pluralidade das formas de racionalidade e dos modos de coordenação, Polanyi (2011) identifica o sofisma economista, isto é, a redução da economia ao mercado, como um problema maior de nossa época, sugerindo indiretamente que a reabilitação de uma pluralidade de princípios de integração econômica poderia lhe fornecer uma solução. Ele concede um grande espaço à demonstração da existência dessa pluralidade de princípios “de integração econômica”: além do mercado, a reciprocidade, a redistribuição e a administração doméstica constituem, segundo o autor, “princípios de comportamento” pelos quais “a ordem é […] garantida na produção e na distribuição” (Polanyi, 1944). Se o sofisma corresponde à definição formal da economia pela raridade que determina o caráter lógico da relação entre os meios e os fins, o reconhecimento da pluralidade dos princípios de integração coincide com uma definição substantiva da economia. Tal definição admite a dependência do homem à natureza e a seus semelhantes e considera que a satisfação das necessidades humanas passa por uma interação institucional (ibid.). Nesse sentido, uma Sociologia Econômica atenta à pluralidade institucional e política não pode se contentar nem com o exame detalhado de mercados particulares, nem com a constatação recorrente de uma dominação capitalista. Mostra-se indispensável articular uma crítica às tentativas de absolutização da ordem econômica que repousa sobre sua definição formal a uma atenção pragmática às práticas socioeconômicas que ultrapassam os mercados, mobilizando princípios e integração visibilizados por uma concepção substantiva da economia. Desse modo, Polanyi alerta para uma Sociologia Econômica de alcance limitado, inteiramente construída a partir do conceito de troca, que só é universal em uma sociedade de mercado. Ele defende uma ampliação do ponto de vista da análise a fim de cobrir “estas zonas em que se encontram as fronteiras da economia de mercado e da economia sem mercado” (Polanyi, 1963, citado por Chavance, 2011).

 

* Fragmento da introdução do livroSocioeconomia e democracia: a atualidade de Karl Polanyi, organizado por Isabelle Hillenkamp e Jean-Louis Laville

O fio dental

Maria Tomaselli *

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Por que começou a escrever alguns textos, nem ele sabe explicar direito.  O primeiro pedido de um colega para fazer a apresentação de sua exposição, Vito recusou, de medo. Medo de não conseguir captar a mensagem dos trabalhos do amigo, medo de não conseguir se expressar. Nunca havia escrito um texto nesse sentido, apenas redações para o colégio e uma ou outra carta mais rebuscada. Embora tivesse um diário, inicialmente um durante sua adolescência, que se perdeu no decorrer das suas muitas mudanças; ou será que ele o havia jogado no lixo? De qualquer jeito não lembrava muito do que havia escrito nele. Depois começou a anotar seus trabalhos, anotações puramente técnicas, sobre tamanhos, materiais, eventuais títulos, ano de execução. Numa tentativa de não se perder. Começava por numerar as obras, se perdia nos números, optou por colocar títulos, lembrando Paul Klee e seus títulos poéticos, que faziam até parte do trabalho em si.

Nesses cadernos de anotações ele fixava também alguns acontecimentos, exposições que o marcaram, algumas brigas entre artistas da cidade, achando-as engraçadas, não queria perdê-las. Começou a anotar dúvidas sobre seus trabalhos, sobre teorias de arte, sobre o circuito em geral. Pequenas anotações, como pinceladas, e bem esporádicas.

Só quando morreu sua amiga e tutora de anos, sem que ninguém tivesse notado sua partida, por ela ter se mandado em plenas férias de verão, numa época pré-redes-sociais (hoje ninguém mais escapa, nem vivo, nem morto), ele fez um texto, mais para ele mesmo, para fixar e focar a memória de um ser tão especial.  Nesse momento nasceu um prazer nunca antes vivido: o da palavra certa, de frases felizes, escolhidas, pensadas, sentidas, e não apenas algum escrito burocrático. Levou uma semana, reescreveu o texto várias vezes, cada mudança lhe trouxe novos sentimentos, novas conexões. Era como na pintura, na escultura, na gravura. Cada traço, cada mexida no gesso, cada linha gravada diferentemente abria outro caminho, exigia a cada momento uma escolha, uma decisão, uma tomada de posição. Era um turbilhão de possibilidades no qual ele precisava “se achar”, decidir, era algo vivo e jamais concluso.

Nas suas leituras começou a observar o lado da feitura do texto, das escolhas feitas pelo escritor. Antes de ele mesmo escrever, se deixava levar pela história (ou é estória?), pelos sentimentos provocados, pela curiosidade de ver o que vinha mais adiante, para não dizer para ver como terminava. Como sua tia Margarete, que só lia romances de amor, mas começava com as últimas páginas, para ver se tudo acabava bem. Tristes fins não lhe serviam, de tristezas bastava a vida. Tia Marga vivia nos sebos da cidade, escolhia os livros pelas capas, com casais se beijando, mocinhas sentadas embaixo de árvores, perdidas em pensamentos. Ela folheava os livros e só levava para casa o que lhe prometia prazer, uma projeção de felicidade, nem que fosse apenas alheia.

Vito descobriu que era preciso descrever tão bem os personagens, com detalhes, que através desses sua alma pudesse se desvendar, através dos gestos, das roupas, dos objetos de uma casa, das pequenas ações muito mais do que das grandes decisões.

No fundo ele sabia disso desde sempre, só havia esquecido de como, ainda no secundário, teve essa revelação. Esqueceu-se de tudo que estava escrito no livro, inclusive de seu título; só um trecho lhe ficou na memória, renovada diariamente perante o espelho, sempre que escovava os dentes:  primeiro de que é preciso, além de escovar os dentes, usar um fio dental. A descrição dessa operação lhe deu a noção da importância do detalhe, da observação, da concentração, do mergulho numa ação corriqueira:

O personagem abria a gaveta, pegava uma seda brilhosa bem enrolada, que, logo ao ser desenrolada, já exalava um delicioso perfume de menta, convidativo de ser cortado e colocado na boca, de ser degustado. Ele enrolava o fio no dedo indicador e médio da mão esquerda, fixando-o com o polegar e o esticou com a mão direita, tendo a seda enrolada no dedo médio e anular, tendo o polegar esquerdo a função de guiar o fio dental, na parte superior da arcada dentária, porque na parte inferior era o dedo indicador da mão direita que o empurrava para o vão entre os dentes, mas para tirá-lo de lá de dentro ele precisava de novo do polegar que na parte superior era capaz de fazer as duas ações.

O que marcou Vito na sua juventude tão longínqua, na sua inocência de leitor iniciante, não foi tanto esta descrição dos movimentos dos dedos, o que o chocou foi de como o autor havia observado os mínimos detalhes, especialmente esse: ao retirar o fio por entre os dentes de baixo, pequenas partículas de restos de comida haviam sido catapultadas contra o espelho, que refletia a boca retorcida de um rosto que não se sabia sorridente ou em angústia. Dos dentes de cima não acontecia nada disso, os pedacinhos ficavam na boca mesmo, que precisava ser lavada logo; ai que nojo.

Não é que com Vito acontece a mesma coisa?

* Artista plástica e escritora, autora de Kai

O medo, a esperança e a política do tempo presente

Bernardo Corrêa *

received_547700908742585O filósofo e professor Vladimir Safatle escreveu recentemente que a política é a arte de afetar os corpos e levá-los a impulsionar determinadas ações. O medo e a esperança são afetos mobilizadores na política, como podemos notar no mundo e no Brasil atuais.

Podemos dizer que há, pelo menos na interpretação da atividade política, um pêndulo que oscila entre Hobbes, quando o Estado faz com que as leis sejam respeitadas por meio do medo que impõe aos súditos, e Spinoza quando “a esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida”. Mas assim como o Estado não pode operar o tempo todo por meio da coerção, não há como existir esperança sem medo ou medo sem esperança, são dois afetos ligados a uma mesma temporalidade, distante do presente. Se esperamos algo é porque tememos que outra coisa possa vir a ocorrer e vice-versa.

A crise atual do capitalismo e da democracia liberal reserva aos sujeitos individualizados uma impotência de duplo sentido. A precariedade da vida social produz esvaziamento das esperanças e nossa crescente incapacidade de projetar um futuro distinto, cabendo então à política converter-se em uma gestão social do medo. Por outro lado, a crise do socialismo como paradigma de transformação incide diretamente sobre a esperança. Então, medrosos e esperançosos lançam as expectativas de mudança da realidade para uma temporalidade exterior ao tempo presente e convertem a dúvida sobre o passado e o futuro em alienação da ação política, sem ver que o velho que morre ainda não deixou o novo nascer em sua plenitude. A atividade teórica passa então a mera especulação sobre o real ou resignação a ele. Retomar as rédeas da ação política como parte de nosso cotidiano é, de verdade, a única forma de evitar que a dúvida nos paralise e deixemos de lutar pelo que é necessário histórica e individualmente.

Nesses tempos, nos quais a política aparece para milhões como uma atividade corrupta, desprovida de conexão entre a ação do indivíduo e o bem comum, há uma sensação generalizada (e correta) de desamparo. Para combatê-la é preciso prestar atenção e apostar nas potencialidades do novo que surge agora mesmo. Novos movimentos, novos protagonistas da história, novos costumes e concepções às quais devemos estar abertos. Como disse certa vez Lacan, “viver sem esperança é também viver sem medo”. Faz-se urgente recolocar na ação presente a fonte alternativa para pensar novos circuitos de afetos que não passem nem pelo medo nem pela esperança. Os futuros possíveis dependem da análise concreta, da ação política consciente e inscrevem-se precisamente no presente.

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BIBLIOGRAFIA

RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. In: WEFFORT, Francisco (Org). Os clássicos da política, vol. I, Ed. Ática, 1995.

SAFATLE, Vladimir. O afeto como utopia. Disponível em: < http://www.mutacoes.com.br/sinopses/o-afeto-como-utopia/>

SPINOZA, Benedito. Ética III, definição dos afetos.

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* Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, militante do PSOL, autor do livro Revitalização sindical em tempos de terceirização.